Momentos económicos… e não só

BES e economia de mercado

17 comentários

Estando de férias, tenho procurado não estar actualizado quanto ao caso BES. Mas acaba por ser impossível, pelas notícias que vão surgindo e pelas perguntas e anseios que se encontram um pouco por todo lado (amigos, familiares, desconhecidos na bomba de gasolina,…).

Diversos comentários têm incidido sobre o que significa o caso BES para a “superioridade” da gestão privada versus a gestão pública; ou em versões mais suaves sobre a relevância para a sustentar a privatização ou não da Caixa Geral de Depósitos.

Como ponto de partida, a gestão privada sempre fez erros; aliás, todos os dias há empresas que fecham por erros de decisão dos seus gestores. São é pequenas demais para chamar a atenção. Tal como muitas vezes o que se chama de sucesso de gestão privada é acaso da sorte. O que faz diferente o caso do BES é a dimensão do grupo, e a série de decisões (fraudes?) que foram tomadas.

Interessa-me aqui discutir não o que correu mal no grupo ou na supervisão (fica para os próximos dias), e sim como encaixar este caso no funcionamento de economia de mercado.

Sabendo-se que todos os dias há gestores e donos de empresas que cometem erros na condução dos seus negócios, como é que o funcionamento de uma economia de mercado os resolve? bom, deixa que essas empresas desapareçam do mercado; por vezes, tão rapidamente como surgiram. Outras  vezes desaparecem porque não acompanharam os anseios e desejos dos consumidores. A Maconde desapareceu, mas a Zara floresceu.

No caso do BES e do grupo Espirito Santo, o que sucede neste momento é poder haver receio (?) de que seja grande demais para desaparecer. Esse sentimento, de ser grande demais, elimina o “medo de desaparecer” como disciplina para a boa gestão. Aliás, não ter o “medo de desaparecer” é o que faz a gestão pública ter também problemas em muitas decisões. “Desaparecer” significa, no contexto de economia de mercado, que os donos – accionistas no caso de sociedades anónimas – tenham que suportar os custos das más decisões tomadas pelos gestores das empresas (que podem ser eles próprios, ou contratados), sem que isso signifique que as actividades realizadas deixem de ser feitas, ou que os activos produtivos (físicos, humanos e organizacionais) tenham que ser destruídos. A falência do grupo Espirito Santo não constitui uma prova de falhanço da gestão privada face à gestão pública, mas a forma como essa falência é tratada constitui um teste ao funcionamento de uma economia de mercado como a portuguesa.

Aplicando estes princípios ao caso BES e grupo Espírito Santo, a solução de economia de mercado é claramente a falência do grupo, com perdas a serem suportadas pelos accionistas, e com a rápida venda de todos os activos produtivos. Significa que a marca BES pode desaparecer? sim, claro. Basta que outro banco ou entidade compre o banco e lhe mude a designação (por integração  noutra estrutura já existente ou por redenominação). O mesmo sucederá com outras empresas do grupo (empresas que vão do turismo à saúde), sem que isso implique o encerramento dessas empresas. São claramente oportunidades de crescimento por aquisição  (e que vão igualmente exigir atenção da Autoridade da Concorrência, mas isso é num momento mais à frente, para evitar eventual aumento de concentração e poder de mercado).  Os clientes destas empresas do universo Espirito Santo não necessitam de ser afectados de forma substancial, desde que todo o processo seja célere, e não se procure formas artificiais de manter o grupo e o BES como estavam.

Centrando no banco, significa que o mesmo deverá ou receber novos accionistas (ou reforço dos actuais, o que não parece verosímil nesta altura)  ou ser vendido tão rápido quanto possível. Deve-se evitar a nacionalização (ou a sua compra pela Caixa Geral de Depósitos, não vá alguém ainda lembrar-se disso). Conseguir fazê-lo sem qualquer implicação para os contribuintes seria um sinal de maioridade da economia portuguesa e dos seus mecanismos de funcionamento enquanto economia de mercado.

Qualquer que seja a solução encontrada para o BES, será quase inevitável que venham a surgir alterações na forma como o banco se encontra organizado, e o encerramento de balcões e mudanças internas, incluindo saídas de pessoal, virá a estar no horizonte. E daí virá alguma pressão social, que terá de ser antecipada e minorados os custos de transição para as pessoas afectadas (mas não através de sustentação artificial de postos de trabalho).

As notícias que têm saído sobre o que são as intenções das autoridades económicas apontam no sentido de ser o normal funcionamento da economia a resolver esta situação. A penalização dos accionistas deverá ser clara. A manutenção produtiva dos activos do banco deverá ser assegurada, mesmo com mudança de accionistas. É bom que assim seja, pois de outro modo todos os grandes grupos económicos portugueses (e bancos) podem começar a sentir que também são demasiado grandes para falirem…

(actualizado a 3 de Agosto 2014)

Para discussão nos próximos dias: BES e regulação, BES e grupos familiares,… (sobretudo se continuar um Verão frio e ventoso)

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Autor: Pedro Pita Barros

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa

17 thoughts on “BES e economia de mercado

  1. Bom dia Pedro, 🙂 Interessante como sempre. Mas um banco não é uma fábrica têxtil. Pelas participações que outros agentes económicos têm no BES (quer em termos de acções quer em termos de papel comercial) … já para não falar da possibilidade de algum risco sistémico (ouvi dizer que o BES está em cerca de um terço da economia portuguesa – depósitos, crédito, etc) as ondas de choque de perdas totais para os accionistas/obrigacionistas podem levar a economia portuguesa novamente à recessão, quanto mais não seja pelo efeito de riqueza associada à destruição da capitalização bolsista (PSI20) que vimos nas últimas semanas. Por isso, parece-me que a situação é mais grave do que explanas. Por outro lado, as situações de risco moral têm de ser acauteladas. No fim, acho que tudo se resume a quão credível será a declaração: “não negociamos com terrorristas, nunca!”. Os empréstimos que o Estado fez ao BCP, BPI etc foram até bastante rentáveis para o erário público. O importante é que o BES se torne num caso de sucesso (relativo) como estes e não noutro BPN.

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  2. Olá Pedro,
    compreendo o teu argumento, mas no sentido em que se pode penalizar accionistas e mudar a gestão/propriedade em interrupção de actividade do banco, creio que os mesmos mecanismos de “saída” da actividade económica têm que funcionar também no sector bancário. Sobre o risco sistémico, fico sempre com a sensação que é muito frequentemente usado por estas entidades para se arrogarem ao título de “too big to fail”, o quem em “iraquês de há uma década” significa a “mãe de todos os problemas”.

    No caso BPN alinhei com a ideia de dominó e risco sistémico na altura; com a informação posterior, senti uma sobrevalorização desse risco sistémico.

    Qual a importância destas distinções? se formos pelo receio do risco sistémico, a tentação será a de nacionalizar para recuperar o banco, injectando fundos, colocando a Caixa Geral de Depósitos num qualquer papel, etc…
    Se formos pelo funcionamento da economia da mercado, venda-se o BES já a uma outra entidade privada, nacional ou estrangeira, e faça-se os accionistas suportar as perdas (e não o contribuinte – pode parecer um pouco demagógico, mas não vejo porque os accionistas do BES – ou de qualquer das holdings do grupo Espirito Santo – devam ter tratamento diferente de qualquer empresa em igual condição, qualquer que seja a sua dimensão).

    (e agora vou para a praia a ver se não há vento e se o sol brilha 😉 )

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  3. Olá Pedro,
    Em termos muito pragmáticos, sempre achei que o BPN na altura era pequeno demais para justificar risco sistémico, mas admito que os tempos eram de maior incerteza a nível global. O meu receio é que fazer com que os accionistas sofram as perdas faz com que o mercado bolsista seja ainda mais instável à medida que liquidam posições e vendem a descoberto. Isso até poderia ser positivo (no sentido de penalizar quem devia ser penalizado) mas acontece que há spillovers para outras cotadas que apenas partilham a mesma praça. E isto tem efeitos de riqueza que terão reflexos na procura agregada. Quanto ao que o Estado deve fazer no caso BES, antes de mais sempre me pareceu que as transacções deveriam ter sido suspensas sine dia até anunciar o plano para recpaitalização. Não o fazer foi desestabilizador. Isso teria dado tempo para se apurar com maior certeza o estado de coisas. Agora, parece-me nesta história a haver fraude, antes de se apurarem os prejuízos da operação , é preciso apurar o valor de todos os bens e activos dos que cometeram as fraudes (os culpados) e depois se ainda houver prejuízos, distribui-los pelos accionistas até à perda total no limite. O que proponho não é algo de muito diferente do procedimento seguido nos EUA com esquemas de Ponzi em que quem depositou ainda consegui cêntimos em cada dólar depositado. Mas pelo menos quem cometeu o crime perdeu muito mais, e quem sendo accionista deveria ter estado mais atento perdeu relativamente menos. Em suma, o mercado funciona relativamente mal quando correm rumores e boatos e pouca informação concreta. Nesse caso, suspendam-se as transacções. O que permitiram (com vendas a descoberto) apenas beneficiou alguns especuladores nacionais e internacionais que procuraram beneficiar do sangue na água e até poderão ter contribuído para a desinformação em proveito próprio.

    PS peço desculpa por algum erro ortográfico, mas o teclado usado não é o convencional ()coisas de praia lol

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  4. Pedro: Boa anaálise a tua.Prudente… e sem pés de barro 🙂
    Entre virtudes e defeitos da gestão privada e gestão publica aqui temos mais um bom (bad) case study nacional antitese daos impactos do velho condicionamento indudtrial…
    O caso BES é mais um exemplo de “gestão à portuguesa mais mediática do que sustentada”. Os exemplos não acabam no BES… no entanto.
    E a grande questão, neste momento e pela dimensão do BES na economia portuguesa e na reputação da nossa iniciativa privada (GES) por esse mundo fora, é clarificar que não foi mais do mesmo.Mas casos de policia por excelência depois de promiscuidade nacional que também não é exclusivo mundial.
    Tudo isto é triste, tudo isto é fado mas agora há mais uma janela de oportunidade para desmistificar este debate pouco téccnico e execessivamente politizado. Olho para tudo isto como o verdadeiro pós troika para além do resto e numa dimensão geopolitica pura.
    BES já foi marca. GES já foi também, mas não se menospreze a tentacularidade da Marca familiar.
    Clarificação desta coisa e reforço das capacidades técnicas de Supervisores e de Orgãos do Estado é inevitável.Intervenção de TT (minis é claro…) para debater estes tempos de pós euro e na perspectiva do que é uma economia “abertissima” e “socialissima” em temas como educação e saúde é muito importante. Mas clarificar esta confusão Banca com o resto da Sociedade é neste momento critico.
    Mas pode ser um tema de morte para muitas das falsas expectativas criadas e modelo de gestão da confiança que não parece querer funcionar neste regime e nesta republica.
    B tem de ser uma letra de mais C e também menos T (de talentocracia malvada). 🙂
    Abraço e bons Banhos aos Barros

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  5. recebido via facebook:
    “Permito-me sugerir um tema de debate futuro. Qual a responsabilidade dos “yes men” e dos que “assobiam para o ar” na debacle de grandes empresas e grupos económicos, sobretudo quando a liderança é forte e centralizadora. Este debate poderia estender-se á influência dos interesses partidários na gestão de empresas públicas e o seu impacto nos resultados obtidos.”

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  6. Não sei porque razão os comentários do anonimo eram meus.Donde:cá estou eu 🙂

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  7. Penso que a analise do texto e leviana.. o BES nao e uma empresa qualquer, parece-me que face aos lucros recentes da CGD e pagamento do emprestimo do BPI ha caminho aberto para uma solucao à Portuguesa com a CGD lá inserida. A CGD foi englobada na solucao BPN, BPP o Estado salvou primeiro os bancos que lá tinham depositos,.. no BCP continuamos a saber da estorias a metade e a contagotas (entretanto venderam na Grecia e agora Romenia).. Deste modo esta solucao vai ser o mais abrangente possivel de modo a nao assustar depositantes e sistema bancario em Portugal. Este caso do BES devera servir para culpabilizar e responsabilizar auditoras…

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  8. Ja agora o banif agradeceu estes momentos, escolheu quem apareceu e sem ruidos.. Excelente mesmo. Como é possivel o BdP nao propor fusoes? Havera assim tanto espaço em Portugal para tanto banco, em especial Banifs Finibancos. etc… Pelos vistos anda a correr mal aos bancos que tem holdings/empresas pessoais (banif, bes, finibanco) associadas aos bancos..
    Ja agora depois da CGD vender os seus hospitais, como era o financiamento da ES Saude?

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  9. Caro Duarte, o BES não é uma empresa qualquer, mas isso não a deve excluir da disciplina de mercado, e é disso que se trata realmente. Não vejo realmente qualquer vantagem em procurar soluções que sejam alternativas a essa disciplina de mercado.

    De resto, não cabe ao Banco de Portugal criar fusões (o que até poderá ser bom para regulação prudencial mas mau em termos de poder de mercado, que se paga sempre a prazo). Auditoras: sim, têm a sua quota de responsabilidade.

    Sobre o financiamento da ES Saúde, não tenho inside information, mas tendo sido colocado em Bolsa há pouco tempo, deverá acabar por ser uma das vendas a ser feita para realizar dinheiro. Veremos o que o futuro próximo nos reserva nessa área.

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    • Como se viu nos 5 mil milhoes de euros do BdP, muita coisa vai ser salva. O povo ficou contente porque ficou com boa sensacao de responsabilizar os accionistas mas nesses 5 mil cabe muita empresa, e divida de empresas nao problematicas do universo BES. Enfim nao e uma solucao BPN mas esta proxima. O finaciamento ES Saude foi feito via BES, nao esquecer que a Rioforte e dona da ES Saude logo… vai ser vendida para pagar entre outros à PT… Haverao investidores nao Europeus a espreita. Mais uma vez CGD, vai ser parte envolvida via fundo de recuperacao.. Gostava que houvesse inibicao de actividade em Portugal da KPMG, talvez fosse um bom remedio para as que sobravam, ha muita impunidade e falta etica..

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