Momentos económicos… e não só

viver acima das possibilidades

5 comentários

Uma das frases que mais entrou no grupo de termos frequentes usados em discussões sobre o estado da economia portuguesa é que “vivemos acima das possibilidades”, e como tal contraímos dívida que temos de pagar. Esta mesma frase é rejeitada por muitos outros, que reclamam o que agora se chama (novo termo da moda) “narrativa alternativa”.

Parte das reacções ao termo “viver acima das possibilidades” está associada à censura implícita que o termo parece conter, e a reacção é, também muitas vezes, implícita, porque não havemos de ter a expectativa de uma vida melhor. Se juntarmos a isto o termo “empobrecer” e a exigência de que “temos de empobrecer”, o que conseguimos realmente ter é uma tensão e animosidade crescente.

Pessoalmente, creio que devíamos abandonar estes termos e focar apenas em dois, ajustamento do consumo e aumento da produtividade. E para justificar porquê e porque não têm estes termos a carga negativa dos que têm sido frequentemente usados, nada melhor do que recorrer a um pequeno modelo económico (no sentido de simplificação da realidade, para fazer ressaltar os elementos essenciais).

Ponto primeiro, focar a atenção na decisão de cada cidadão ou agregado familiar. Depois, mais tarde, junta-se o resto da economia. Nos últimos 25 anos o que encontramos? em 1986 a adesão à então CEE e em 1992 o programa do mercado único. Foram tempos de crescimento económico na economia portuguesa. Inicia-se depois a preparação para o euro, que conseguimos fazer. No momento de entrada do euro, temos três características económicas fundamentais para as decisões de consumo: redução das taxas de juro, redução da taxa de inflação e expectativas de crescimento económico.

Como é que estes factores afectam o padrão de consumo?

Entra agora o modelo económico, muito simplificado. Suponhamos que antes desta entrada no euro, um cidadão comum tinha um rendimento de 5 e esperava ter no futuro um rendimento de 5. Faria umas poupanças, pelas quais receberia um juro, ou até poderia pedir um empréstimo, pelo qual pagaria uma outra taxa de juro.

Com a entrada no euro, por via do efeito do crescimento económico que todos esperam, faz uma revisão dos seus rendimentos futuros, que passam a ser de 7. Como deve agora ajustar o seu consumo? bom, poderá pensar em pedir emprestado, permitindo-lhe consumir mais hoje à custa de algum consumo no futuro, por exemplo consumir 5,9 hoje e 5,9 no futuro, em que os 0,2 que faltam para a soma dos rendimentos é o juro que paga no empréstimo que transfere rendimento e consumo do futuro para o momento presente. E este endividamento não tem nada de mal, e corresponde a um processo de decisão racional e equilibrado.

Adicionemos aqui a redução da taxa de juro, que passou de valores como 17% ao ano para cerca de 4 a 5%. Só para dar uma ideia esta redução de taxa de juro permite reduzir para cerca de 1/3 a prestação mensal associada com um empréstimo a 30 anos para compra de casa. Pedir emprestado torna-se mais barato. Ou seja, é preciso sacrificar menos de rendimento /consumo futuro para um mesmo aumento de consumo hoje. Ou, para o mesmo sacrifício de rendimento futuro, obtém-se mais consumo hoje. Também aqui a reacção normal será a de aumento de consumo hoje, aumento de endividamento. Mais uma vez é um processo de decisão racional e equilibrado.

Qual é então a razão do ajustamento actual e do “viver acima das possibilidades”? Bem, esta argumentação de efeitos esteve baseada num pressuposto, o que no futuro o crescimento económico iria garantir um rendimento de 7. Infelizmente, não foi isso que sucedeu. A economia portuguesa não cresceu de forma a satisfazer as expectativas de consumo criadas e que estiveram subjacentes na criação de dívida privada. No exemplo acima, em vez de ter 7 no momento futuro, quando lá se chegou tem-se apenas os mesmos 5, que se revelam então insuficientes para manter o consumo de 5,9 que vinha do passado e pagar os juros. Surge então neste momento a necessidade de ajustar o consumo.

O “viver acima das possibilidades” resulta então de não se terem concretizado expectativas de crescimento da economia. Um exemplo de textos técnicos que antes da entrada no euro encontravam fortes efeitos positivos pode ser encontrado aqui, mas já em Dezembro de 2000 o Banco de Portugal alertava para os perigos de endividamento e de consumo acima do que se produz, aqui, lendo-se na página 6 “A economia não pode continuar indefinidamente com níveis de despesa muito acima do que produz.” O crucial é aqui o indefinidamente – o comportamento individual acima descrito envolve um primeiro momento de endividamento, e um segundo momento de pagamento sem redução de nível de vida se a economia crescer, mas com redução do nível de consumo se a economia não crescer.

Porque a economia não cresceu é tema para outras discussões, mas pelo menos que a frase “viver acima das possibilidades” não seja interpretada de forma negativa ou culposa do ponto de vista das decisões individuais. Mostrou apenas que os portugueses reagiram de forma natural ao enquadramento económico em que se encontravam. Não impede que seja necessário um ajustamento. É. Já quanto às decisões de despesa pública, também deverá ser objecto de análise própria.

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Autor: Pedro Pita Barros

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa

5 thoughts on “viver acima das possibilidades

  1. Concordo plenamente com o exposto, ams gostaria de acrescentar 2 questões sabendo

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  2. peço desculpa, continuo agora o comentário anterior:
    … gostaria de acresecentar 2 questões, sabendo que: A) o crescimento económico nos últimos 25 anos (com taxas de 5% em meados anos 90, que rápidamente desceram a negativo nos anos posteriores) deveu-se apenas , aos fundos que jorraram 1/entrada de Portugal na CEE e 2/entrada no Euro, não foi consistente nem baseado no aumento liquido do PNB. B) o endividamento verificado por particulares e por empresas, ficou muito aquém do endividamento público na sua maioria com contratos “blindados” que configurariam casos de polícia, se a Justiça funcionasse em Portugal.
    Questão 1 – Portugal desde há décadas (pelo menos + de 10) que tem uma dívida pública superior a ZERO, sendo que passou de 10% do PIB anos 70 para +90% na última década. E a dívida externa no mm percurso, tendo atingindo níveis históricos em 2010. Vivemos sempre “acima das possibilidades” qual a diferença agora?
    Questão 2 – Não poderá uma das respostas à prgunta de cima ser: porque simplesmente o crédito, seja por que via for, ou houvera sido, simplesmente acabou? ou após o crash 2008, nos EUA, o crédito fácil, rápido e muito, muito barato (baseado em cabazes de activos, fundos, para-fundos ou outros chamados tóxicos) simplesmente acabou?
    Obrigada.

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  3. Este artigo ajuda a entender o que está em questão. Mas quanto a mim, acho que falta algo.

    No fim, o facto de termos uma grande endividamento externo resulta da agregação de comportamentos em toda a economia, o que faz com que quem não consegue agora pagar aquilo que deve não tenha de ser quem teve perspectivas mais irrealistas em relação ao futuro. Eu podia receber uma fortuna e ter um pequeno empréstimo completamente racional em condições normais, mas ao ficar desempregado, já não o conseguir pagar. Ou seja, no limite, a culpa podia vir toda de alguém que não tinha crédito nenhum, ou seja, de quem “viveu sempre dentro das suas possibilidades”.

    No fim, a questão macroeconómica nada tem a ver com comportamentos isolados de avaliações erradas quanto ao futuro. Tem a ver antes com variáveis macroeconómicas que fizeram com que, mesmo que toda a gente agisse de forma óptima, os desequilíbrios continuariam a aprofundar-se.

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  4. Isabel e Tiago,
    neste post pretendi apenas tornar claro que a actual situação das famílias e a necessidade de ajustamento no padrão de consumo não se deve a uma qualquer atitude de “cigarra”, e sim deve-se aos portugueses reagirem de forma rápida e esperada ao enquadramento económico envolvente. Sobretudo pretendi retirar a carga de culpa que aparece implicitamente na frase “viver acima das possibilidades”.

    Para explicar completamente a situação do país teremos que adicionar dois elementos importantes:
    a) o comportamento do sector público
    b) a evolução da produtividade no sector empresarial
    bem como a forma de interacção destes dois aspectos.

    Assim o tempo disponível o permita, elaborarei sobre ambos em próximos posts.

    Relativamente ao problema do crédito, acabou o crédito, mas em lugar de se ter limitado o crédito por aumento de taxa de juro, foi por não concessão do mesmo, de facto. Mas mesmo que o crédito não tivesse “secado” desta forma, num contexto internacional de escassez, é muito duvidoso que se pudesse continuar a aumentar o endividamento como vinha a ser o caso.

    Tiago: o argumento não é sequer de expectativas irrealistas. As expectativas até podiam ser realistas, ou pelo menos aceitáveis,
    na altura em que se tomaram decisões de endividamento. A realidade é que tem incertezas e imponderáveis, ou pelo menos a nossa racionalidade limitada não permite antecipar todos os comportamentos que podem surgir.

    De qualquer modo, pensar em termos de “culpa” implica que se associe “castigo”, e que haja “castigadores” e “castigados”, que é uma forma incorrecta de se ver a actual situação, e sobretudo é uma forma de ver que dificulta um esforço colectivo de saída da crise.

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  5. Pingback: Viver acima das possibilidades | Mãos Visíveis

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