Momentos económicos… e não só

continua a corrida pela Espirito Santo Saúde

4 comentários

Do início do dia de hoje, a continuação da interessante luta pela Espirito Santo Saúde. Depois da saída da corrida da José de Mello Saúde, agora é a vez dos primeiros concorrentes que apareceram, o grupo Angeles do México saírem. Se no primeiro caso terá sido um caso de “secretaria”, ligado à certeza de uma decisão da Autoridade da Concorrência, no caso do grupo mexicano terá sido meramente uma questão de preço, depois da proposta de preço da Fidelidade (de base chinesa). Entretanto, entra na corrida a United Health, o que para mim não deixou de ser uma surpresa. Toda a actuação do grupo Amil (brasileiro de raiz mas adquirido pela UnitedHealth) dos últimos tempos tinha sido discreta e sem indicação de uma estratégia de crescimento. Claro que oportunidades destas são diferentes mas mesmo assim foi surpresa, bem como a forma como tentaram uma negociação directa (a crer nas informações da comunicação social).

De qualquer modo, neste momento há dois grupos económicos com grande “almofada financeira” para fazerem subir o preço da operação. A vantagem de ambos sobre quer o grupo mexicano quer sobre a José de Mello Saúde está na capacidade financeira de fazer o investimento, pelo que dificilmente qualquer um destes dois grupos que saiu da corrida pela Espirito Santo Saúde teria possibilidade de competir via preço, o elemento central neste momento. O preço a pagar reflecte o que cada grupo espera ganhar com a actividade, sendo que parte dos ganhos não são directos da actividade da Espirito Santo Saúde – o maior conhecimento do mercado europeu num contexto de Serviço Nacional de Saúde para os americanos ou de como funciona um grupo de prestação de cuidados de saúde para os chineses são também valor associado com a aquisição.

Em qualquer caso, para um preço elevado que seja pago, haverá uma pressão acrescida sobre a gestão do grupo Espirito Santo Saúde para mostrar resultados que justifiquem esse preço pago. O que dificilmente acontecerá se o preço incluir a valorização de outros aspectos não directamente relacionados com a actividade de prestação de cuidados de saúde. Este será um desafio para a equipa de gestão, qualquer que seja o grupo vencedor.

Mas há outros aspectos que fazem as ofertas destes dois grupos diferentes. No caso da Fidelidade, a possibilidade de integração vertical torna-se um ponto interessante de analisar, bem como a forma como serão tratados, caso a Fidelidade ganhe, os concorrentes da Fidelidade na área dos seguros de saúde pela Espirito Santo Saúde. O potencial para eventuais comportamentos lesivos da concorrência entre seguradoras com produtos na área dos seguros de saúde deverá ser seguido com cuidado pela Autoridade da Concorrência.

No caso do grupo Amil, coloca-se mesmo a questão de concentração de actividade, sobretudo na área de Lisboa, devendo também aqui a Autoridade da Concorrência ter uma palavra a dizer. Nesta situação, que tem algumas semelhanças com o que seria a aquisição pela José de Mello Saúde, será provável que a Autoridade da Concorrência queira garantir condições de concorrência, ditando a venda de alguns activos, no caso concreto o hospital dos lusíadas (o hospital da Luz será sempre a “bandeira” da frente do grupo que resultar da operação de venda). Se será ou não necessário esse compromisso por parte do grupo Amil para obter a aprovação na Autoridade da Concorrência, veremos caso seja este o grupo com a proposta vencedora. Tal como para a José de Mello Saúde, a exploração de uma PPP na saúde pelo grupo Amil, o hospital de Cascais, não oferece problemas pois existe um contrato que especifica as obrigações a cumprir, e os preços a serem pagos.

Em termos de desenvolvimento estratégico da Espirito Santo Saúde, não é inteiramente claro qual o que terá maior interesse para o mercado português. Intuitivamente, e sem ter pensado todos os detalhes de cada uma das possibilidades, a compra pela Fidelidade é menos interessante para o desenvolvimento da prestação de cuidados de saúde pois o elemento de integração vertical poderá mais facilmente colocar a prestação de cuidados de saúde ao serviço da concorrência no mercado de seguros. Por outro lado, a gestão do grupo Amil da sua actividade em Portugal não se mostrou particularmente activa, podendo ter sido por cautela e aprendizagem, ou por ser um mercado marginal para UnitedHealth. Neste sentido, qualquer uma destas duas ofertas sendo financeiramente melhor para quem tem acções da Espirito Santo Saúde não é melhor, a meu ver, do que as ofertas que já ficaram pelo caminho.

 

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Autor: Pedro Pita Barros

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa

4 thoughts on “continua a corrida pela Espirito Santo Saúde

  1. Em vários países europeus, seguradoras ou grupos com seguradoras não podem ser os donos de hospitais, clínicas, etc. Em Portugal, ninguém diz nada entretanto…

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  2. Professor,
    Como sempre uma leitura muito clara e de excelente apreensão da essência deste processo e das motivações dos diferentes intervenientes. A capacidade de ver para além dos números. Muito bom.

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  3. A Saída da Angeles tem dois problemas…. de facto acho que seria o melhor projeto para Portugal e para a atual equipe de gestão (em meu entender a melhor que está no sector…) mas por outro lado como é que fica a aquisição das acções por parte dos seus quadros antes da OPA e em investigação que nada se sabe….?

    Quanto aos outros dois grupos que ficaram…. como observador… acho que a melhor proposta é a da Fidelidade… todos os problemas com a integração vertical já se colocavam com a Tranquilidade da orbita do grupo, ou como facto da AMIL ser uma grande acionista da Advancecare… ou seja que vende produtos de seguros de saúde…

    Mas quanto aos problemas de integração vertical, acho que os ventos que sopram dos Estados Unidos…. recomendam alguns cuidados nestes instrumentos de integração vertical…. ou seja, uma gestão eficiente dos custos da prestação recomenda-se porque as apólices estão a ser anuladas à mesma velocidade que os prémios sobem…. e a United sabe bem disso…

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  4. Sobre a compra de acções da ES Saúde por pessoas da Angeles também não sei o que se passa (ou passou), mas se compraram podem agora ver com uma mais valia.

    Em termos de desenvolvimento de projecto, a criação de um núcleo accionista estável será relevante, bem como trazer dinheiro para investimento (e a ES Saúde está a começar a entrar no mercado angolano, pelo menos de acordo com notícias de há alguns meses). Mas a pressão para conseguir apresentar rácios de rentabilidade para o investimento realizado na aquisição pode criar uma visão excessiva a favor do curto prazo, qualquer que seja o comprador.

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