Momentos económicos… e não só

sobre o resgate financeiro de Chipre

9 comentários

o aspecto mais visível neste momento é o imposto sobre depósitos nos bancos, depósitos esses que ficaram já congelados para efeitos de pagamento desse imposto (pelo que se percebe, os depositantes podem retirar dinheiro, mas fica sempre retido o valor referente ao imposto que terá de ser pago). Terça-feira veremos que corrida aos bancos existe, e como reage a população. De Chipre, mas também de outros países – Grécia, Portugal, e Irlanda – por estarem já sob resgate, e Itália e Espanha por terem andado lá perto. Uma corrida aos bancos num destes países poderá levar a uma espiral europeia. De qualquer modo, a confiança nos depósitos bancários dificilmente será a mesma. Uma retirada maciça de depósitos para dinheiro num país médio da zona euro criará problemas graves para o sector bancário europeu. A ver como evolui.

Entretanto, alguns links interessantes que discutem este resgate a Chipre:

 

_Washington Post: aqui

_Financial times: aqui

_El Pais: aqui e aqui (o Governo espanhol a dizer já que o que se passa em Chipre não pode ser tomado como exemplo do que se poderá passar em Espanha).

_blog Theirisheconomy: aqui sobre as reacções na Irlanda

_The Economist: aqui

_blog de Protesilaos Stavrou: aqui

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Autor: Pedro Pita Barros

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa

9 thoughts on “sobre o resgate financeiro de Chipre

  1. Falta muita informação sobre este bailout. Pelo que qualquer comentário apressado é de facto arriscado.

    Fico curioso para saber alguns detalhes:
    1 – há um “haircut” nos depósitos, mas haverá nos restantes passivos bancários (mercado monetário interbancário, depósitos do Banco Central Europeu, obrigações e outros títulos de dívida emitidos pelos bancos), para já não falar dos fundos próprios? Como me parece evidente, todos os restantes “claimholders” dos passivos dos bancos têm melhores conhecimentos e competências para monitorar a actuação dos bancos.
    Se o haircut se aplica apenas a depósitos de clientes, há uma clara inversão da prioridade na distribuição de activos em caso de falência. Temos que rescrever os livros de Finanças!
    Por outro lado, a importante função de monitorização fica atribuída a quem tem menores competências e maiores custos (até pelo número) em o fazer.

    2 – acabou a ideia da União Bancária? Um dos pilares da ideia era a garantia de depósitos centralizada. Se é a troika que impõe o haircut, temos a situação orweliana de haver animais mais iguais do que outros. Mau “ensaio”.

    3 – a troika deveria dizer que era totalmente contra o haircut mas teve que ceder com relutância às exigências do governo cipriota! É a única forma de tentar salvar a confiança noutros mercados. Sabendo nós que as receitas da troika não diferem muito de país para país, a sombra desta medida irá pairar sobre os outros mercados intervencionados ou frágeis. Mais vale estar fora da União Europeia! Que raio de publicidade!

    4 – em termos estritamente bancários, o haircut só agrava a situação. De facto, nada contribui para reduzir os activos de imediato, mas provoca uma saída de passivos. Os frágeis bancos passam de pouco capitalizados a ilíquidos. Qualquer banqueiro teme bem mais a iliquidez do que a solvabilidade.

    Apesar de ser um desconfiado das boas intenções das instâncias reguladoras, tento sempre pensar que são constituídas por gente inteligente, com mais dados do que eu, pelo que o risco deverá ter sido calculado.

    E alguém pensou que Chipre é uma gota de água na União Europeia e não contaminará os restantes mercados. (Se a memória não me falha, houve um banco americano que não foi resgatado com um argumento semelhante, porque não apresentava risco sistémico. Como é que ele se chamava? Lehman Brothers?)

    Um abraço,

    Gonçalo Leónidas Rocha

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  2. Ou muito me engano ou o tema e apenas e sempre mais um teste controlado para ” ver o que isto da”.com os dados disponiveis e as leituras dos links deixados so resta ” nao dormir descansado” ate segunda feira.
    A ideia do Eurogrupo e da troika sera colocar os depositantes a resgatar parcialmente os bancos através de um imposto de “salvação nacional”? Sera “só” para Chipre?Não é “extrapolável”?
    A ” Talentocracia” Nordica a beira de fazer implodir a confianca que se tentava recuperar a Sul.
    Valha-me o PaPa que tambem e Francisco.
    Abraco
    Francisco

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  3. Leio com muito prazer o seu blog, e gostaria de lhe agradecer pelo seu trabalho.

    Relativamente ao assunto, sou da opinião de que se deve utilizar o método cientifico em tudo na vida, e neste caso não devemos comentar nada sem ter todos a informação disponível. E onde ficam os depósitos da máfia russa parqueados no Chipre desde o ínicio do século? Estariam os contribuintes europeus mais contentes por irem resgatar os bancos do Chipre, afundados em divida grega, comprada com dinheiro sujo russo? Acho que o essencial é perceber porque se penaliza os pequenos depósitos abaixo de 100K€… Com certeza não é o dinheiro dos russos que se encontra nesse patamar.

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  4. Parece estar-se a “empurrar ” a Europa contra a parede?
    E depois??

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  5. É praticamente impossível vislumbrar qualquer vantagem nesta medida. Mesmo o argumento da máfia russa é frágil, dados os óbvios problemas que isto iria (vai) causar. Estou com o @Gonçalo Leónidas Rocha: a história da humanidade está cheia de gotas de água que fizeram transbordar copos!

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  6. A falta de informação provavelmente irá sendo resolvida nos próximos dias. Mesmo assim, a maior parte das pessoas fora de Chipre reterá é que os depósitos foram congelados para serem tributados a 10%, ignorando os outros detalhes que venham a ser especificados.

    O argumento das máfias russas é complicado. Se é lavagem de dinheiro deveria ser resolvida por mecanismos próprios. E como refere o @emece, se fosse apenas essa a pretensão, bastava elevar o limiar de tributação, deixando de fora os depósitos de valor menor.

    O efeito de contágio de que esta possibilidade de tributação exista noutros países do euro é que me parece preocupante. Se de repente o tribunal constitucional em Portugal anunciar que os cortes nas pensões não se podem fazer, e o ministro das finanças anunciar que está a pensar em medidas alternativas, como é que se afasta dos portugueses a ideia de ir levantar os depósitos não se lembrem “eles” de fazer como em Chipre? Tem sido feitas declarações nesse sentido, obviamente, mas também não se estaria à espera do contrário. Essas declarações têm pouco valor como sinal para o que possam ser medidas de emergência.

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  7. Aparecem mais alguns dados sobre este tema.

    O governo Cipriota está a tentar tributar mais os depósitos acima de 100 mil euros para manter intactos os depósitos inferiores a esse valor. Além do efeito de protecção dos pequenos depositantes, este aspecto é importante por preservar a garantia de depósitos na Europa que todos os Estados Membros aceitaram não colocar abaixo dos 100 mil euros.

    Claro que o facto de 35% do dinheiro estar em depósitos abaixo de 100 mil euros não ajuda ao “perdão” deste grupo. O imposto acima de 100 mil euros teria de ser superior a 13,5% para manter a receita. E parece haver problemas constitucionais em considerar uma “taxa” superior a 10%.

    A segunda ideia interessante é a distinção técnica entre um “bailout” e um “bail-in”. Num bailout, pagam os contribuintes. Num bail-in pagam os credores do banco. Os depositantes são claramente credores dos bancos. Uma das ideias que se está a desenhar é a transformação dos depósitos em acções dos próprios bancos (a ideia não é nova: os CoCos usados em Portugal têm a mesma génese; se o banco não cumprir determinados rácios de capital, os títulos de dívida do Estado convertem-se em capital. Na Suíça fez-se o mesmo mas colocando os CoCos em mão privadas). Claro que isto resolve alguns problemas dos bancos. Para evitar males maiores na corrida aos depósitos, avança-se com títulos de participação garantidos pela exploração futura das reservas de gás natural de Chipre (para quem não levante depósitos durante dois anos). Ou seja, um “bailout” outra vez (são as reservas de valor dos contribuintes que pagam).

    Qualquer que seja a solução, terá de ser legislada hoje, feriado nacional no Chipre. Esta urgência tem todos os ingredientes para ser má conselheira.

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  8. Existe também outro factor a ter em conta. O actual PIB chipriota é de pouco mais que 17MM€. O resgate financeiro de 17MM€ colocaria automaticamente a dívida do Chipre em valores estratosféricos, cerca de ~190% do seu PIB (uma subida de 100%). Como acontece com Portugal, só os valores de gestão dos juros da dívida seriam suficientes para que esta dívida não fosse sustentável.

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  9. Comentário recebido via LinkedIn:
    “neste caso concreto em que o estado tira 10% de todos os depositos a fim de saldar a divida do estado, as pessoas não poderão recorrer aos tribunais europeus a fim de impugnar tal decisão, ou sera que os tribunais (ou melhor as leis, os tribunais fazem cumprir as leis)só defendem os banqueiros e os grandes investidores”

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