Momentos económicos… e não só

temas dos dias que correm…

5 comentários

1) os cortes

Desde que se falou na reforma do estado social que somos sucessivamente bombardeados com afirmações genéricas de intenções, que de tanto repetidas cansam mais do que ajudam.

Anúncios repetidos de cortes nos próximos três anos, sem detalhes, criam ansiedade mas não dão qualquer pista sobre o ajustamento que os agentes económicos atingidos terão de realizar. Sendo bom saber qual é o plano geral, torna-se desgastante estar sempre a ouvir o mesmo.

2) os “ensaios” (ou fugas de informação?) através da imprensa – esta semana foi o corte nas pensões usando o factor de sustentabilidade – o que é praticamente chinês para a maior parte das pessoas. Essencialmente o que o factor de sustentabilidade das pensões, que já existe, faz é ajustar a pensão à expectativa de vida no momento da reforma – numa visão simplista, o factor de sustentabilidade faz com valor total = valor da pensão por ano X número de anos esperados da pensão seja constante – se o número de anos que se espera receber a pensão aumenta por maior longevidade da pensão, então o valor da pensão em cada ano terá que baixar para garantir o valor total constante. Assim sendo, aumentar a idade da reforma  usando o factor de sustentabilidade para não significa corte da pensão, significa que se gasta menos hoje para gastar mais no futuro. Ou seja, será uma medida que compra tempo, e não corresponde a uma poupança permanente e duradoura. Diferente será se cortarem o valor total da pensão, mas nesse caso não seria usar o factor de sustentabilidade. Agora, e relembrando uma velha ideia que Carlos Pereira da Silva repete há vários anos sem qualquer resultado prático – devia-se saber actuarialmente qual o valor dos descontos de cada pessoa convertidos ou convertíveis em pensão, ajustados de factores de redistribuição. Sem isso, as discussões sobre justiça nos valores das pensões serão conversas de café informadas (mal informadas, muito provavelmente) sobre o tema.

3) os “swaps” de taxa de juro – tenho esperado para ver uma discussão e esclarecimento claro sobre isso. Apesar de algumas tentativas (por exemplo, Gomes Mota no Diário Económico e Pedro Rodrigues no seu blog), no geral o discurso público deixou muito por esclarecer. Por um lado, é claro que os swaps na versão mais elementar são apenas instrumentos de seguro, como o seguro de acidente automóvel, seguro de imóvel, seguro de viagem, etc…

Isto é, não se sabendo qual a taxa de juro futura, e querendo assegurar alguma certeza quanto a isso, realiza-se um seguro. Exemplo simples: suponhamos que a taxa de juro daqui a dois anos poderá ser 10% com probabilidade 1/2 ou ser 0,5% com probabilidade 1/2. Se quiser ter um seguro, posso acordar com uma instituição que me faça uma taxa de juro de 5,25% (=1/2 x 10%  + 1/2 x 0,5%), e nesse caso se a taxa de juro for 10%, essa instituição dá-me a diferença (10%- 5,25%) para que eu em vez de pagar 10% pague 5,25%, mas se for 0,5%, terei que pagar eu a diferença (5,25% – 0,5%) – ganhei a garantia hoje de qual será o valor futuro da taxa de juro. Pagar quando as taxas de juro são baixas e receber quando são elevadas é o equivalente a no seguro automóvel ter pago um prémio e não receber nada porque não tive um acidente, e se tiver acidente receber um pagamento pelos danos envolvidos. Esta cobertura de risco não tem nada de mal, e envolverá pagar uma comissão pela realização do contrato, tal como nos prémios de seguro pagamos as despesas administrativas das companhias de seguros.

Primeiro desvio a este contrato elementar poderá ser contratos desequilibrados – se a taxa de juro garantida no exemplo acima fosse 8% e não os 5,25%, haveria um desequilíbrio a favor da instituição que fizesse o contrato para me dar o seguro de taxa de juro – haveria o que na gíria actual se chama de renda excessiva, ou poder de mercado, e deveria-se ver se constituiria um abuso de poder de mercado impor essa taxa, por exemplo.

Segundo desvio, para instrumentos que não entendo bem, e que são essencialmente especulativos, completamente fora da lógica de cobertura de risco.

Até agora, não foram dadas informações sobre quantos contratos caiem no primeiro caso (cobertura de risco pura), quantos caiem no segundo caso (rendas excessivas/abuso de poder de mercado) e quantos caiem no terceiro caso (erros de gestão, deliberadamente correndo riscos que não têm relação com a actividade das empresas em causa).

 

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Autor: Pedro Pita Barros

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa

5 thoughts on “temas dos dias que correm…

  1. Bom dia Pedro

    Obrigada pela explicações simples e ao mesmo tempo concretas para o “comum dos mortais” que cada vez percebe menos de economia e com tantos imprevistos que alteram as “estratégias” e “previsões” do governo até pensamos que isto é uma espécie de adivinhação e pouca ciência.

    Aproveito para te contar um caso curioso. Há cerca de uma semana, numa rádio pública, acabado o noticiário das 8 da manhã que anunciava, mais uma vez, a necessidade de diminuir o número de funcionários públicos, entra o anúncio de que estão abertas 80 vagas para inscrições no INA (Instituto nacional da Administração que agora se chama Direção-Geral de Qualificação dos Trabalhadores em Funções Públicas) para o curso de Estudos Avançados em Gestão Pública (CEAGP) tendo estes garantido o ingresso/acesso na carreira geral de técnico superior da Administração Pública (podes confirmar no site).

    Diz-me, quem governa e decide não consegue fazer um estudo para ter uma visão global do que é realmente necessário na AP? Isto é que é estratégia? No meu entendimento é assim: Esta Direção-Geral tem as suas verbas para gastar com estes cursos, e outros é claro, e tem lá os trabalhadores, então toca de continuar como se nada se passasse.

    isto é só um desabafo. Bjs

    Maria do Rosário Mendes

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  2. Sendo um leigo pouco informado nos contratos realizados, preocupam-me 2 coisas: primeiro, a ausência de transparência no conhecimento dos mesmos contratos por parte da opinião pública. Parece que colocaram um camuflado por cima destes contratos e ninguém senão o governo vigente e o anterior governo é que conhecem a fundo o que se passa. Aparentemente nem o próprio tribunal de contas sabe da “missa a metade”.
    Não deveriam os Portugueses poder ter acesso a consulta pública dos mesmos, bem como de contratos anteriores (espanta-me que no caso dos submarinos existam Alemães presos e tenha sido dado como provado a ocorrência de corrupção e em Portugal nada se passou), especialmente quem tem conhecimento científico para avaliar de forma independente os mesmos contratos e apontar o dedo ou propor alternativas?
    Por outro lado, quando um contrato deste género apresenta veiculos expeculativos de investimento na sua base (exemplo: variação alavancada dos futuros de commodities), não deveriam tais contratos ser levados a estudo à mesa do ministério da economia e /ou finanças antes de serem fechados? Ou mantem-se a concentração de poderes em meia duzia de mãos, para a bomba relógio rebentar nas mãos de outros passados uns anos?

    Deixo uma pergunta que me está a incomodar mais ainda do que os cortes nas pensões: o prolongamento efetivo do tempo de trabalho dos atuais trabalhadores não irá fechar a porta do mercado de trabalho dos jovens com menos de 34 anos atualmente, bem como das gerações vindouras? Até que ponto é que o aumento do desemprego jovem, acompanhado da diminuição da natalidade em Portugal não servirá para deitar ainda mais sal em terra queimada?

    Bom fim de semana!

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