Momentos económicos… e não só

Manif e economia

3 comentários

Três mil. Dez mil. Vinte mil. Cinquenta. Cem mil manifestantes ou mesmo mais, consoante as cidades e as opiniões. Tendo por trás uma simpatia maioritária da população que mesmo não se juntando fisicamente na manifestação a apoia e deseja. O civismo com que decorreu mostrou um descontentamento com a última semana, e um desejo de “pensem lá bem nisso”. A manifestação não retira legitimidade ao governo e ao parlamento mas não deixa de ser uma forma de transmitir um sentimento social.

Politicamente, muito tem sido dito sobre estes últimos dez dias. E sem o que se passou desde essa sexta-feira dia 7 de Setembro (nalguns calendários será mais uma sexta-feira 13), provavelmente a manifestação de dia 15 de Setembro não teria a adesão que se viu. As leituras políticas ficam para outros mais habilitados para o efeito.

Do ponto de vista dos efeitos sobre a economia é que se tem falado pouco. Vitor Bento em entrevista referiu a importância de recuperar a serenidade para discutir a TSU, que efeitos tem, como deve ser usada – a forma como tem sido analisada não envolvia a subida das contribuições dos trabalhadores. Na verdade, é preciso serenidade para muito mais. Toda a discussão de novas medidas na área económica será agora muito mais difícil. O sentimento de injustiça que o anúncio das novas medidas criou dificultará todo o diálogo futuro.

Mas não é só na discussão de políticas que haverá dificuldades.

Algo mais está em risco neste momento, com potencial impacto na própria actividade económica. A economia portuguesa tem evoluído para assentar cada vez mais em serviços e quando se fala em criatividade, inovação, serviços, está-se a falar de actividades económicas com uma característica particular – o seu sucesso depende do empenho que se puser nessas actividades. Não é possível verificar se há esforço de criatividade no desenho de novos produtos. É quase impossível verificar se em cada atendimento a um turista há um sorriso e uma forma de tratar que o faça querer voltar. Verificar a produção robotizada, ou mesmo a produção manual, é fácil. Verificar o intangível não é. E a perda de valor associada pode ser relevante. O problema central, o de aumento da produtividade, continua fora das discussões, e deverá reganhar espaço.

A perda de um sentido de esforço comum para fazer Portugal sair da actual crise poderá ser um aspecto economicamente relevante espelhado pela manifestação de 15 de Setembro. Escrevo “poderá” porque a esperança e a vontade de mudar para melhor têm que prevalecer.
Será necessário discutir de forma diferente as opções de política económica, com espírito aberto, de todas as partes, com seriedade intelectual e capacidade para ouvir e validar, ou não, os argumentos e evidência que existam. É sobretudo essa mudança de atitude que se espera.

(texto publicado no dinheirovivo.pt)

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Autor: Pedro Pita Barros

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa

3 thoughts on “Manif e economia

  1. Pedro
    Na confluência entre Politica (à cabeça), Sociologia (pelo meio) e Economia (sempre a rodar para baixo e para cima) pergunto-me se angustia de hoje, comparada com a de Alexandre Herculano na ultima fase da sua vida e a euforia de ontem comparada com a de Cunhal e Soares quando chegaram a Portugal depois em 1974, não estará a levar-nos ao mesmo paradigma ilusório em que “ou isto vai ser quase sempre como o foi no dois últimos séculos em poucas foram as fases de crescimento visível e sustentado e muitas as de ilusões suportadas pelas “potencialidades pouco exploradas” das ex-colónias, pela integração na Europa e, nos ultimos tempos pela confusão entre a velha moeda de 1 escudo e depois de 1 euro.
    Produtividade nos serviços é coisa que é insepararável de qualidade e rentabilidade.Estamos ainda para saber, por exemplo no Turismo se somos mesmo competitivos pela diferenciação para além dos pequenos nichos de mercado e se a nossa Banca não é e será fundamentalmente um boa Banca de Proximidade (ainda por cima com um instrumento fundamental como tem sido a rede Multibanco ao seu serviço para servir os seus clientes de uma forma integrada e com fiabilidade).
    Quanto à indústria estamos semi conversados em particular na inexistência de Redes\de PMEs , descontando alguns poucos e bons exemplos como são os do calçado e ultimamente mas timidamente o do vinho.
    E sobre Agricultura e Pescas ainda estamos na fase de escolher as novas alfaias e instrumentos de pesca se bem me parece.E o bacalhau seco vai passara a ser fosfatado.
    Donde, aqui fica a minha concordância com a tua abordagem: “O problema central, o de aumento da produtividade, continua fora das discussões, e deverá reganhar espaço.”.
    E, já agora, Haja Saúde:))
    Abraço
    Francisco

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  2. Não resisto a provocar o autor do texto.
    Parece-me que os economistas apenas tem soluções antigas para problemas novos. Eu apostava mais nos poetas e nos filósofos para abrir outras pistas.

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  3. @Jorge
    vamos lá responder à provocação :): quando os economistas tentam apresentar soluções novas para problemas novos ou antigos são chamados de experimentalistas ?!

    Usar a descida TSU como medida expansionista é uma “solução nova”, ou não? (desde que não seja transformada numa medida de austeridade)

    Mas podemos deixar poetas e filósofos abrir caminhos, e depois ver quais deles nos levam onde queremos; não defendo imperialismos de ideias, só peço que verifiquemos a lógica de cada proposta (venha de economistas ou de outros).

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