Momentos económicos… e não só

peritos, peanuts and monkeys

8 comentários

Tornou-se célebre a frase “if you pay peanuts you get monkeys” para representar o português “o barato sai caro” aplicado a algo que se contrata. Mas há um outro lado do “barato”. Vem esta introdução a propósito das notícias do final da semana passada relacionadas com um relatório sobre (mais) uma reforma do sistema de segurança social em Portugal. Aparentemente, um grupo de peritos nomeado pelo Governo, sem remuneração pelo trabalho desenvolvido, não terá sido realmente ouvido nem se revê num relatório (versão preliminar) invocado pelo primeiro-ministro.

Não pude deixar de pensar que o aspecto “sem remuneração” terá contribuído para esta situação. Não necessariamente por falta de empenho ou falta de trabalho do dito grupo. Só que quem solicitou a reflexão (relatório? trabalho?) como nada paga, pouca consideração acabará por ter. Afinal não custou nada, e se não gostar pode sempre nomear outra comissão, que a título gracioso apresentará nova reflexão.

A existência de pagamento tem um efeito disciplinador sobre quem trabalha, mas também tem um efeito responsabilizador sobre quem paga. Se paga, os resultados que obtém têm que ser úteis para justificar. Tem sido comum e recorrente dizer-se que o Estado português gasta demasiado em consultorias. Provavelmente é verdade, mas passar a ter consultorias a titulo gracioso não é igualmente solução.

Mais interessante seria que quem solicita relatórios, reflexões, estudos, a título gracioso, os tenha que realmente pagar, a preços “de mercado”, com toda a transparência, isto é, divulgação sobre quem faz, quanto recebe e divulgação pública dos relatórios produzidos. E que se quem faz por qualquer razão não pode ou não pretende receber, o respectivo montante seja direccionado para algum outro fim, fora da esfera de decisão de quem encomenda. Ou seja, quem pretende ouvir ou usar o conhecimento de outros, paga por isso, mesmo quem receba seja outro organismo público (ou até uma entidade sem fins lucrativos indicada por quem realizar o trabalho).

Tomemos o caso do relatório sobre a segurança social, do qual se demarcaram vários dos peritos que supostamente foram convidados a apresentar propostas. Caso os ministros envolvidos tivessem pago, digamos, 200,000 euros dos orçamentos dos seus gabinetes para o trabalho desses peritos, é possível que tivessem dado mais atenção ao grupo constituído (ou se o consideravam inútil, nem o formarem). E se 200,000 euros for pouco, suba-se o valor. Mas ter que justificar essa despesa implicaria responsabilização de quem toma a decisão, e logo o interesse nos resultados produzidos. E mostraria também respeito pelo tempo e conhecimento de quem aceitou fazer esse trabalho.

Quanto algo é obtido gratuitamente, tende a ser menosprezado por quem o recebe. Mais do que os palavras, falam as decisões e acções. Visto de fora, esta “trapalhada” sobre as medidas da segurança social tem como fonte, pelo menos em parte,  este aspecto de solicitar trabalho sem remuneração, depois desvalorizado, mesmo que inconscientemente, por parte de quem o pediu.

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Autor: Pedro Pita Barros

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa

8 thoughts on “peritos, peanuts and monkeys

  1. Neste momento, sobre este grupo da integração de cuidados, apenas posso dizer que ainda não li, mas fiz download, segue para leitura nos próximos dias (semana?). Mas pelo menos o relatório está a discussão pública, o que é salutar, pois permite discussão e contribuições.

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  2. Por falar em trabalho não remunerado, deixo aqui outro assunto bastante polémico: Estágios profissionais ao abrigo do IEFP.

    Gostaria de saber a sua opinião relativamente a esta medida de “estimulo” ao emprego. Isto tendo em conta que não existem limites ao n.º de renovações de estágios que uma empresa pode realizar. Isto é, no final dos 12 meses de estágio, o estagiário sai da empresa podendo entrar logo outro para a mesma função.

    Existem actualmente vários setores que abusam desta medida, sem que nada seja feito/monitorizado. Temos como exemplo o sector das farmácias (é registar a quantidade de anúncios disponíveis no site net-empregos.com), os hospitais do SNS (para “contratar” vários profissionais de saúde, ex.: fisioterapeutas, técnicos de cardiopneumologia, farmacêuticos, técnicos de farmácia, técnicos de análises clínicas, etc.), entre outros sectores de atividade.

    – Sabendo que a empresa apenas paga uma pequena parte do que é “remunerado” ao estagiário, sendo a restante parte financiada por todos nós contribuintes…;

    – Sabendo que em muitos casos é critério de seleção ter experiência para o cargo profissional para poder usufruir desta medida de estágio profissional…;

    – Sabendo que existem actualmente profissionais contratados que estão a ser despedidos para dar lugar a estes estágio profissionais…;

    – Sabendo que o valor ganho nos estágios profissionais, bem como o período de trabalho não conta para fins de Pensão de Reforma…;

    – Sabendo que atualmente o Governo não publica o n.º de estagiários/renovações de lugares de estágio que cada empresa usufrui…;

    – Sabendo que os estagiários não contam como “desempregados” para a estatística…;

    Gostaria de saber a sua opinião relativamente a esta medida.

    Legislação actual: Portaria n.º 204-B/2013, de 18 de junho

    Cumprimentos.

    Jorge Rodrigues

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  3. Apenas para acrescentar que nos Hospitais E.P.E. as medidas estágio emprego através do IEFP são financiadas a 100% (sem qualquer despesa para o Hospital). Para as empresas privadas a medida financia 80% da remuneração. http://www.iefp.pt/apoios/candidatos/Documents/Estagios_Emprego/Regulamento_Estagios_Emprego_Estagios_Inser%C3%A7%C3%A3o.pdf

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  4. Alguns exemplos de “contratações” de profissionais de saúde por Hospitais EPE através de medidas estágio IEFP:
    http://www.net-empregos.com/1891631/tecnico-de-audiologia-m-f/
    http://www.net-empregos.com/1787749/tecnico-de-farmacia-m-f/
    http://www.net-empregos.com/1787703/tecnico-de-cardiopneumologia-m-f/

    Isto fora as instituições que não chegam a publicitar as vagas.

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  5. Pedro
    Mil razões assistem à tua análise do tema.Concordo.
    Mas, “como não há almoços grátis”, a tomada de decisão continua a jantar sózinha com peritos que trazem sobremesas précozinhadas.O que não se percebe, com tema de tão exigente sobrevivência pela frente, em que o alimento deveria ser, como em qualquer País em que estes temas têm monitorização permanente por parte de Técnicos do Estado e Universitários prestigiados, e não apenas, de vez em quando, um estudo pro bono, um alimento equilibrado e saudável em permanência, apesar de novas patologias sempre aparecerem de surpresa.
    Pergunto-me sempre se, nos meandros da politica em sentido estrito este tipo de actuações não é já um direito revolucionário adquirido.
    🙂

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  6. Peritos, peanuts and monkeys… é uma frase que respeita em absoluto o pensamento moderno de uma “gestão de mercearia”.

    Caríssimo Pedro, retomando a ideia inicial lançada, concordo a 100 p.c. com o descritivo do tópico. Mudando um pouco a agulha.
    Tomemos o caso da Saúde comparativamente a trabalhos recentemente realizados.

    Inicialmente os peritos aparecem para entender melhor de que se trata. Demarcam-se logo a seguir mesmo que se formalize (e não supostamente) o facto de terem sido convidados a apresentar propostas. Procura-se apoio junto do ministério e entidades envolvidas. Em vão.

    Como esses trabalhos, estudos, não têm justificação legal, nem se têm de autorizar orçamentos de equipas, gabinetes, organismos para desenvolver o trabalho desses peritos, ninguém presta muita atenção ao grupo constituído.

    Se o interesse nos resultados produzidos é reduzido, o que dizer também relativamente ao desrespeito pelo tempo e conhecimento de quem aceitou fazer esse trabalho. Mais. Lançam-se críticas relativas a algo que foi lançado “fora de tempo”!

    Caríssimo Pedro, é exatamente este o ponto. Vou citar: “Quanto algo é obtido gratuitamente, tende a ser menosprezado por quem o recebe. Mais do que os palavras, falam as decisões e ações”.

    A escassíssima participação cívica em Portugal já era conhecida. Temos agora uma nova ordem ideológica: a ignorância dos peritos.

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  7. @Jorge Rodrigues, tenho em geral grande cepticismo quanto às medidas de estímulo ao emprego, pois tendem a aumentar apenas as situações de rotatividade, como aliás muito bem aponta e exemplifica. Uma ideia que noutra altura já apresentei consiste em o “estímulo” à contratação depender do sucesso de colocação profissional futura de quem for contratado por uma empresa – ainda que numa forma mitigada, fazer com que a empresa tenha interesse em aumentar a capacidade de obter emprego, na sua ou noutra empresa, de quem é contratado ao abrigo destes programas e não ser apenas uma forma de subsidiar as empresas.

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