Momentos económicos… e não só

o que diz a Comissão Europeia sobre a saúde na 10ª revisão…

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O relatório da Comissão Europeia saído há dias, no que diz directamente respeito à saúde, tem algumas novidades, discretas mas mesmo assim novidades face ao que estava na versão do Memorando de Entendimento da 8ª e 9ª avaliações. O facto de ser publicada agora, Fevereiro, a avaliação realizada em Dezembro, faz com que algumas medidas que deviam ser analisadas no final do ano de 2013 ainda não o estejam neste relatório (serão com certeza objecto de atenção na revisão que está neste momento em curso).

Como tem sido regular, houve medidas que saíram do Memorando, por estarem finalizadas (de uma forma ou de outras), e há também medidas adicionais que não estavam presentes na versão anterior.

A primeira das novidades é a extensão para 2014 do objectivo de conter a despesa pública com medicamentos num texto de 1% do PIB. Suponho que esse valor percentual continue a ter como referência o valor do PIB antes da intervenção, e que tem servido de base às referências dos anos anteriores. Como o valor do PIB nominal ainda não recuperou para valores de antes da crise (quer a taxa de crescimento real da economia quer a taxa de inflação têm sido baixas), mantém-se assim o mesmo objectivo de 2013. O objectivo de 2013 foi atingido com base em acordo de payback  e não por dinâmica natural de mercado. Isto é, a evolução da despesa pública em medicamentos foi crescente no mercado hospitalar e globalmente decrescente durante o ano no mercado em ambulatório. Mantendo-se a distinção entre os dois mercados no objectivo final de despesa pública, será sobretudo no mercado hospitalar que se deverá fazer sentir a pressão para redução da despesa efectiva (para que de futuro seja a dinâmica de mercado a garantir estes objectivos, e não acordos de devolução de despesa). A resolução desta pressão pode ser feita por via da quantidade – melhor utilização do medicamento em ambiente hospitalar – ou/e por via do preço – redução dos preços dos medicamentos. A redução da quantidade idealmente deveria decorrer no menor número de doentes, e também de uma utilização adequada do medicamento (definição da melhor prática de prescrição), embora tanto uma como outra sejam difíceis de alcançar.

Mantém-se o objectivo de receita das taxas moderadoras até final de 2013.

Para a ADSE e subsistemas militares, é referido o aumento da contribuição dos beneficiários para 3,5%, assinalando-se que é uma forma de acelerar para o auto-financiamento. Na verdade, vai gerar um excedente que reverte a favor do Estado, em termos formais, pois a contribuição do “empregador” não se altera.

Nos aspectos relacionados com prescrição, monitorização da prescrição e orientações, não há alteração substancial, apenas o refrasear da aplicação das regras de prescrição do SNS a todos os subsistemas públicos. Creio que haveria vantagem em existir um relatório público sobre as auditorias realizadas às normas de orientação clínica, não num sentido de punição, mas num sentido de evidência dos desvios existentes e das implicações que tal acarreta. Os desvios também pode ser no sentido de tratar a mais, como no de tratar a menos. Ambos têm custos para a sociedade, embora de natureza diferente.

No campo das compras centralizadas, a novidade é a indicação de constituição de um observatório de preços e aquisições. Isto levanta o aspecto interessante de saber qual o grau de transparência de preços que se pretende ter no que fizer esse observatório e qual a implicação para o comportamento dos agentes económicos nas suas ofertas de serviços e preços ao Serviço Nacional de Saúde.

Surge também aqui a indicação de ser necessário trabalhar na aplicação de orientações de melhor prática para reduzir variações de prática clínica e assegurar que se segue a melhor prática. Este aspecto não sendo de natureza administrativa, pois implica alterar comportamentos na prescrição, não será fácil de garantir o “enforce the implementation” que surge no Memorando. Apesar de tudo é uma mudança para um conceito de mais longo prazo, pois desejavelmente deveria levar à criação dos mecanismos e da cultura que adaptem as decisões à melhor prática e a uma revisão regular do que é essa melhor prática. Ou seja, o que outros têm designado como processo de melhoria contínua da qualidade.

No campo dos cuidados de saúde primários, não há qualquer alteração face ao que estava escrito na anterior versão do Memorando de Entendimento.

Relativamente aos serviços hospitalares, não há também novidades, apenas um resvalar da apresentação dos planos estratégicos dos hospitais do último trimestre de 2013 (como estava na 8&9ª avaliações) para o primeiro trimestre de 2014, o que provavelmente também fará deslocar o objectivo de ter os contratos programa assinados até final do primeiro trimestre de 2014 para mais tarde, pois será desejável que os contratos programa tenham ligação ao que for estabelecido no plano estratégico (até para dar credibilidade a este último como instrumento).

Globalmente, as novidades são repetir para 2014 os objectivos de 2013 com despesa pública em medicamentos, criar um observatório de preços e aquisições e dar maior atenção explícita à redução das variações de prática clínica para levar à utilização da melhor prática. Tudo o resto mantém o rumo, e muitas das medidas com o estatuto de [ongoing], isto é, em curso e aparentemente bem.

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Autor: Pedro Pita Barros

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa

One thought on “o que diz a Comissão Europeia sobre a saúde na 10ª revisão…

  1. Da imprensa de hoje:

    Indústria farmacêutica sem espaço para novas descidas de preços
    EMPRESAS FARMACÊUTICAS APRESENTAM ALTERNATIVAS A CORTES NO PREÇO DOS MEDICAMENTOS

    As principais empresas farmacêuticas a atuar em Portugal estão disponíveis para um novo acordo com o Governo português no sentido de reduzir os gastos do Sistema Nacional de Saúde. No entanto, em vez de mais cortes nos preços, as farmacêuticas optam por apresentar alternativas. “Em Portugal os preços dos medicamentos inovadores estão entre os mais baixos da Europa. Não há espaço nem justificação para novas descidas de preços”, diz António Portela, da Bial. Nelson Ambrogio, diretor geral da Bayer, lembra que a indústria farmacêutica é um setor estratégico para a economia, geradora de emprego qualificado, além de ser um dos sectores que mais exporta e que traz investimento em investigação e desenvolvimento para Portugal. No entanto, e face à degradação de toda a cadeia do medicamento sugere a promoção de políticas que visem o crescimento da economia e a atração de mais investimento. Já Ana Torres, da Pfizer Portugal, defende que o esforço de poupança no sector não deve apenas incidir se nos medicamentos mas sim distribuir-se estratégica e equitativamente por elementos da despesa em saúde focando se em áreas onde consideráveis ganhos de eficiência estão por explorar. Cristina Campos, presidente do Grupo Novartis Portugal, que lembra que o programa de ajustamento previa 1,7 mil milhões de euros de corte na saúde até 2014, e que até 2013 quase metade desse ajustamento foi feito na área do medicamento, afirma não ter dúvidas de que “a colaboração entre governos associações de doentes, profissionais de saúde e de investigação é essencial para atingir o objetivo de assegurar a produtividade e a sustentabilidade do SNS”. Para tal, defende, é preciso “estabilidade governativa, transparência, colaboração e acessibilidade à inovação”. Todas as farmacêuticas referiram os tempos difíceis que a indústria vive, registando quedas significativas nas vendas em ambulatório. António Portela fala mesmo numa quebra acumulada de mais de 550 milhões de euros nos últimos três anos relativos à execução do memorando da Troika, “o que representa cerca de 23% do mercado existente em 2010. Tendo em conta a despesa pública com os medicamentos, “a queda atinge os 580 milhões de euros ou seja 35%” diz. (Diário Económico)

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