Momentos económicos… e não só


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sobre a utilização de cuidados de saúde (7), 2012 vs 2014

Pergunta de interesse é saber se ao ano de 2014 corresponde um estado de saúde das pessoas consideravelmente pior do que no ano de 2012.

Uma forma simples de avaliar o estado de saúde auto-percepcionado é através do questionário EQ5D (os valores para calcular este indicador podem ser encontrados aqui). Este indicador baseia-se nas respostas a um conjunto de perguntas simples, em que cada desvio à situação de saúde perfeita tem uma penalização.

Ora, para este indicador, as diferenças entre os dois períodos não são e a hipótese de ter igual indicador na amostra de 2012 e na amostra de 2014 não é rejeitada. Os valore do indicador EQ5D são de .8663762 em 2012 e de .8601565 em 2014, sendo estatisticamente indistintos.

Tal como todos os outros aspectos, também este é obviamente condicional aos dados recolhidos que não são muito provavelmente representativos de populações mais vulneráveis. Mesmo com essa cautela metodológica, e dado que há um aspecto de stress (ansiedade/angústia) geral, seria natural ter algum efeito sistemático de mais dois anos de crise.

A comparação feita usando emparelhamento (matching estimators) não dá qualquer diferença, mesmo quando se faz a comparação dimensão a dimensão do indicador EQ5D.

 

* nota: a partir daqui a análise técnica serve apenas para suportar o que está dito anteriormente *

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ainda as dívidas públicas na saúde (2)

No início do mês (aqui) expressei a minha preocupação com o aumento em Janeiro de 2014 da dívida porque parecia retomar uma tendência passada. Com o valor de Fevereiro de 2014 publicado a 25 de Março pela Direcção-Geral do Orçamento, reforça-se a ideia de não ter existido uma alteração de tendência de crescimento da dívida do último ano.

Estatisticamente a tendência fora dos momentos de regularização dos últimos dois anos tem sido sempre a mesma. Ainda assim, mesmo que a hipótese de igualdade de tendência sobreviva, em termos de dinâmica parece fazer sentido contemplar um ritmo antes de 2013 e outro depois.

Calculando esses valores médios de acréscimo, o acréscimo absoluto de dívida em Janeiro e Fevereiro de 2014 não traduz qualquer abrandamento face a que sucedeu em 2013 fora do período de regularização de dívida, e esse ritmo é em média 34M€ por mês, ou seja, cerca de 400 euros por ano, o que sendo mais baixo do que pareceu ser o ritmo antes de 2011 (500M€ ao ano, numa estimativa simples), e mais baixo do que o ritmo mensal dos primeiros meses de 2012 (cerca de 80M€/mês), é ainda susceptível de criar problemas sérios à sustentabilidade financeira do SNS.

Segue o gráfico da minha preocupação, tendo logo depois a regressão realizada; em 23 de Abril de 2014, será adicionado o valor de 2014 a ver se se mantém a tendência.

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Sobre a utilização de cuidados de saúde, 2012 vs 2014 (6)

Um aspecto que se suspeita ter ganho importância nos tempos mais recentes é a preocupação com eventuais repercussões no local de trabalho de faltar para ir a serviços de saúde. Apesar dos pequenos números, essa é também  tendência verificada nesta experiência, com uma diferença grande entre os dados de 2012 e 2014. Estas diferenças entre os dois anos não são justificadas por características dos entrevistados, pois em termos de regularidade sistemática encontra-se apenas a natural de pessoas com mais idade indicarem mais frequentemente que não trabalham.

Assim, este efeito associado com o que se passa no local de trabalho aparenta ter ganho importância desde 2012. A procurar-se confirmação em estudos mais aprofundados.

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Sobre a utilização de cuidados de saúde, 2012 vs 2014 (5)

Continuando com a análise da amostra de conveniência e informal gerada,

A utilização dos serviços de urgência é um dos aspectos que recorrentemente recebe atenção em Portugal, falando-se frequentemente na excessiva utilização das urgências, em casos clínicos que deveriam ser resolvidos nos cuidados de saúde primários.

É por isso relevante saber como evoluiram os motivos para a utilização dos serviços de urgência entre 2012 e 2014. A questão dos horários surge em primeiro lugar (indicado por 35% das pessoas que responderam a esta questão em 2014) e em segundo lugar a expectativa de melhor tratamento nos serviços de urgência (28%). A proximidade geográfica surge apenas em 3% lugar. Curioso é elevado número de outras razões, não especificadas, para recurso à urgência.

 

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Numa análise estatística (multinomial logit), o ano de 2014 está associado com maior utilização de urgências por motivo de proximidade, e por indisponibilidade do centro de saúde/USF, embora não sejam efeitos muito fortes, face ao ponto de comparação (“outra razão” para ir à urgência).

 

A maior dificuldade de acesso a cuidados de saúde primários, associada com as respostas “o centro de saúde/USF já fechou” e “não tem médico de família”, aumentou o seu peso nas respostas. Este é um aspecto que tem de ser melhor conhecido, e que a confirmar-se numa amostra maior e mais representativa poderá requerer.

 


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Adolfo Suarez

A noticia, já anunciada há dias, chegou hoje. Muito se vai escrever sobre a acção política de Adolfo Suarez. Não sou especialista em política de Espanha, mas retenho desde há muito a imagem de um homem sentado a resistir a uma tentativa de golpe de estado nas Cortes por parte de um tenente-coronel chamado Tejero Molina (e em pé, o vice-presidente do Governo, senão me engano).

Screen Shot 2014-03-21 at 23.42.16 A reportagem breve está aqui, o atentar ao minuto 1:31 – http://www.rtve.es/alacarta/videos/fue-noticia-en-el-archivo-de-rtve/asalto-tejero-congreso-23-1981/392929/

Fica sobretudo a imagem de um homem que ajudou um país no trânsito para a liberdade, o que não é coisa pequena.


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Sobre a utilização de cuidados de saúde, 2012 vs 2014 (4)

Passados os comentários ao manifesto dos 70, regresso à utilização dos cuidados de saúde, em concreto para constatar que entre 2012 e 2014 não há grande diferença no que se refere às escolhas efectivas de prestador.

O conhecimento do número de vezes que se recorreu aos serviços de saúde deu pistas sobre o estado de saúde da população, que não apresentou uma evolução que justificasse um acréscimo de utilização, tal como as questões anteriores permitiram ter uma noção de como evoluiu o conhecimento dos cidadãos sobre o sistema de saúde. Averiguando agora o que fizeram as pessoas na última vez que recorreram a serviços de saúde, tem-se a situação descrita no quadro seguinte.


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Relacionando com a caracterização dos respondentes, verifica-se que o ano de resposta, ser 2012 ou 2014, não traz qualquer diferença. Nos restantes efeitos, sem grande surpresa, quem tem seguro, além do SNS, tem maior probabilidade de escolher ir ao médico privado e à urgência hospitalar; quem tem subsistema público utiliza relativamente mais médicos privados, mas não tem uma diferença visível na maior utilização das urgências hospitalares. Estes efeitos são os que seria de esperar, não trazendo aspectos inesperados. A parte não esperada está na ausência de qualquer efeito sistemático associado com o nível de educação, que noutros contextos se tem mostrado um importante factor associado com a utilização de cuidados de saúde. Também a idade e usufruir de um sistema de saúde privado estão ausentes destes factores associados com as escolhas por falta de regularidade (significância estatística), o que é em si mesmo algo inesperado.
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ainda o manifesto sobre a dívida pública, e como a discussão económica não teve lugar

como se podia antecipar, a discussão à volta do manifesto (dos 70, que afinal são 74 +1)  ficou-se muito pela batalha política, e pela falta de comparência de argumentos técnicos devidamente justificados, de um lado e de outro.

Pagar menos ou pagar em mais em tempo, tudo o resto constante, é naturalmente preferível. Daí que as diferenças de opinião sobre os efeitos de re-estruturação de dívida, com ou sem perdão formal, tenham que ser analisadas sobre que parte do “tudo o resto constante” é que não se verifica. E se consegui perceber o que está por detrás de cada lado, há sobretudo convicções mas não a apresentação de evidência que faça acreditar por um ou por outro lado. Vejamos:

a) menos juros hoje permitirão mais crescimento que tornarão mais fácil pagar os juros amanhã – pressupõe que haverá a capacidade de realizar investimento produtivo suficiente, mas desconhece-se se o nexo causal é por menores juros permitirem menor tributação que deixará maior rendimento na economia, em que parte será aplicada em poupança (e logo canalizada para financiar) e parte será aplicada em consumo, consumo esse que terá uma parte de bens nacionais e outra parte de bens importados; o primeiro aumento aumenta a actividade doméstica, o segundo aumento dinamiza as economias de onde importamos; mas menos juros hoje significa que alguém estará a receber menos, se for reduções de juros em dívida detida por agentes externos à economia, então não se sentirá efeito directo interno, mas se houver dívida afectada que está em mãos de agentes económicos nacionais (por exemplo, bancos e aforradores privados), então corresponde a uma redução dentro da economia, que terá também efeitos; suponhamos o caso extremo de se baixar a taxa de juro nos certificados de aforro, apenas como exemplo, neste caso o rendimento das famílias baixa, e se as famílias quiserem ter um certo nível de poupança para um futuro incerto poderão até reduzir um pouco o consumo para repor o rendimento de poupança (o efeito final depende de vários factores, e dependendo do que forem as preferências das famílias, o consumo pode aumentar por reduzir-se o interesse na poupança – a ambiguidade económica sobre este efeito obriga a que seja medido antes de tirarem conclusões). Mas também se pode dar o caso de a dívida estar toda em bancos (outra situação extrema), que veriam a sua situação financeira alterada, e para manter a estabilidade do sistema financeiro poderia ter que haver mais entrada de dinheiros públicos nos bancos (nacionalização, no limite), o que dificilmente parece estar na mente de quem apresenta este argumento. Ou seja, há toda uma cadeia de efeitos que tem de ser explicitada e valorizada (nem que seja para dizer que não será um efeito quantitativamente relevante, ou que será o efeito mais importante).

b) uma restruturação hoje teria o efeito calamitoso de fechar as portas dos mercados internacionais à dívida – este argumento tem por detrás uma antecipação do que possam ser as expectativas e depois as decisões de agentes externos quanto a tomarem futura dívida portuguesa. Uma vez mais temos muitas hipóteses, e nenhuma delas realmente baseada em evidência que tenha sido trazida. Em particular, se o receio está nas decisões de tomada de dívida nacional, que evidência temos dos efeitos permanentes de eventos sobre colocação da dívida? é que esperando que esses investidores sejam cautelosos, prudentes e analisem a situação em cada momento, o que estará sempre em causa numa emissão de dívida é a capacidade a prazo da economia produzir receitas públicas suficientes para que o estado pague a dívida que contrair (note-se que mesmo quando temos dívida renovada, há que pagar uma e contrair outra, o que significa que mesmo que haja inércia no volume total de dívida, há um processo de decisão que pode ser cortado se não houver interessados em comprar nova dívida – reside aqui parte do equívoco sobre o que significa “gerir a dívida”). Os argumentos de que a mera apresentação do manifesto prejudica gravemente a imagem de Portugal é passar um atestado de menoridade aos analistas internacionais que estudam se a dívida pública portuguesa é interessante ou não. Se o manifesto tivesse o apoio do principal partido da oposição no sentido de dizer que seria a política seguida, então poderia alterar as expectativas sobre a condução da política económica portuguesa, caso depois das eleições, a oposição actual ganhasse e tivesse capacidade para aplicar essas medidas, resultando numa perda imediata para quem comprar agora dívida pública nacional; e certamente nesta avaliação é ainda descontado o efeito de nem sempre o que é prometido antes de eleições é depois cumprido. Como se vê, também aqui há muitos “se” até se estabelecer um canal de efeitos.

Como cada lado da discussão se entrincheira a dizer que tem razões que o outro lado não vê (ou dizem que o outro lado não quer ver), mas não documentam, explicitam, discutem os pressupostos das suas próprias razões, a discussão acaba por ser estéril do ponto de vista de procura de caminhos de política económica. O que é pena. A tomada de posição política e a opção deverá ser feita tendo por base um trabalho técnico que possa ser analisado e contraditado. Qualquer dos dois lados da discussão tem obrigação de apresentar esse trabalho técnico.