Momentos económicos… e não só

perguntas e (tentativas) de resposta

7 comentários

Lançou  A. Küttner de Magalhães ontem num comentário, algumas perguntas, que merecem uma resposta (ou tentativa de resposta):

Gostaria de deixar aqui alguns aspectos quanto aos médicos:

1 – não seria de já no proximo ano lectivo, de reduzir o numero de vagas em medicina ? ( licenciatura das mais dispenddioas para os nossos impostos, e pode ser mais uma para todos emigrarem)

Não creio que se deva reduzir o número de vagas de medicina, mesmo que haja depois formados a emigrarem. Vejo a responsabilidade do ensino superior público como sendo perante a população, e não perante os empregadores. Desenvolvi o argumento aqui. A única razão para limitar vagas será a capacidade formativa adequada de cada escola, e se essa for uma restrição activa então a resposta deverá ser aumentar a capacidade formativa.

2 – que fazer com todos os médicos que se licenciaram no último ano lectivo e no em curso, que não terão sequer acesso ao internato? ( ficam com o canudo e sem experiência…..)

Duas respostas: primeiro, fazer o planeamento necessário para que haja as vagas de internato adequadas; segundo, e aqui especulando bastante, será que todos os formados querem seguir para carreira clínica, será que não existem oportunidades de emprego alternativas que não impliquem internato? Não conheço o suficiente dos números envolvidos nem da validade e existência dessas alternativas para  saber as respostas.

3 – como melhor (bem) aproveitar todos os médicos que estão no fim das especialidades? (dado que teminada a licenciatura, o internato e a especialidade – se bem que nestas últimas duas etapas já são muito uteis, uma vez que já tratam doentes, como se sabe – podem não ter vagas.

Boa questão, até há um par de anos a principal preocupação era que iríamos ter falta de médicos e que se estava a importar médicos de outros países. O caminho será encontrar o equilíbrio entre oferta e procura, usando os mecanismos que o Serviço Nacional de Saúde tem, mas sem se substituir à livre decisão de cada médico sobre a sua vida. A responsabilidade sobre aproveitar bem os médicos formados é a mesma que se tem sobre os historiadores formados, ou sobre os economistas, ou os engenheiros. A importância do custo da formação não é, a meu ver, argumento (ver resposta à primeira pergunta).

O que significa encontrar esse equilíbrio entre oferta e procura? oferecer mais vagas nas especialidades que o SNS preveja vir a ter mais necessidade; oferecer projectos de vida interessantes em zonas geográficas que tradicionalmente atraiam menos médicos.

4 – como fazer que médicos mais velhos deixem o SNS quando estão em idade de o fazer se se ameça – a todos nós médicos ou porteiros – em acabar com reformas e pensões?

Na verdade, o problema dos últimos anos tem sido fazer com que esses médicos mais velhos não desapareçam já do sistema.  Mas assumindo que se quer fazer com que deixem o SNS (e não sei se concordo em absoluto com essa ideia), talvez possam ter um papel menos clínico activo e mais formativo, resolvendo também alguns dos aspectos de capacidade de formação de novos médicos referido acima. O balanço entre as diversas funções dos médicos no Serviço Nacional de Saúde poderá evoluir ao longo do tempo.

Aliás, podemos até pensar de forma mais ampla, e considerar que Portugal poderá tentar criar uma capacidade formativa em Medicina que exceda a sua estrita necessidade com o objectivo de formar médicos que irão trabalhar noutros países, uma vez que se prevê um aumento da necessidade de médicos quer no Norte da Europa quer nos países emergentes ou em desenvolvimento (surgiu há dias a necessidade de recrutamento do Brasil, mas também Angola e Moçambique irão necessitar de formar mais médicos conforme forem tendo crescimento económico e recursos para suportar sistemas de saúde mais amplos).

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Autor: Pedro Pita Barros

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa

7 thoughts on “perguntas e (tentativas) de resposta

  1. Antes de mais um desejo de bom fim de semana!

    Vou tentar dar um contributo vestindo a pele do diabo, dado que sou interno de Medicina Geral e Familiar em fim de período formativo e como cidadão Português:

    1- em relação à redução brusca das vagas não concordo com a rápida redução das mesmas. Creio que devemos antes de mais planear, planear, planear, através da optimização dos recursos humanos, da capacidade formativa e das necessidades do país.

    As faculdades devem informar qual a sua capacidade formativa de 5 em 5 anos de modo a se saber quais as reais capacidades formativas que existem, se existem assimetrias a nivel nacional ou necessidade de aumentar ou diminuir. Devemos também saber qual a real necessidade de especialistas nas diversas especialidades ( e são mais de 40) e qual a sua melhor localização geográfica. Finalmente devemos perceber qual deve ser o melhor rácio especialista / 1000 habitantes. A OCDE e a OMS apontam para valores, mas serão estes os valores ideais? serão realistas?

    Já temos trabalhos realizados na área por profissionais competentes, no departamento de engenharia e gestão do IST no centro de estudos de geografia da Universidade de Coimbra, que apresentam quais as melhores opções em termos de distribuição de unidades de saúde e ou profissionais.

    Um excesso de especialistas poderá não se traduzir em melhor acessibilidade a uma especialidade. Mas um excesso de especialistas poderá traduzir-se num profissional menos preparado o que poderá potenciar os erros médicos. Importa também levar este problema em conta…queremos profissionais bem preparados ou formar profissionais em linha de montagem como em Cuba, um dos principais exportadores de profissionais?

    2 – em relação ao excesso de internos que sairão dos cursos (creio que falamos de mais 200 por ano) o que fazer com os mesmos? é uma boa pergunta e em relação ao que o professor diz é um bocado especular: falo por experiência própria… sou casado com uma colega professora no IST e vejo com bom agrado que os engenheiros atualmente são os profissionais que tcompetências mais abrangentes que lhes permitam poderem integrar diferentes projetos laborais, independentemente da sua área de formação;
    as universidades de medicina portuguesa ainda acautelam pouco a diversidade formativa durante o curso, dado que não implementam cadeiras de gestão e políticas de saúde durante o curso, cadeiras vocacionadas a ganhar competências a serem aplicadas na investigação ou a que os médicos possam tomar contacto com as áreas de engenharia, como a engenharia biomédica. Daqui se traduz que temos um profissional altamente especializado que se arrisca a ter que ganhar competências rapidamente noutra área caso se encontre numa situação de desemprego, demorando uma quantidade de tempo considerável a conseguir trabalho noutra área. Infelizmente no caso da investigação em medicina em Portugal, são poucos os investigadores existentes e estes trabalham mais nas áreas básicas e em são inexistentes nas áreas clínicas. O que fazer? reconverter os alunos para que possam integrar outros cursos, como engenharia biomédica, biomateriais, biologia? Convidá-los a emigrar?

    Finalmente, o custo de formação de cada um dos alunos creio que ronda os 12000 euros anuais ao estado. Se falarmos de um excesso de 300 alunos a cada 6 anos falaremos de um valor aproximadamente de 21 milhões, sem acrescentar outros custos. É um valor que a sociedade está disposta a pagar? Falamos de outros valores para professores recém licenciados, para licenciados em história, em gestão de empresas, mas são valores que devemos de equacionar e que somados não são de menosprezar.

    3- resposta à pergunta 3 creio que está mais ou menos respondida na 1 e na 2.

    4- o papel dos médicos mais velhos é importante no sentido de que apresentam muito mais experiência profissional e formativa do que os recém especialistas. Se estes “desaparecerem do mapa”, corre-se o risco de se ter um hiato grande inter geracional, especialmente em áreas como a medicina geral e familiar, a medicina interna e a cirurgia. O papel destes colegas deveria ser valorizado em 3 áreas: contribuir para a formação de novos profissionais, através da sua atualização pedagógica nos programas de formação, contribuir para colmatar necessidades pontuais em áreas de consulta / cirurgia ao longo do ano e participação ativa em programas de educação para a saúde e prevenção de doença junto das comunidades.

    O excesso de formação profissional levará a que obrigatoriamente haja mais concorrência, redução de salários, tornando a profissão menos atrativa do ponto de vista salarial, o que levará potenciais interessados a não se candidatarem ou candidatos correntes a desistirem. Será suficiente para o próprio mecanismo caminhar para o equilibrio? Se tal não acontecer que mecanismos de avaliação teremos para avaliar a qualidade dos profissionais? Passaremos a ter mais erro médico ou os valores manter-se-ão semelhantes aos atuais? Que custos para o estado Português comporta a formação de excesso de profissionais? E o que ganhará o estado Português com a exportação de profissionais? Poderá o estado Português criar algum mecanismo de compensação para si?

    Não precisamos de exportar os profissionais para fora da europa: eu já recebi ofertas da irlanda, Alemanha, Suiça, Reino Unido, Dinamarca e Suécia. E falamos de valores em alguns casos 6 vezes superiores ao salário bruto que recebo em Portugal. O paradoxo atual é que profissionais destes mesmos países saem para procurar alternativas no canadá, estados unidos, nova zelândia e austrália onde os salários e as condições de progressão na carreira são ainda mais atrativas. O que pensarão estes países sobre a saida dos seus profissionais?

    Mais uma vez, um bom fim de semana!

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  2. 1- e porque não aumentar as propinas?
    2- ter uma licenciatura garante a aplicação do recurso gerado
    3- idêntico a 2… mas se calhar repensar a distribuição de serviço entre publico e privado
    4- a idade é experiência acumulada e não deve ser deitada fora; mas a idade representa também desactualização de conhecimentos e menor “estreiteza” na relação paciente-médico…

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  3. Tenho defendido que o pleno emprego tem sido mais pernicioso, que benéfico, para a Medicina, por eliminar a competição pela “sobrevivência”. Esta desenvolve-se a nível secundário, no campo de procura de certas especialidades (Oftalmologia em detrimento de Medicina Interna… o fazer em detrimento do saber, já que as expectativas de rendimentos futuros são maiores no primeiro caso) e determinados locais (litoral em detrimento do interior).
    No entanto a Medicina é, tal como o exemplo da Engenharia, um saber de banda larga, não se devendo afunilar a formação ou as expectativas dos alunos para as actividades assistenciais. Quantos cargos na Gestão de Saúde estão ocupados por curricula e experiências duvidosos? Quantos hospitais não têm, nos seus Conselhos de Administração, profissionais sem preparação em Gestão como Directores Clínicos, ao contrário dos Enfermeiros Directores? A Enfermagem já há muito que valoriza percursos como luta contra um panorama desfavorável do mercado de trabalho. Está na altura de nós, médicos, fazermos o mesmo…
    Muitas vagas para recém-especialistas têm ficado desertas, sobretudo a Sul (sendo o caso mais escandaloso o de Faro), porque a resistência à mudança geográfica é maior nos Hospitais de Lisboa. E isso contribui com certeza também para os piores resultados financeiros globais e por doente tratados, em relação a Hospitais equivalentes do Norte.
    A Lei que instituiu estes concursos previa a rescisão imediata dos jovens especialistas que não concorressem para estas vagas carenciadas, ou fazendo-o não assinassem o contrato. Quantos Hospitais cumpriram esta determinação do MS??? Os Hospitais do Porto e, sobretudo, Lisboa continuam cheios destes jovens sem contrato, sem perspectivas de carreira, mas presos à cidade. Claro que uma das grandes razões para esta imobilidade é exterior à Saúde e reside, por exemplo na elevada taxa de habitação própria e desemprego elevado, com difíceis perspectivas de novo emprego para o cônjuge.
    Partilho no entanto de uma preocupação: não acredito na qualidade de formação actual quando temos 400 alunos por ano nas grandes escolas. Não acreditava em termos conceptuais, dado o carácter prático de muitas áreas do saber médico mas menos acredito actualmente, após uma filha ter realizado o 1o ano na FMUL, com 400 alunos e o 2o ano na ESCV da UM, com 1/4 de candidatos. A diferença na experiência vivida e transmitida por ela reforça a necessidade de reduzir o número por Escola Médica, não a bem da empregabilidade mas a favor da qualidade!

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  4. Em relação ao aumento das propinas para Medicina: queremos então tornar o acesso a Medicina ainda mais elitista, quando já o é agora devido á necessidade de notas astronómicas, muitas vezes alavancadas por explicações e colégios privados classification-friendly, como o caso aberrante do Externato Ribadouro, no Porto (vide proveniência dos alunos da FMUL e FCM, de Lisbos)???

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    • Ha emprestimos para estudantes universitarios e sao varios os estudantes que recorrem a eles. Os alunos de medicina nao pagam a sua formaçao e na sua carreira vao receber um rendimento que vai ser pago pela sociedade que no passado pagou a sua formaçao… de uma forma basica.

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      • Conheço advogados bem mais ricos. Aliás veja a lista dos mais ricos de Portugal e veja onde está o 1o médico… apenas os futuros médicos pagariam propinas e isto seria resumido a um ódio freudiano mal resolvido? Ou quais seriam os cursos abrangidos pelo Índice Gini… perdão… Aida???

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