Momentos económicos… e não só

trocas de palavras

1 Comentário

entre o vice-Governador do Banco de Portugal e o responsável da KPMG sobre quem disse o quê e com que vigor sobre as contas do BES fizeram lembrar um livro, “O atiçador de Wittgenstein“, em que a dificuldade de reconstruir o que se passou em 10 minutos de discussão foi patente. A consequência mais recente poderá estar na reorganização de pelouros no Banco de Portugal.

Ou seja, provavelmente ambos estão certos nesta discussão – do lado do Banco do Portugal ficou a sensação de a chamada de atenção não ser suficientemente forte, do lado da KMPG ficou a sensação de ter dado a importância devida ao aviso – e como ambas são percepções, podem ser correctas enquanto tal, com ambos os lados genuinamente convencidos da sua razão.

Significa que se for necessário fazer uma avaliação de onde o aviso falhou se terá de ir além destas percepções dos intervenientes. Mas se não houve registo do que foi dito (mesmo que haja testemunhas da conversa, e não sei se foi uma conversa a dois, não é certo que se consiga reconstruir fielmente – regresso ao livro referido), ficará apenas o que de escrito se tenha feito antes e depois para suporte da reunião. Insistir no jogo de palavras e no que cada parte se lembra do que terão sido as reuniões relevantes pouco trará de clareza, e nenhum ganhará com a troca de acusações.

 

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Autor: Pedro Pita Barros

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa

One thought on “trocas de palavras

  1. Não me parece que a apreciação dos imbróglios BES e PT a partir do eu disse, tu disseste, ele disse, de alguns dos intervenientes possa conduzir-nos alguma vez ao esclarecimento, e, se em Portugal não prevalecesse a recíproca desculpabilização dos implicados, à responsabilização severa dos seus actos ou omissões.

    Tanto no caso da PT como do BES, na sequência de uma tradição perversa que inclui vários outros anteriores que a banalização faz esquecer, é impressionante a candura, a lata, com que, no fim de contas, todos afirmam que não sabiam o que se passava.
    Mas se a lata deles é de tal quilate o efeito por eles pretendido resulta se os avaliarmos pelo que dizem e não por aquilo de que são responsáveis considerando as funções que desempenhavam, e a maior parte ainda desempenha. Poderia o senhor Bava ignorar os empréstimos da PT ao GES, a maior fatia dos quais fluiu no tempo em que ele era CEO da PT? Ou os seus novos amigos da Oi, que acertaram num contrato de tamanha dimensão, ignorar a consistência dos activos do parceiro? Não podiam. Estamos perante uma mentira enorme que pretende servir os principais envolvidos e absolver os comparsas. Se a CMVM der luz verde à decisão da AG da PT do dia 8, o senhor Bava consolida no seu novo poleiro dourado os resultados da sua desfaçatez.

    No caso do BES, à tentativa de desculpabilização recíproca (p.e., o presidente da KPMG disse ao Expresso que “a auditora, o Banco de Portugal e a CMVM estão de parabéns) seguiu-se a acusação recíproca, directa ou velada (p.e. dois dias depois a KPMG afimava que o Banco de Portugal foi alertado antes do que diz). É este esgrimir simulado (porque ninguém que ficar ferido) que deve ser ignorado por quem quiser apreciar o assunto de forma consciente.

    O Banco de Portugal tem responsabilidades que, mais uma vez, não cumpriu, a KPMG fez o que costumam fazer os auditores – fechar os olhos ou, pior, nem sequer os abrir, e receber o cheque -, a CMVM não fez que devia, os administradores são culpados por acção ou conivência com Ricardo Salgado. As acusações mais ou menos veladas entre, por um lado, o Governo e o Banco de Portugal por um lado e entre o Governo e o Presidente da República, por outro, não os desvincula a todos mas é evidente que, nesta matéria, as maiores responsabilidades têm de atribuir-se ao governador Carlos Costa e, se é verdade o que dizem os jornais de hoje, e reprovar-se o que disse o primeiro-ministro por argumentar que o “se o PR não sabia mais foi porque não perguntou”. Ora, em matéria de informações do governo ao PR existe um direito do PR e uma obrigação do primeiro-ministro. Ou houve mal entendido do jornalista ou entende-se mal o que disse o primeiro-ministro.

    No fim de contas, tudo isto acontece porque a justiça continua a dormir a sono solto.

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