Momentos económicos… e não só

o cliente

6 comentários

As colocações dos candidatos ao ensino superior público foram publicadas esta semana. Ficaram muitas vagas por preencher e muitos cursos ou não têm alunos ou têm muito poucos alunos.
Daqui à conclusão da necessidade de fechar esses cursos vai um pequeno passo. Que foi rapidamente dado por muitos.
As discussões sobre as vagas e os cursos do ensino superior e porque são oferecidos cursos que não têm alunos têm sempre implícita a noção de que então vai o estado estar a pagar professores universitários e instalações para nada. O pequeno passo para a acusação de má gestão é também fácil de dar. O passo seguinte é discutir-se quais devem ser os cursos oferecidos. E dá-se o pequeno passo de os cursos serem abertos com base na respectiva empregabilidade (mais uma palavra que se tornou moda).

Toda esta discussão encerra algumas ideias certas com algumas ideias erradas. Tomemos os cursos oferecidos – provavelmente será possível que algumas instituições ofereçam cursos, ou percursos académicos, que combinam disciplinas comuns a vários cursos, e que alguém não escolher um determinado percurso (não preencher as vagas de um curso) não significa obrigatoriamente que outros cursos / percursos académicos não utilizem essas mesmas disciplinas, em parte, para a sua delineação. Claro que nem todos os casos serão deste tipo, mas ignorar que alguns possam ser e dizer que se deve fechar tudo é pouco sensato. Se oferecer uma combinação diferente de algo que existe, usando opções que estão disponíveis por outras razões não pode tornar o sistema pior, mesmo que ninguém faça essa escolha. Um exemplo rápido: suponhamos que se montava uma licenciatura em direito e economia entre uma faculdade de economia e uma faculdade de direito. Suponhamos que as cadeiras que fariam parte dessa licenciatura já existem em cada uma das faculdades para as suas outras licenciaturas. Permitir a opção dessa licenciatura, mesmo que não tenha inscritos, não significa desperdício de recursos. O tal pequeno passo de encerrar significa apenas diminuir a diversidade de opções sem qualquer ganho.

Segundo aspecto que por vezes me espanta, saber qual é o objectivo do ensino superior. Se for apenas abastecer empresas e instituições dos quadros que estas precisam, então essas entidades deveriam pagar os serviços da universidade. Se o cliente são as empresas e outras instituições, porque não tem esse cliente de pagar o serviço de formação que é prestado pelas universidades, em vez de recair sobre o sector público? Calculo que aqui se esteja a pensar que é importante a igualdade de oportunidades de todos na sociedade. Mas então se é essa a linha de argumentação, o cliente que está subjacente não são as empresas ou quem contrata. O cliente é a sociedade, os cidadãos, a quem, como sociedade, pretendemos garantir a capacidade de formação avançada. E pensar quem é o cliente faz toda a diferença. Se alguém quiser tirar um curso que não tem emprego depois, sabendo disso à partida (e este conhecimento é crucial que exista), então deverá a sociedade garantir essa possibilidade? E se alguém quiser tirar um curso para o qual há muitos candidatos mas poucas vagas, deve a oferta de ensino superior alargar-se nessa área?

As respostas que implicitamente ou explicitamente são dadas a estas perguntas frequentemente encerram o desejo de quem responde fazer engenharia ou planeamento social sobre o que cada um deve fazer. Mas se o cliente é o cidadão deveria ser ele a dar a resposta, e a nossa organização enquanto sociedade deveria permitir essas respostas. Não sei se é a empregabilidade o elemento crucial nas escolhas, ou se é cada um escolher o que mais considera ser a opção que mais contribui para a sua formação e preparação para a vida em sociedade (e não apenas vida profissional, emprego).

Depois de clarificar esse aspecto, então sim podemos pensar no que deve ser a intervenção do estado. Que pode mesmo passar por uma alteração radical do formato actual. Desde aumentar o financiamento do estado (hoje em dia, há instituições cujas receitas vêm maioritariamente de outras fontes que não o orçamento do estado), até passar todas as universidades para a esfera privada (sim, privatizar) sendo o papel do estado o de apoiar directamente o cliente no que ache que deva ser apoiado. Mas qualquer que seja a escolha, deverá primeiro especificar quais são os objectivos e quem é o cliente, perante quem tem a universidade pública responsabilidade.

Comentários, ideias e sugestões?

 

Declaração de conflito de interesses: sou professor numa universidade do sector público.

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Autor: Pedro Pita Barros

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa

6 thoughts on “o cliente

  1. Um dos problemas é que as colocações dos candidatos ao ensino superior público são conhecidas tarde demais para permitir algum planeamento sensato. Seria impossível antever (comprometer?) a procura por este ou aquele curso a 2 anos de distância?

    Depois a questão da escolha. A ideia que sugeres de permitir uma Lic. conjunta em Direito/Economia apenas teria um custo (marginal) em termos de administração, mas temo que o produto pudesse não ser muito homegéneo e que os alunos escolhessem apenas as cadeiras mais fáceis, degradando o valor do canudo no final.

    Quem é o cliente. Humm … Dado que se trata de educação pública, julgo que é o contribuinte. E aqui não me parece que ele queira financiar cursos para futuros emigrantes, nem para futuros desempregados. Mas parece-me que valoriza a igualdade de oportunidades. Dito isso, parece-me de bom senso que a oferta em engenharias/ciências da vida/etc. deva ser mais alargada que a filosofia. Uma alternativa possível era ter propinas diferenciadas: quem quer filosofia paga uma propina mais elevada que sinaliza que este curso tem uma menor empregabilidade.

    Ideias? 🙂

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    • Em Oxford, existe estes cursos: Física e Filosofia; Matemática e Filosofia, Ciências da computação e Filosofia, Psicologia, Filosofia e Linguística, como existe um curso de Filosofia e Economia.
      EU percebo que a sua formação filosófica, como da maioria dos portugueses, tem a ver sobretudo com a nossa cultura filosófica. Não o culpo a si, mas essencialmente à marginalização da Filosofia em Portugal, também por culpa das Universidades, serem fechadas para algo que necessariamente implica abertura, o conhecimento.

      Cumprimentos

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  2. 1) Dum modo geral a maioria dos alunos que se inscrevem num curso superior fazem-no para obter as qualificações necessárias para desenvolverem no futuro uma actividade profissional. E essa é uma decisão dele pelo que não pode, quando constatar que o curso que frequentou não lhe abre as portas que imaginou, vir exigir um emprego público. Estou a pensar, por exemplo, no elevado número de pessoas que frequentaram cursos cuja única saída profissional seja o ensino.
    2) Concordo que não compete ao estado encerrar cursos que não têm inscrições em número suficiente. Essa é uma decisão que deveria ser assumida pela própria escola no âmbito da sua autonomia ponderando os benefícios que dela poderiam decorrer para os alunos com os custos implicados. E a decisão até poderia ser colectiva, envolvendo mais do que uma escola. O que não é racional é constarem várias escolas com, por exemplo, 1 inscrição no curso de engenharia civil.

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  3. Caro Pedro
    A comercialização do ensino é a sua instrumentalização. Repare que quando pergunta quem é o cliente, está a reduzir a educação a valores estritamente económicos, a uma perspectiva de mercado. Na minha concepção, Educação é um conceito bem mais lato, e tem alguns princípios subjacentes, como os ético- morais, no fundo devia delinear o perfil do cidadão para a sociedade. Repare, é importante ter bons médicos tecnicamente, mas se não tiver um sentido humano, que esperança poderão dar-nos?? E o mesmo podia dizer todas as outras profissões. Estou convencido que é o sentido da óptica do mercado que está a liquidar o ser humano, como pessoa que se preocupa que a sua função seja para o bem dos outros, embora tenha direito à sua remuneração como é evidente, agora colocar o dinheiro acima dos valores ético-morais só leva a que os outros, por mimésis, os repitam. Há empresários éticos em que os valores se conciliam com a geração de riqueza, assim como políticos, mas cada vez são menos, pelo contrário, assistimos cada vez mais a novos fenómenos de exploração. Curiosamente “agarrados a uma ética do inevitável”.
    Ora, como se pode alterar um estado de coisas??
    Será formar lacaios para serem instrumentalizados?? Ou, formar cidadãos sobretudo, com espírito crítico, mas sobretudo com valores fundamentais que permitam uma humanização nas relações, sem desprezar o conhecimento técnico, este ideal de cidadão só a educação o pode formar….
    Isto também para dizer que os cursos de humanidades, são essenciais para uma sociedade. Como disse, é emergente relações com as outras áreas. Dito de uma forma simples, eu quero ir ao médico, e ele não olhar para a minha bolsa, e de acordo com isso ser atendido. Já para não falar nos advogados, basta ser muito rico, só por esse facto, têm o direito de aplicar honorários avultados.
    Estamos numa ética mercantilista, e é por isso, que também na educação se coloque segundo os mesmos parâmetros. Na minha perspectiva, estamos a liquidar a humanidade. Ao cuidarmos exclusivamente das riquezas materiais liquidamos o que nos poderia fazer felizes que é cuidarmos o nosso interior na relação com os homens, crescer a esse nível é o verdadeiro crescimento sustentável…. Economia, se os seus conhecimentos técnicos não visar uma sociedade melhor não passa de mais uma ferramenta de instrumentalização do individuo, da sociedade.

    Cumprimentos

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  4. @Pedro: 1) o tentar prever procura a dois anos de distância implicaria provavelmente que os alunos tivessem que escolher a essa distância e sem a capacidade de mudar. Creio que a aleatoriedade da procura será inevitável. Isso sugere que a) são as escolas que têm de ter flexibilidade para acomodar flutuações de procura; b) num ano haver baixa procura não será sinal suficiente para encerrar; 2) o meu exemplo de economia e direito não era proposta de curso, apenas uma ilustração que me era fácil criar sobre como ter uma licenciatura que interessará a poucos não implicaria necessariamente custos elevados a montar, dentro das engenharias e dentro de algumas ciências sociais será mais fácil encontrar exemplos reais, mesmo dentro da gestão, licenciaturas de marketing e de gestão de recursos humanos provavelmente partilham muitas cadeiras; 3) cliente – aqui é que a minha proposta é diferente, não tenho o contribuinte como cliente – é ele quem paga a 50% (mais coisa menos coisa) nalgumas instituições, mas essa é uma opção de redistribuição de rendimento para dar igualdade de oportunidade; o cliente, a meu ver, é a sociedade – não apenas o aluno individual, mas o aluno como elemento da sociedade – onde está a diferença? ser o aluno individual, o que provavelmente ele quer naquele momento da formação é conseguir encontrar um emprego no final, bem remunerado e interessante (se as duas coisas são possíveis ao mesmo tempo, é outra discussão…). Mas a formação que damos procura também fazer com o aluno individual ganhe sentido da comunidade, e mesmo sem ele querer, dar-lhe instrumentos e conhecimento para esse funcionamento e para que possa traçar depois o seu percurso profissional; 4) o ter mais ou menos vagas para um curso deveria ser uma opção de cada instituição em cada momento, até porque é necessário que as universidades procurem antecipar o conhecimento que vai ser essencial – lembro-me de um exemplo há muitos anos, que não retive em todo o pormenor (tenho agora pena), de uma escola de gestão que quando havia o lotus 123 e depois o quattro (nomes que talvez já não digam nada a muita gente) decidiu abandonar a sua utilização para usar o então novo Excel. Mas as empresas usavam um dos outros dois programas, foi criticada por não a formação apropriada. Pouco tempo depois o Excel tornou-se praticamente universal.

    @Pedro (Pinheiro) – tendo a concordar consigo no papel da filosofia; a filosofia como apresentada no secundário afasta número razoável de alunos de querer saber mais, e são afastados num ponto de maturidade que não lhes permite mais tarde rever o seu interesse. Infelizmente, era assim há trinta anos, é assim hoje (duas observações directas, como aluno e como pai).

    @M Miranda: totalmente de acordo. Não deve ser garantido emprego público quando não há emprego privado. Mas vou mais longe, não deve ser por causa do emprego que se deve fechar a formação que alguns queiram ter, mesmo sabendo que não vão ter emprego mais tarde. Nem sempre o desempenho profissional corresponde à formação de base (basta pensar no enorme número de engenheiros que acaba a exercer funções de gestão; ou de formados em filosofia que abrem a sua própria empresa). Mas há caminhos mais fáceis de fazer num sentido do que noutro, é mais fácil um engenheiro tornar-se gestor do que o contrário, pois há conhecimentos que devem ser aprendidos e que a maneira mais eficiente é fazê-lo numa licenciatura.

    @Pedro (Pinheiro) – o dar o título de cliente ao post, e ir à volta disso, foi precisamente para provocar o pensamento se o estrito papel de instrumento económico para a educação é só o que está em causa no ensino superior. O desafio que temos é precisamente como colocar a universidade a cumprir esse papel quando a pressão de financiamento provoca a tentação da engenharia social das formações que “têm procura” (e mesmo assim, procura de quem?), fechando cursos e com eles a diversidade de formações e visões que também são uma riqueza das sociedades. Este modo de financiamento mostra-se incapaz gerar o contexto para que estes objectivos de formação sejam alcançados, e a minha questão é se não será mesmo melhor ter uma forma de financiamento do ensino superior radicalmente diferente, podendo envolver mesmo não haver universidades públicas. Nesta altura, num plano conceptual, creio que vale a pena discutir o que se quer da universidade, em vez de ser uma linha de orçamento que o ministro das finanças procura reduzir, que o ministro da educação procura manter o melhor possível, ou às vezes procura transferir para outras áreas que considera mais relevantes. Mas antes de ter soluções, temos que conhecer os objectivos do ensino superior. Daí o título também de “o cliente”.

    Obrigado pelos vossos comentários!

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  5. Pingback: o cliente

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