Momentos económicos… e não só

A insustentável leveza “da economia da farmácia”

12 comentários

Hoje foi apresentado o estudo que estivemos a realizar na sequência de um desafio lançado pela ANF para conhecer a actual situação do sector das farmácias.

Como proposta para uma primeira fase, pretendeu-se repetir a análise da Autoridade da Concorrência realizada em 2005 (dados de 2002), que deu origem à percepção de haver espaço para reduzir preços no sector. A actualização da informação é importante por vários motivos. A lógica é sempre a de manter a análise o mais próximo possível do modelo usado no estudo apresentado pela Autoridade da Concorrência em 2005, para que se perceba o motivo das diferenças se as houver.

Há diversas formas de avançar. Uma primeira e mais directa é manter tudo constante menos os preços médios de referência – apenas a evolução dos preços médios por receita aviada de 2002 para 2012 (Abril), uma redução de 20%, excede largamente o espaço de redução de preços avançado em 2005 pela Autoridade da Concorrência, que era de 5%.

Mas se tivesse havido uma transformação na relação entre custos e volume de actividade, e se os custos tivessem diminuído, então a conclusão acima poderia ser apressada. Daí que tenha sido necessário re-estimar a relação entre custos e volume de actividade, usando informação de 2010 para 1091 farmácias (em 2005, tinham sido usados dados de 2002 e 70 farmácias). A metodologia de estimação foi a mesma, para que as diferenças sejam reflexo da actualização de informação.

Destas novas contas resultou uma ligeira redução de custo marginal (o custo que evolui de acordo com a variação da actividade) e uma duplicação de custos fixos (os custos independentes do volume de actividade). Mesmo com a nova estimativa de custo marginal, a redução de preço observada leva a uma margem negativa.

Assim, não resta outra conclusão que não seja a farmácia média estar já a operar com margem negativa, não havendo qualquer capacidade de cobrir custos fixos.

Nestas condições, será uma questão de pouco tempo até se assistir a um encerramento de farmácias. Do lado dos custos, é natural que se venha a assistir numa primeira fase à tentativa dos proprietários absorverem as perdas (trabalhando mais em substituição de funcionários, por exemplo).

Note-se que esta situação de margem negativa é um problema independente de más decisões de financiamento ou investimento que tenham sido feitas pelos proprietários de farmácias. Más decisões de investimento e financiamento resultam em encargos financeiros que podem não ser suportáveis, mas se a “economia da actividade” for positiva, essas situações levariam à saída desses proprietários e sua substituição por outros ou por outras farmácias. Mas sendo a “economia da actividade” negativa, os encerramentos tenderão a ser permanentes.

Daqui se retira que terão de ser procuradas soluções, com uma combinação de várias actuações em termos de remuneração das farmácias (por exemplo, tornando-a menos sensível ao preço dos medicamentos) e de procura de maior eficiência por parte das farmácias (por exemplo, em termos de quadro de pessoal ou espaços fisicos, eventualmente associados a um revisitar das actuais exigências legais – estes aspectos não se encontravam no âmbito do trabalho, mas decorrem dele para discussão).

A apresentação realizada pode ser encontrada aqui. O texto definitivo será disponibilizado em breve.

Gostaria de receber relatos breves de situações reais de como a actual situação está a ser resolvida pelos proprietários de farmácias (dois ou três parágrafos), para se adicionar à imagem quantitativa obtida uma visão qualitativa.

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Autor: Pedro Pita Barros

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa

12 thoughts on “A insustentável leveza “da economia da farmácia”

  1. Caro Professor,

    Quero cumprimenta-lo pela apresentação do estudo da sua equipa ao qual tive a oportunidade de assistir pessoalmente.

    Na altura tivemos oportunidade de trocar algumas palavras, ainda sobre as conclusões do AdaC sobre o sector das farmácias.

    Relativamente ao desafio lançado sobre como as farmácias estão a resolver a situação das farmácias no momento passo a referir.

    As Farmácias neste momento não conseguem gerir a situação, mesmo farmácias sem encargos financeiros, não conseguem fazer face aos encargos fixos com as margens e preços em vigor.
    O actual modelo é insustentável face à estrutura de custos fixo (maioritariamente pessoal), pois para atender os utentes são necessários Farmacêuticos e técnicos, com a produtividade levada ao limite, o valor da venda não gera margem para pagar os custos.

    Assim como curiosidade tendo como base Janeiro 2010 a Junho de 2012. O numero de receitas processadas aumentou em cerca de 11%, o valor médio por receita passou de cerca de 37,8 € para 25,96 € em Junho de 2012. Ou seja em 2 anos e 6 meses de ( – 31,6%.)

    Se me enviar o seu e-mail terei todo o gosto de lhe enviar dados mais detalhados sobre a evolução dos números que lhe referi.
    Cumprimentos
    Eduardo F.

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  2. «Nestas condições, será uma questão de pouco tempo até se assistir a um encerramento de farmácias.»

    Não será de esperar antes do dito encerramento uma fuga para a venda a preços, digamos, módicos?

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  3. @Peliteiro – a fuga para venda a preços módicos só fará sentido se houver quem compre, e para que alguém compre o resultado operacional não pode ser negativo, o que poderá já estar a suceder num conjunto razoável de farmácias. A subsidiação cruzada de venda de outros produtos poderá atenuar, mas não resolve.

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    • Só o mercado pode dizer se há ou não interessados. Neste momento não tenho notícia de farmácias à venda por valores, por exemplo, inferiores ao VV.

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      • Em qualquer caso, teremos que distinguir entre as situações de dificuldade financeira mas com situação económica subjacente sustentável – poderá aí ser possível encontrar quem compre e quem venda;

        Se à situação financeira difícil se juntar uma situação económica que não seja sustentável, então poderá haver quem queira vender e não se encontrar comprador.

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        • Só o mercado pode dizer se há ou não interessados em comprar farmácias. Ou em abrir novas farmácias…

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          • Caro Peliteiro, conhecer directamente não conheço, mas existem casos inferiores às vendas. No entanto são sempre casos especiais e o mais normal e que já conheço directammente é mesmo 1x as vendas.

            Se uma farmácia é interessante ou não depende sempre do potencial dela e cada caso é um caso. No entanto tinha uma pessoa amiga que estava a vender a farmácia por já ter dificuldades devido a encargos financeiros e mesmo sem esses encargos não investia nela.

            Quanto aos relatos pedidos pelo Pedro Pita Barros que felicito pelo trabalho.

            Felizmente ou infelizmente um funcionário reformou-se 1 ano mais cedo em princípios de 2012 e o proprietário que não conheço só por acaso passou a cumprir a função dele.

            Portanto mais trabalho por funcionário, menos esse custo fixo que por ser um bom funcionário para a farmácia não trouxe vantagens, compras pensadas ao pormenor e tentar encontrar despesa que não implique perda de qualidade na farmácia.

            Peço desculpa se for pouco esclarecedor nalgumas expressões, mas prezo o anonimato na internet.

            Cumprimentos

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  4. Uma carta que não consegui que fosse lida, para que pudesse ser divulgada…Aqui fica um desabafo de uma Farmacêutica em apuros.
    Exma. Sra. Dra. Helena Garrido(Jornal de Negócios)
    Escrevo este mail à Sra. Dra., porque sei que está informada sobre a situação das Farmácias Portuguesas.
    Chamo-me Amélia Rodrigues, sou farmacêutica, proprietária e directora técnica da Farmácia Loureiro.
    Esta Farmácia, situa-se na Freguesia de Loureiro, Concelho de Peso da Régua, Distrito de Vila Real. Após ter conseguido o Alvará, em 1999, desta “pequena” farmácia, por concurso público, deitei mãos à obra e construí-a, investi o meu pouco dinheiro, pedi dinheiro à banca, enfim, fiz investimento, criei postos de trabalho.
    Desde que o governo do Eng. José Sócrates tomou posse, as farmácias serviram de “bode expiatório”, tendo-se tomado medidas, sem qualquer avaliação a curto e médio prazo, do seu impacto na economia das mesmas.
    Os resultados estão à vista. As farmácias sofreram reduções sucessivas nos preços dos medicamentos, nas margens, contribuindo desta forma, para ajudar a tapar o “buraco” da saúde portuguesa.
    No meu caso particular, mas que reflecte a realidade de outros colegas meus, sendo uma farmácia com uma facturação muito pequena, sem capacidade de crescimento, devido à sua localização, os efeitos destas políticas mostraram-se desastrosos.
    Com um orçamento anual sempre muito apertado, comcei a não conseguir pagar aos fornecedores de medicamentos, comecei a acumular dívida, tive que reduzir postos de trabalho, era o começo do fim.
    No ano 2011, fruto de uma política do governo anterior, veio a notícia do encerramento da Extensão de Saúde de Loureiro. Tentei evitá-lo a todo o custo, com pedidos de intervenção da República. Nada foi feito. Entrei em contacto com o Director Executivo do ACES do Douro I, no sentido de lhe pedir para reavaliar a situação do encerramento da extensão de saúde de Loureiro. Tarde demais, a decisão era irreversível. Uma decisão tomada com base num estudo pedido por esta entidade ao Centro de Saúde do Peso da Régua, estudo este, que não referia sequer a existência de uma farmácia na freguesia de Loureiro.
    Janeiro de 2012: o ano fatal!
    Nova descida dos preços dos medicamentos, Extensão de Saúde de Loureiro encerrada, morte da Farmácia Loureiro anunciada.
    Como é que é possível neste país fazerem-se estudos, tomarem-se decisões que mexem com a vida das pessoas, com a economia das empresas, sem sequer se fazerem avaliações dos impactos bons e maus na “saúde” destas estruturas. Faz-se e pronto, salve-se quem puder. Depois logo se vê.
    A TROIKA, a crise, o gasto em medicamentos, mas será que ninguém vê que não se pode tirar mais às farmácias? Ninguém vê, que os maiores gastos em medicamentos não está no ambulatório, mas ao nível hospitalar?
    Não, continua-se a “cortar” nas farmácias portuguesas que estão a asfixiar.
    Abril de 2012: situação economico-financeira da farmácia Loureiro insustentável. Sem dinheiro para pagar ordenados, os custos fixos de estrutura, os medicamentos, crédito cortado dos fornecedores, endividada. O que me resta? Fechar a farmácia da minha vida, dos meus anos de dedicação, dos meus anos sem férias, das horas que não dediquei aos meus filhos.
    Encerrei a farmácia mergulhada em lágrimas, endividada, a braços com a justiça para o pagamento das dívidas.
    Sra. Dra. Helena Garrido, sou um pequeno exemplo do que se passa com as farmácias portuguesas. Sei que há mais na minha situação. Já pedi ajuda para elas às instâncias superiores. Espero que desta vez façam alguma coisa.
    Desculpe por favor o meu desabafo.
    Os meus cumprimentos
    da “ainda” Directora Técnica da Farmácia Loureiro “encerrada”.

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  5. O estudo elaborado traduz na perfeição a realidade vivida no mercado farmacêutico. Tudo mudou e a velocidade com que tal ocorreu deixou toda a gente atordoada. Há 2 anos apenas, uma farmácia ganhava 12 €/embalagem de Omeprazol vendido, se fosse de uma marca que a farmácia não comprasse com bónus ou descontos. Se fosse comprada com descontos razoáveis, facilmente se poderia chegar ao 25€/embalagem. Era um abuso! Hoje ganha-se 0,70€/embalagem. É um abuso ainda maior!
    O modelo actual de farmácia não é viável com o regime de margens que está em vigor. Se não se pretender acabar com este modelo (o que neste momento, já levanta algumas dúvidas), tem que se estipular, pelo menos, uma margem mínima por embalagem.
    No entanto, ler o MoU assusta qualquer proprietário de farmácia: ainda acham necessário falar da possibilidade de reduzir ainda mais as margens se a poupança não chegar aos 50 M €!
    O país estará muito melhor depois do que se fez: mais desemprego, mais falências, menos lucros, menores vencimentos, mas pronto, menor despesa pública!
    Ainda bem que estou a contribuir para ficar num país melhor!!!

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