Momentos económicos… e não só

Portugal e a Europa (5): Há uma Europa a longo prazo?

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Muito interessante a sessão com Anthony Beevor e Mazower, a obrigar a pensar nos movimentos das ideias a longo prazo (sobretudo Mark).  O principal tema para pensamento futuro que me ficou é como forjar uma identidade europeia que terá de algum modo também estar presente no projecto económico. Embora não tenham colocado dessa forma, pareceu-me que parte da mensagem dos dois oradores era essa, apenas o projecto económico será insuficiente no longo prazo.

Fiquei com vontade de fazer uma pequena pergunta geral, para ajudar a reflectir sobre o que significa ser europeu:

como seria se cada europeu fosse convidado a ter cidadania de dois países da União Europeia, qual seria a sua escolha?

Deixo directamente do bloco de notas, incluindo do período de discussão:

Anthony Beevor

Engenharia social produz um resultado diferente do antecipado, ou pretendido, em geral. A paz é uma questão de governação, não de unificação ou integração. O euro em vez de unificar, dividiu e com alguma amargura entre países. No projecto do euro a ideologia sobrepôs-se à realidade.

Forçar uma política pelo euro é fazer ao contrário e estava condenado a falhar. O problema central é a falta de legitimidade democrática.

Problemas do presente são o peso dos pagamentos de juros nos défices orçamentais de vários países, e também o receio de a economia alemã ser tomada como refém pelos países do Club Med.

O escrutínio pelos media coloca os políticos na defesa; os líderes surgem naturalmente da entidade económica mais forte, neste caso a Alemanha.

Será que se consegue ter uma associação de países e unidade sem ter uma língua comum a todo o espaço envolvido?

Mark Mazower

A europa está como uma jangada numa corrente de ideias, pelo menos nos últimos 200 anos. O início pode ser colocado na era napoleónica, com uma nova utilização da noção de europa. A europa como ideal de civilização para o mundo, deixando de ser apenas entidade geográfica. A europa como problema de paz e como ter paz entre as nações.

Duas ideias estiveram presentes: grupo de países que se junta para manter a paz, gerir a estabilidade; em alternativa, manter a paz pelas acções do povo, sendo que este último é uma entidade difícil de definir. Uma outra ideia foi sendo aplicada: comércio livre como forma de gerir estabilidade entre países. Também surgiram durante este período ideias como substituir políticos por cientistas (engenheiros, por exemplo). Na linha da segunda ideia, teve-se os trabalhadores do mundo – o socialismo como forma de garantir a paz.

Uma quarta ideia: a democracia. As democracias irão viver em paz umas com as outras.

Depois de um mundo centrado na Europa, os Estados Unidos e a União Soviética continuaram esta linha de ideias. A segunda guerra mundial foi o fechar deste ciclo. Foi também uma luta de ideias da europa – a Alemanha como entidade unificadora, modelo de organização do mundo.

Esta é a fonte das ideias que observamos na discussão pública sobre a evolução europeia. Estas ideias deram origem a crescimento económico e à reimplantação da democracia na europa de forma generalizada. Afastou o receio de uma nova guerra na europa.

Depois de 1989, volta-se a alterar a visão da europa e da integração europeia. A europa como centro do mundo deixou de existir. Nova versão da integração – como única forma de fazer da europa de novo um parceiro central da política internacional. Europa como meio entre a China e os Estados Unidos. Europa como forma de ter liberdade e desenvolvimento.

Outra posição:  o estado nação não era resposta geoestratégica a países como a China ou os Estados Unidos.

Implicações para a crise: integração teve um papel de salvar as democracias, por terem um menor papel em termos económicos;  a integração do euro oferecia uma apólice de seguro de paz e democracia. A crise alterou essa percepção. A europa deixou de ser associada com paz, desenvolvimento e democracia. Exemplo é o crescimento do partido nazi na Grécia e o associar dos partidos da democracia à crise. É uma crise para a identidade europeia. Tem a virtude de acabar com a ideia de que a Europa é um modelo para o mundo.

Parece que a união monetária gerou os problemas do projecto europeu, e que a sua separação seria uma forma de recuperar a ideia da europa como paz, desenvolvimento e democracia. É a extrema liquidez dos fluxos de capital que introduz grandes dificuldades na política económica, e esta é uma decisão política.

Os políticos dos anos 50-70 do século passado viveram numa guerra, dando-lhes a percepção da importância de uma visão de longo prazo.

A crise mostrou o pouco que conhecemos do resto da europa, o que tem efeitos devastadores sobre as questões da solidariedade. Queremos o impossível dos alemães, mas vão ter que se ajustar à sua nova posição de poder, e não poderá ser uma posição de apenas defender uma política de poupança, para depois de comprar um carro alemão.

beevor mazo

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Autor: Pedro Pita Barros

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa

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