Momentos económicos… e não só

Estive no Pingo Doce, paguei 50% e sobrevivi!

34 comentários

Hoje certamente ainda muito se falará sobre a promoção do 1º de Maio de 2012 feita pelo Pingo Doce.

Há várias abordagens possíveis, incluindo a política, mas vou-me centrar na leitura económica. No final deste post, descrevo brevemente a minha “saga” numa loja Pingo Doce.

A principal questão económica que surge é como vender com 50% de desconto pode ser feito sem ser venda com prejuízo, e nesse caso não deveria a empresa ser sancionada por vender com prejuízo? Se a empresa tem margens de 50% para não ser venda com prejuízo, então não deveria baixar os preços nos restantes dias do ano? ou terá conseguido um acordo com fornecedores para baixar os preços desta forma num único dia?

Primeiro, embora não conheça os detalhes da operação do Pingo Doce, as alternativas de o Pingo Doce ter margens superiores a 50% em todos os produtos que beneficiam do desconto, ou sequer em alguns deles num volume substancial para que não tenham prejuízo nas vendas, não parece uma hipótese razoável.

Do mesmo modo, é improvável que os fornecedores tenham feito descontos de forma a tornar possível esta promoção.

Fiquemos então com a venda com prejuízo, que muita gente já se apressou a comentar e a “decidir” como motivo para sanção da empresa. Aliás, a tendência legalista portuguesa é tal que não só vão existir leituras literais (e provavelmente adulteradas) da lei, como se vai pedir legislação específica para impedir promoções de um dia (aposto que alguém vai pedir…).

Mas vamos à substância, e ainda no campo legal – vender com prejuízo é apenas um problema a ser tratado em sede de defesa da concorrência se preencher diversos critérios:

a) a empresa em causa tem que ter posição dominante num mercado relevante (por isto, entende-se que nos diversos mercados de actuação da empresa, tem que possuir peso suficiente para se poder comportar de forma relativamente livre da concorrência que defronta)

b) o espirito de sancionar venda abaixo de custo é impedir a sua utilização como instrumento predatório – isto é, só é um problema se fizer parte de uma estratégia prolongada de forçar concorrentes a sair do mercado, para depois poder explorar a sua posição dominante através de preços mais elevados no futuro (daí a importância do ponto anterior)

c) para além de objectivos predatórios sobre a concorrência, se alterar a dinâmica  concorrencial dos mercados, poderá ser também prejudicial aos consumidores e à economia e dever ser penalizada (por exemplo, e sendo ainda mais técnico, se esta venda com prejuízo corresponder a uma “punição” de concorrentes por se terem “ameaçado” entrar numa guerra de preços – seria um aviso para que não sejam muito agressivos, ou então…)

No fundo, o teste final é saber se os consumidores sairão prejudicados, num prazo de tempo razoável, por esta promoção, para avaliar se tem efeitos anti-concorrenciais que justifiquem uma intervenção das autoridades económicas.

A meu ver, e apesar de ser contra-corrente das opiniões que têm sido expressas, não creio que levante qualquer problema concorrencial. Foi uma promoção esporádica, num dia, que deu notoriedade à empresa. Não é esta promoção que coloca concorrentes fora do mercado. Não é esta promoção que garante uma fidelização profunda dos consumidores. Não é esta promoção que dá a possibilidade da Jerónimo Martins praticar preços mais elevados no futuro.

Onde pode residir alguma dúvida é sobre se faz parte de uma estratégia de “aviso” aos concorrentes, aspecto que é normalmente muito difícil de comprovar. Terá que se ver se face a campanhas de descontos de outros distribuidores, voltam a existir promoções deste género, ou se as campanhas de descontos dos concorrentes registam uma inversão depois deste 1º de Maio a 50%.

Em termos de funcionamento do mercado, campanhas de descontos que obriguem a compras repetidas ou descontos que resultem de “compras conjuntas”, por obrigarem a uma menor mobilidade dos consumidores entre concorrentes são potencialmente mais lesivas do funcionamento do mercado (podem não criar problemas, mas justificam mais uma avaliação por parte das autoridades económicas do que esta campanha de um dia).

Há ainda uma distinção adicional – noutras situações de venda com prejuízo de grandes superfícies de distribuição a retalho, a venda com prejuízo nuns produtos pode ser usada como “isco” para os consumidores uma vez na loja comprarem outros produtos que têm margens mais compensadoras, o que em média se traduziria numa margem média positiva para os retalhistas, e até eventualmente num preço médio do cabaz adquirido mais elevado para o consumidor. Essa questão não se coloca aqui, uma vez que o desconto incide sobre todos os produtos.

Fica então a pergunta de porquê ter gerado tanto incómodo esta promoção?

Uma primeira resposta é política – houve uma intenção deliberada de fazer do 1º de Maio um dia de trabalho ou de consumo, mas não de celebração. E sobre intenções de um lado e de outro sobre esta visão política não me pronuncio. Claro que esta leitura política poderia ter sido evitada se a promoção tivesse tido noutro dia.

Uma segunda resposta é social – há uma vontade de ver com maus olhos tudo o que as grandes empresas façam, e no caso do Pingo Doce ainda estará na memória a mudança da sede para a Holanda.

A terceira resposta é que temos um “paternalismo” atroz e gostaríamos que estas empresas decidissem da forma que achamos correcta – “há liberdade de escolha desde que coincida com a minha visão”

Podem existir outras respostas. Não pretendi ser exaustivo.

Peço apenas que se pensem em duas situações alternativas, e que reacção se teria sobre elas:

– imaginemos que o Pingo Doce pegava no dinheiro todo que lhe custou esta campanha (na presunção de que sacrificou alguma margem), e em vez de baixar os preços atribuía subsídios publicitários aos cinco principais clubes de futebol do país. Gastava o mesmo, mas não seria criticado (talvez até fosse louvado). Mas os consumidores não beneficiavam directamente da utilização destas verbas!

– imaginemos que o Pingo Doce pegava no dinheiro todo que lhe custou esta campanha (na presunção de que sacrificou alguma margem) e oferecia a instituições de solidariedade social. Certamente não seria crucificado como está a ser, e até seria mostrado como exemplo de responsabilidade social. Mas porque é essa a única forma de ajudar os outros e não através de descontos? (independentemente das nossas preferências, não devemos aceitar as visões diferentes dos outros, desde que não tenham outros efeitos negativos?)

Ou seja, descontando o incómodo político do dia escolhido para a promoção, a visão à partida negativa sobre tudo o que as grandes empresas façam, e a imposição das preferências individuais sobre as acções dos outros, e não havendo, até prova em contrário, um efeito negativo sobre os consumidores desta promoção, o que fica?

Talvez as imagens de prateleiras vazias, e muita gente a tentar entrar para aproveitar; talvez os relatos de esperas de horas para ter um carrinho para entrar no supermercado, e depois as várias horas de espera para pagar; talvez a falta de civismo entre consumidores?!

E como prometido no início, aqui vai a minha “saga” no dia de ontem. Vivendo a curta distância de um Pingo Doce, que utilizo para as compras regulares, não havia razão para não aproveitar a ideia. Cheguei ao dito cerca das 10h00, muita gente, mas sem restrições de entrada, não havia carrinhos disponíveis mas deu para utilizar os “trolleys” mais pequenos. Estando cheio era difícil circular, mas não impossível. Quem pagava e deixava o supermercado avisava da disponibilidade de carrinho ou dos “trolleys” (vi várias pessoas fazerem isso). As zonas de talho e peixaria estavam bastante cheias, nem me aproximei. Compras regulares do mês: detergentes de limpeza, cereais de pequeno almoço, azeite, massas, arroz, alguns enlatados, etc…

Filas para pagar maiores que o habitual, com a estratégia portuguesa tradicional a ser seguida por muita gente – um fica na fila para pagar, outro anda para trás e para a frente a encher os carrinhos até ser momento de pagar – demorou talvez 20 a 30 min para se despachar esta parte, e às 11h15 estava já fora, e com pagamento por metade.

Ainda me passou pela cabeça que se calhar nem tudo estava incluído na promoção – injustiça da minha parte, o que paguei foi exactamente metade do valor registado.

Depois pensei – vai-se a ver e aumentaram os preços para que o desconto de 50% não seja mesmo 50% sobre o preço habitual. Felizmente, como tinha recibos de outras compras em dias anteriores, deu para ir ver alguns produtos – o preço era o mesmo na maioria, nuns subia uns dois cêntimos, noutros era mais baixo uns dois cêntimos, nada de significativo. Na verdade, não verifiquei todos os produtos, mas apenas os de compra mais habitual e de maior valor. Mas fiquei razoavelmente convencido de que não houve ajustamento especial de preços para este dia.

Tudo junto, estive no Pingo Doce a 1 de Maio, poupei 50% e sobrevivi para contar!!

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Autor: Pedro Pita Barros

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa

34 thoughts on “Estive no Pingo Doce, paguei 50% e sobrevivi!

  1. Sobre a parte mais legal do problema:

    O que são vendas com prejuízo? – Jornal de Negócios: http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=554213

    Sobre as questões de concorrência na distribuição alimentar, sugiro a leitura do “Relatório da Autoridade da Concorrência sobre as Relações Comerciais entre a Distribuição Alimentar e os seus Fornecedores” da Autoridade da Concorrência (Outubro de 2010): http://www.concorrencia.pt/SiteCollectionDocuments/Estudos_e_Publicacoes/Outros/AdC_Relatorio_Final_Distribuicao_Fornecedores_Outubro_2010.pdf

    noticias: http://www.ionline.pt/portugal/no-1-maio-os-portugueses-foram-ao-supermercado

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  2. Estive no Pingo Doce a 1 de Maio, poupei 50% e sobrevivi para comentar!!
    Vinha apenas revelar que gostei das interpretações alternativas, de facto se tudo o resto estiver mal mas o Benfica ganhar, o povo português é mais feliz (sem querer ofender as outras cores mas temos de admitir que esta é a maioritária no nosso País) e se virmos esta campanha de um ponto de vista de fazer as pessoas felizes, então tem a minha “benção”. Pelo menos no “meu” Pingo Doce vi várias pessoas felizes, de diferentes etnias, idades (só tenho pena que tenham levado crianças para ir para a fila prioritária mas não vamos fugir ao assunto) e carteiras todos se ajudavam na hora de esperar na fila já que nem todos vinham preparados para levar tudo aquilo que afinal quiseram. A minha avó levou o seu peixe preferido por metade do preço, o meu pai entreteu-se a encher a garrafeira, a minha mãe estava nas sete quintas visto ser a maior adepta dos descontos e eu aproveitei para fechar os olhos à dieta e escolher a melhor tablete de chocolate. Sem qualquer tipo de remorso da minha parte fico porém com pena que aquilo que tenha passado para fora tenha sido um dia de exploração do trabalhador, de consumo desenfreado ou de concorrência desleal visto que, quem lá passou (eu e sei que outros pensam o mesmo) interpretou como um dia em que os trabalhadores do Pingo Doce aproveitaram para fazer dinheiro extra (mesmo que isso implique um esforço adicional mas conheço quem tenha trabalhado ontem sem por isso receber mais um tostão), um dia em que não todas mas muitas famílias ficaram mais felizes e um dia em que o Pingo Doce arriscou, com todos as consequências positivas e negativas que isso possa trazer, mas não foi o primeiro a fazer descontos de aproveitar (não esquecer a Black Friday do El Corte Inglés, o desconto do IVA da Media Markt ou o desconto em cartão do Continente), resumindo, um dia que não me foi indiferente e que me motiva a comentar!!
    ML

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  3. Caro Pedro,

    tenho a ideia de ter lido há uns tempos num paper que Portugal era dos poucos países que tinha leis anti-dumping para a concorrência doméstica. Um quarto de hora no Google Scholar só me leva a discussões sobre dumping como política de comércio internacional, não encontro referências para mercados internos.
    Tem uma ideia do que se passa noutros países? Obrigado

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  4. Uma extravagância pessoal do Soares dos Santos que encaixa muito bem em tudo o que ele tem dito nos últimos meses, e como tal, o 1 de maio foi o dia perfeito para este recado.

    O braço de ferro dele não parece ser com outras superficies, e com o avançar da idade, deixa de ter necessidade em esconder aquelas ideologias mais ferozes. Ao menos nisso é honesto.

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  5. Hipóteses…

    Então e que tal a familia Soares dos Santos ter decidido começar a ser actor activo na política económica portuguesa?

    Isto também diz muito do que os empresários deste país pensam da actual maioria/governação… o Belmiro aqui há uns anos também achou que podia dar um ar da sua graça, mas na altura o Cavaco pô-lo na ordem e ainda hoje o “homem sonae” lhe guarda um ódio de estimação…

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  6. @Miguel – “dumping” é um conceito usado em comércio internacional, para mercados domésticos, a terminologia usada é “venda com prejuízo” ou de forma mais geral “estratégias predatórias”.

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  7. Pingback: A promoção do Pingo Doce e a concorrência: dumping e/ou instrumento predatório ? « O Insurgente

  8. O dumping não é o novo conceito maleável que todos usamos para o que bem entendemos…
    No que toca às relações entre países da união europeia funciona apenas para as situações em que se venda num determinado local(país) mais barato do que se vende no local onde se produziu. Exemplo: os produtos produzidos em portugal serem enviados para a Polónia e lá estarem a preços inferiores aos de cá.

    Ora, tal não aconteceu!

    No que toca a promoções, há que ter em conta o carácter temporal das mesmas. Não é por uma promoção durar 1 dia, ou 1 semana ou discutível ainda 1 mês, que o agente económico em causa está notoriamente a ir contra as regras (estúpidas e mal concebidas na sua grande maioria, reflectindo o espírito do legislador) da concorrência.

    Vamos lá ver… o que o povo quer é que todos tenham grandes lucros!!! Sigaa!!!! O melhor era no dia 1 de Maio, ser tudo 50% mais caro…

    Típicos portugueses, reclamam por tudo e por nada!

    —————-

    ps: Eu fui! e se voltar a haver, eu vou! (e não é ao rock in rio!)

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    • Não diria melhor. Também fui, e, mesmo não sendo cliente habitual, se voltar a haver também irei. Já há muito que este país precisava de um tema verdadeiramente lúdico para esquecer os problemas reais e que são de facto importantes.

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  9. Não pude ir a tempo, estava a trabalhar 😦

    Isto tem sido mal analisado por muita gente
    – isto não foi nenhum ataque concorrencial – a Sonae , Jumbo ou DIA ainda não se queixaram, nem sequer produtores ou fornecedores
    – isto não foi nenhum atentado aos direitos dos trabalhadores – supermercados da dimensão do Pingo Doce nunca foram obrigados a fechar aos feriados, era uma benesses ; em tempo de crise, ninguém se pode dar ao luxo de fechar portas ; há muitos relatos sobre de compensações extra pagas aos trabalhadores disponiveis para o 1º de Maio; há relatos em contrário, mas sendo que o supermercado não seria obrigado a fechar, teria sempre de haver uns quantos “sacrificados”, dentro do seu direito
    – isto não foi um aproveitamento de pobreza para gerar lucro – se é que houve lucro; o que acounteceu foi a pobreza a aproveitar preços baixos

    As ilações correctas a tirar disto são:
    – isto foi a Jerónimo Martins a mostrar o dedo médio aos Sindicatos, e com a ajuda dos seus trabalhadores!
    – isto foi a Jerónimo Martins a fazer o manguito à ASAE
    – isto foi a Jerónimo Martins a puxar as orelhas aos Governos (o anterior, o actual e o proximo que vier)
    – isto foi a Jerónimo Martins a dar às pessoas aquilo que elas querem: bens essenciais a preços baixos
    – isto foi a Jerónimo Martins a gerar riqueza e união entre o povo, mais do que qualquer manif ou greve

    O povo falou: a partir da fila do supermercado, com trocos a sobrar nos bolsos

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  10. “Do mesmo modo, é improvável que os fornecedores tenham feito descontos de forma a tornar possível esta promoção.”

    Descartou esta hipótese, porquê? E construiu todo o s/comentário depois!
    Os fornecedores das grandes superfícies não fazem descontos nem determinam preços. Cumprem contratos. E segundo a imprensa especializada são obrigados a acompanhar as promoções. Seria muito interessante ver um artigo sobre essas relações comerciais.
    CSJ

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  11. Caro CSJ,
    descartei essa hipótese com base em dois aspectos: dificilmente os preços podem receber um desconto de 50% apenas com acomodação dos fornecedores às promoções, e caso tivesse havido uma imposição de uma redução acentuada de preços aos fornecedores estes teriam-se queixado certamente. Além de que alguns fornecedores de produtos abrangidos pela promoção têm poder negocial suficiente junto da distribuição – Nestlé e Matutano são dois exemplos dessas empresas e cujos produtos também foram vendidos com 50% de desconto.

    Se os fornecedores vierem queixar-se de reduções de preços excessivas impostas pela Jerónimo Martins a propósito desta campanha, esta minha hipótese terá de ser naturalmente revista.

    Dito isto, as empresas de distribuição não são “meigas” com os seus fornecedores, aspecto que foi analisado no relatório da Autoridade da Concorrência (bastará ler a parte relevante para esta discussão), e não há ainda mecanismos credíveis e actuantes para ter relações mais equilibradas entre grande distribuição e fornecedores de média e pequena dimensão. O relatório da Autoridade da Concorrência pode ser consultado aqui: http://www.concorrencia.pt/SiteCollectionDocuments/Estudos_e_Publicacoes/Outros/AdC_Relatorio_Final_Distribuicao_Fornecedores_Outubro_2010.pdf

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    • Agradeço a s/resposta.
      Mas basta um contrato em que o “acompanhamento” dos preços com as promoções esteja previsto por períodos de tempo ou por quantidades, e não possa ser relacionado c/cada promoção, e lá se vai o argumento.

      Tal como nos devemos recusar a comprar por preços exorbitantes, também o devemos fazer quando os preços são injustos ou ameaçam a verdadeira concorrência. Mais tarde virá o acerto de contas e, muitas vezes com “juros”.

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    • Caro Pedro,

      Eu sou a levado a concordar com CJS. Na minha opinião o foco das possíveis falhas de mercado a investigar pela autoridade da concorrência deveria centrar-se na relação entre as grandes superfícies (GP) e os seus fornecedores.
      Embora concorde que as GP não conseguem exercer todo o seu poder de negocial com todos os fornecedores (tais como as referidas multinacionais Nestle e Matutano), existe um conjunto de produtores nacionais que sofrem práticas que na minha opinião são altamente lesivas para o tecido produtivo nacional e para o funcionamento eficiente da economia no longo prazo.
      Deixo aqui dois exemplos de duas dessas práticas negociais usadas em Portugal:
      – Leilões de fornecedores, onde as próprias GP fazem licitações anónimas e a preços muito abaixo do equilíbrio normal de mercado (no final do leilão dirigem-se ao fornecedor da penúltima licitação com o argumento que o fornecedor vencedor não cumpriu todos os requisitos de qualidade).
      – Exigência de exclusividade de fornecimento aos produtores, causando uma forte dependência de um cliente só, e posteriormente usar essa consequente dependência para baixar ainda mais o preço, até a falência do fornecedor. Prática que se vai repetindo com vários fornecedores.
      Tudo isto leva-me a fazer as seguintes perguntas: Será que queremos ser um país só de retalhistas? Será saudável para a economia aniquilar grande parte da produção e gradualmente substituí-la pela produção internacional onde já não conseguem exercer tão fortemente o seu poder negocial
      Sinceramente não sei se a legislação portuguesa prevê regulação ao nível de Oligopsônios, mas na minha opinião, a bem da produção nacional e da balança comercial nacional a AdC deveria investigar estes casos.

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  12. Pingback: uma previsão que se verifica « Momentos económicos… e não só

  13. Só umas observações:
    1. Os stocks do Pingo Doce são habitualmente de € 140m, considerando que a margem média anda nos 25% (por baixo sobre o valor de venda) o valor de vendas inerente é de € 186m, com uma média de IVA de 15% (por baixo) dá € 215m;
    2. As vendas médias do Pingo Doce por dia foram em 2011 de € 8.4m, com IVA dá uns € 10m;
    3. Como as prateleiras se esvaziaram, as vendas devem ter sido de € 130m, o resto ficou em armazém;
    4. Como o resultado antes de impostos foi de 1.5% das vendas em 2011, um desconto de 50% dá obviamente prejuízo (e grande).
    Cada um tire as conclusões que quiser.

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  14. Nada a opor ao seu texto.
    Encontrei até muitas ideias convergentes com as minhas.
    O único que contesto e vou continuar a contestar é a utilização do dia 1º de Maio…tanto mais que nos contratos de trabalho das “grandes superfícies” tanto quanto sei estão consagrados 3 dias de fecho obrigatório….1 de Janeiro, 1 de Maio e 25 de Dezembro…
    Se os funcionários foram obrigados a ir? Foram….pela conjuntura e pela “proposta” da Entidade Patronal….tanto quanto se sabe…o dia de trabalho foi pago a triplicar, foi concedido um dia de folga e foi “prometido” um dia igual com 50% desconto para colaboradores…
    Face à crise que vivemos algum empregado recusaria tal “bondade”?

    Ninguém me tira da ideia que o próprio Governo estava a par e conivente com tal “promoção” sobretudo no 1º de Maio, um dia de natural contestação nas ruas…quantas mais pessoas tirassem das ruas, menos manifestantes apareciam nos serviços noticiosos….Quanto mais se falasse no Pingo Doce em prime time menos se falava na crise e na contestação nas ruas de Norte a Sul.

    Sejamos sérios, se a ideia era “filantrópica” porque não fazer esta iniciativa no próximo Sabado? No próximo Domingo? Porque escolher precisamente o dia 1 de Maio? Muito provavelmente 80% da contestação não se manifestaria.
    Porque não a fazer a partir dos 20€? Será que todos tinham possibilidades de “consumir” os tais 100€ que davam direito à promoção?
    Ou será que a ansia consumista foi de tal ordem que muitas famílias comprometeram as compras do resto do mês com produtos supérfluos?
    Será que não vão entrar na despensa a meio do mês para buscar 1kg de arroz e verificar que tem 6 coca-colas?

    Resta-me a esperança que algumas famílias realmente necessitadas tenham conseguido encher a dispensa e que nos próximos tempos haja menos crianças a chegar à escola de manha com fome porque não tomaram o pequeno almoço.

    Fico a aguardar as consequências de tanta filantropia e de novas iniciativas semelhantes…talvez no 25 de Dez…ou no 1 de Jan.

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  15. Caro Professor,

    Acompanhando a sua lógica concorrêncial, sugiro a consideração de alguns outros aspectos…

    A lógica da análise económica que apenas condena determinadas práticas quando estas são realizadas por empresas em posição dominante, é a justificação para a ausência da AdC em matéria de principios básicos de concorrência… que não faz mal serem postos em causa desde e quando não sejam os maiores a fazê-lo… parece-me um principio interessante.

    Este foi o principio que fez com que duas empresas de distribuição pudessem comparar os contratos celebrados com os seus fornecedores comuns e depois em negociação conjunta exigissem um novo contrato indexado ás melhores condições de cada um, com a adição de uma condição extra majorativa… a AdC condena – eventualmente- o principio mas não actua por que não “afectar uma parte substancial do mercado”. Seria interessante saber que mercado (será que o mercado a montante, dos fornecedores obrigados a contribuir, sob ameaça de saída das lojas, também é mercado?…)

    Talvez por isto exista um enquadramento para as chamadas “práticas individuais restritivas do comércio” DL 370/93, revisto pelo 140/98.

    A venda com prejuízo na lei portuguesa constitui-se aqui como um ilícito, independente da questão “posição dominante”.

    Assim, a “venda com prejuízo” na legislação portuguesa não é uma matéria estritamente concorrêncial, como diz na sua análise, aliás razão essa que faz com esta prática não esteja na Lei da Concorrência.

    Sendo que as questões de concorrência são importantes, existe mais vida para além destas… e sobretudo mais vida para além das ditas posições dominantes, que consubstanciam “afectações sensíveis da concorrência”.

    Para uma análise económica completa, as variáveis a ter em conta são mais das que enumera no seu artigo.

    (Falta obviamente mencionar aqui o mecanismo de construção de preços das marcas de fabricante versus as marcas de distribuição… mas esse comentário é para o próximo 1º de Maio!)

    PS1 – respondendo a uma das perguntas a legislação da venda com prejuízo não é uma originalidade portuguesa, a última vez que contei existia em Espanha, França, Itália e Bélgica. A razão de ser destes países tem a ver com as práticas comerciais tipicas do comércio dos mesmos.

    PS2 – ao que sabemos a iniciativa não foi previamente acordada com os fornecedores, e portanto espera-se (?) que seja o PD a suportar por completo o financiamento desta acção, com ou sem VCP, com ou sem IVA… (falta esclarecer a questão do IVA, também teve 50% de desconto? A JM/PD não vai pagar ao Estado?)

    bi

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  16. Pingback: Anónimo

  17. Recebido noutra janela:

    Foi com gosto que partilhei no Facebook a sua lúcida, esclarecida e descomplexada interpretação do “momento – 1º de Maio no Pingo Doce”, sim, descomplexada porque as nossas elites não admitem em público que aproveitam os saldos/descontos desse tipo, ainda se fosse nas roupas Hugo Boss….
    Claro que em termos económicos tem toda a razão pois, de facto, o sector de distribuição alimentar é concorrencial, sendo o dumping mais próprio da estratégia oligopolística agressiva. na minha opinião, em termos políticos foi de facto uma pequena provocação do P Doce…e uma forma original de responder aos descontos q já duram há mais de uma semana, de 75% do Continente num cabaz de produtos astante diversificado…Mas, na minha cidade todo o pequeno comércio abriu no 1º de Maio, o q foi surpreendente para mim…estará o nosso povo a abandonar o “complexo de esquerda e a fazer pela vida, tentando dar a volta à crise?

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  18. Pingback: Doce promoção « O Insurgente

  19. Só quem for malicioso ou ingénuo é que vê o P.D. como filantropo!!! A maior parte dos necessitados (reformas e ordenados de 250 e 480 Euros) não têm os 100 + euros para gastar de uma acentada. Grande parte dos que beneficiaram não tinham essa necessidade e uma parte dessa gente é para revenda (roubo ao estado). Outra grande parte acabou por gastar por impulso, amanhã se se esgotar o leite para a criança, dão-lhe Coca-Cola. Anda toda a gente (normalmente da direita) a dizer que os tugas andaram a gastar acima das suas possibilidades e por isso era bem-feito pagar a crise, agora essa mesma gente já acha bem esta corrida ao agravamento da balança comercial!!!! Ide todos apanhar num sítio que eu cá sei!!!!

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  20. Magnifico comentário!

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  21. Pingback: pingo doce, resumo e ponto final (por agora) « Momentos económicos… e não só

  22. Só gostava de esclarecer algumas das barbaridades ou duvidas que aqui foram colocadas em resposta a este excelente post.
    1º não foi “prometido” aos funcionarios do Pingo Doce uma promoção igual,mas sim será concretizada na proxima semana,e os funcionarios não terão um dia para fazer as referidas compras,mas 4 dias para poderem escolher um deles para o fazer livremente,desde que o façam na loja onde trabalham como é obvio,e sim o dia foi pago a triplicar como o são todos os feriados,como extra por ser 1º de maio ai sim entra a referida folga extra,além disso todos os que fizeram horas extra devido ao enorme fluxo de clientes nesse dia,também essas serão pagas.

    2º todos os dias saem produtos das lojas Pingo Doce para instituições de solidariedade,claro que são produtos perto do fim de validade,mas antes isso do que deitar ao lixo.

    3º ninguem tinha que gastar 100 euros,mas sim 50,01 porque o que estava em causa eram compras superiores a 100 euros (100,01) desconto de 50%= a 50,01,se tivermos em conta que nesta altura do ano muita gente recebeu os reembolsos do irs,não me parece que quem lá foi gastar o referido dinheiro não o pudesse fazer na verdade,mas isto já é subjectivo.

    4º quando dizem que as pessoas compraram coisas que não precisavam,não me parece que tenham visitado lojas do Pingo Doce no dia nem quer no dia seguinte,porque as primeiras coisas a desaparecer das prateleiras foram bens de 1ª necessidade e muitas coisas superfolas ficaram lá ate as lojas fecharem,por isso não querendo fazer de ninguem benemerito da sociedade,parece-me que acabou por ajudar muita gente.

    5º ainda hoje atendi um muito conhecido ex-jogador de futebol e agora treinador,que me disse que só soube tarde da promoção e ainda tentou passar na loja para comprar vinhos com desconto,afinal até os ricos queriam poupar uns trocos…

    Como já devem ter percebido trabalho no Pingo Doce e por tal não me vou identificar,trabalhei muito nesse dia,mas deu-me uma satisfação enorme faze-lo,principalmente por vêr que era uma grande ajuda a pessoas que eu sirvo todos os dias a contar os euros para as compras e puderam poupar algo com a mesma qualidade e preço de sempre.

    P.S. Nenhum dos prémios que a empresa atribui aos seus funcionarios foi suprimido por causa desta campanha,e as mensagens de louvor pelo excelente trabalho que efectuamos de todos os directores da empresa continuam a chegar.

    Por isto só me apetece dizer: EU FUI TRABALHAR PARA O PINGO DOCE NO 1º DE MAIO,SOBREVIVI E SAI DE LÁ CANSADO MAS MUITO SATISFEITO.

    excelente artigo de opinião Sr.Pedro Pita Barros,bem haja.

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  23. É tudo muito bonito o que escreveu. Mas está errado quando parte logo do principio que os hipermercados não têm margens que permitam descontos de 50%, em alguns produtos. Ou seja, dito de outro modo, que marcam os produtos com mais de 100% sobre o preço de compra ao fornecedor. Basta ver aqui… http://economico.sapo.pt/noticias/lucros-de-grandes-superficies-acima-dos-50-em-alguns-alimentos_143834.html

    «Os mesmos dados mostram que um quilograma de alface custa, em média, 0,4 euros à saída do produtor e chega a quase 1,8 euros ao supermercado»

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    • Só quem não conhece a agressividade concorrencial das Grandes Superfícies é que pode dizer que praticam margens dessa magnitude.
      Produtos como a fruta e hortícolas são casos especiais onde são praticadas Margens Brutas acima do normal, pois tratam-se de produtos perecíveis com grandes quebras. Deste modo, uma análise séria à Margem praticada nestes produtos deverá ser efectuada com base na margem liquida que será seguramente inferior e não simplesmente olhar para o preço de compra e de venda. Um jornal com a reputação do Diário Económico deveria saber isso.

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  24. Meus amigos, nem tudo o que reluz é ouro!!!! A empresa reconhece que a medida tem como objectivo trazer para terreno positivo a variação das vendas comparáveis da cadeia de supermercados, que foi negativa no primeiro trimestre. Assim, se o Grupo JM, numa estratégia de marketing e/ou aumento de vendas, abdicou da sua margem, óptimo para os cunsumidores e fornecedores que vendem mais. Agora, o que vai acontecer é que a JM irá exigir aos forncedores, usando a sua posição de mercado, que paguem a grande parte da factura. Isto significará que muitas empresas e seus respectivos funcionários fiquem com o prejuízo. Ou seja, não há jantares de borla!!!

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  25. Aplaudo o post e o comentário feito por um trabalhador do PD que não se quis identificar. Há muito que não acompanhava uma novela com tanto entusiasmo e nem lhe entendo tanto alarido. Fui, sobrevivi, e, mesmo não sendo cliente habitual se a promoção se repetir voltarei. Não vi ninguém mal educado e os funcionários foram todos prestáveis. A maior parte das pessoas levava leite, muito leite, enlatados e mercearias. Luxo? Não me parece. É antes o reflexo de uma sociedade que já não acredita em promessas, e se alguém promete e crumpe as pessoas ficam satisfeitas. É lamentável assistir a vozes de fundo contra uma campanha que, a meu ver, só beneficiou quem comprou. É de lamentar as vozes contra o dia de trabalhador numa altura em que grande parte da população não tem emprego e o dinheiro está escasso. Muitas destas pessoas não se importariam de trabalhar o 1º de Maio e ter um ordenado ao fim do mês para pagar as contas. E, afinal gastar 100€ para chegar à caixa e pagar metade do valor não me parece uma aberração.

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