Momentos económicos… e não só

Cuidados de saúde primários e cuidados hospitalares (1)

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No passado dia 21 de Novembro, Miguel Gouveia e uma equipa constituída para este estudo apresentou um estudo sobre os ganhos potenciais de mudança de actividades actualmente exercidas em ambiente hospitalar para os cuidados de saúde primários. O estudo está disponível aqui.

Neste estudo apresentam uma primeira quantificação do que se poderia conseguir poupar em termos de recursos por transferência de actividade para cuidados de saúde primários e cuidados continuados.

A análise foi feita condicional a algumas hipóteses, como a) procurar obter uma estimativa da poupança máxima possível; b) estabilidade estrutural do sistema (sem modificações como a passagem de especialidades para ambulatório); c) as transferências estudadas implica crescimento da capacidade dos cuidados de saúde primários e dos cuidados continuados, mas a forma e o momento desse ajustamento não é detalhado.

As actividades contempladas neste exercício foram consultas externas dos hospitais, episódios de urgência, situações de convalescença longa e casos sociais de internamento.

A discussão feita pelo Miguel Gouveia arranca com a apresentação de alguns valores que colocam a actividade hospitalar portuguesa em contexto europeu, levantando a dúvida de que talvez o sistema português não seja tão hospitalocêntrico como isso, ou que pelo menos não há destaque evidente de Portugal neste campo.

A estimativa da passagem do número de consultas para os cuidados de saúde primários baseou-se numa ideia de existir um número de consultas que constitui um mínimo resolutivo para cada caso, e depois deveria passar-se o doente para seguimento nos cuidados de saúde primários. Esse mínimo resolutivo de consultas é obtido usando um grupo de referência dentro dos hospitais da amostra.

No caso das urgências, a abordagem é a esperada, utilizando os casos de atendimento que foram classificados na triagem como brancos, azuis ou verdes que poderiam ser integralmente resolvidos nos cuidados de saúde primários (é aqui que entra a hipótese de potencial máximo de transferência, por exemplo).

A definição dos casos sociais foi baseada em informação do CH Setúbal, depois recalibrada para as diferentes tipologias de hospitais.

Como sempre nestes estudos, quem está de fora quer sempre mais qualquer coisa, e eu tenho também a minha própria lista de pedidos:

1)   divisão de dados entre ULS e não-ULS, isto porque uma das vantagens apontadas às unidades locais de saúde é a integração de financiamento e de gestão, o que as deveria levar a ter maior interesse neste tipo de transferências, pelo que deveriam, se já estivessem a usar esse potencial, ter menos margem para melhorar do que os outros (porque já o fariam). De uma forma mais genérica, poderia-se pensar em testar se o ambiente organizacional e financeiro das ULS de facto as induz a maior transferência de actividade hospitalar para cuidados de saúde primários e para cuidados continuados, conforme as circunstâncias dos doentes.

2)   A utilização de custos unitários para valorização das actividades ignora ganhos / perdas associadas com economias (ou deseconomias de escala). Para pequenas variações, poderá não fazer muita diferença, mas se a passagem de actividade for importante será interessante saber o que se passa nesse aspecto.

Com menor grau de importância, falando-se tanto de infecção contraída em ambiente hospitalar, a saída de casos para cuidados continuados, por exemplo, poderia ter por aí um reforço dos efeitos positivos, mas para isso é preciso saber se a probabilidade de infecção hospitalar é maior nesses casos, e dada a existência de uma situação de infecção hospitalar, saber se utiliza mais recursos, e quanto que poderá ser a magnitude destes efeitos.

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Autor: Pedro Pita Barros

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa

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