Momentos económicos… e não só

“Para uma conversação construtiva” (1)

5 comentários

 

A semana passada a Fundação para a Saúde publicou um livro intitulado “Serviço Nacional de Saúde – para uma conversação construtiva”, tendo como mentor, e um dos muitos autores, Constantino Sakellarides.

Numa primeira impressão geral, o livro apresenta-se como desigual nas suas partes, alternando entre ideias que vale a pena discutir, por um lado, e boas intenções, ou considerações mais ou menos vagas ou depoimentos de apoio ao SNS, por outro lado.

Um aspecto presente ao longo de todo o livro é a ausência de qualquer preocupação com restrições, como se não houvesse limitação de recursos, não só financeiros como materiais, para alcançar todos os objectivos definidos. Curiosamente, os objectivos também se tendem a centrar no processo e não nos resultados, no que se pretende alcançar. Faz também alguma falta a existência de contraditório no livro.

Tem a característica de em demasiadas páginas surgir como uma cartilha aos convertidos e não um texto que nos desafie a pensar. Esses momentos de desafio também existem, mas são menos do que gostaria de ver.

O sumário executivo fornece, como seria de esperar, uma visão geral dos temas, mas com pouca concretização. O sumário executivo arranca com uma primeira secção, sobre identidade e unidade do SNS, onde teria sido apropriado que fossem elencados os “princípios que o informam”, as “limitações que o afligem” e a “questões que o desafiam”.

Sobre contrato social, também não se concretizam no sumário quais “os dispositivos próprios” para a governação estratégica. Apenas se lança a ideia de ter um “painel de indicadores publicamente escrutináveis”. Esperemos que no desenvolvimento do livro estes sejam mais detalhados, no seu modo de cálculo e no seu significado e interpretação.

Nova secção, dedicada à arquitectura organizacional, conhecimento e inovação em saúde, onde implicitamente há um apelo à redução de níveis hierárquicos, quando se referem “níveis intermédios desnecessários”, sendo que se terá que esperar pelo resto da leitura para perceber que níveis são esses. Neste ponto surge também a noção de “processos de auto-organização”, aspecto que vale a pena discutir, pois encerram vantagens e desvantagens. A necessidade de transformação progressiva, com “equipas multiprofissionais”, é uma consideração que partilho, com as dificuldades que lhe estão inerentes a partir de uma cultura de trabalho que não tem tradicionalmente essa característica.

Inevitavelmente, há também uma parte dedicada a literacia, participação e cidadania, embora aqui pouco se vá além da habitual retórica de dizer que o cidadão é o centro do sistema, embora depois todo o pensamento pareça estar assente na premissa que são os actores do sistema de saúde que sabem o que cidadão tem que querer (o que até certo ponto é contraditório com dizer-se que o cidadão é o centro do sistema, é o centro das atenções, mas fará parte do centro de decisão?)

Por fim, há uma nota sobre desafio europeu e global, o que é chamado “projecto SNS Europa” e “projecto SNS Global”, que são à partida boas ideias, exigindo o desenvolvimento de uma capacidade de documentar experiências, processos e resultados, que permitam levar à aceitação das opções com sucesso em Portugal noutros países, provavelmente com adaptações.

Passarei (passaremos?) ao comentário de cada parte por si, nos próximos dias.

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Autor: Pedro Pita Barros

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa

5 thoughts on ““Para uma conversação construtiva” (1)

  1. Caro Prof. Pita Barros,

    Pode-se depreender da sua primeira “aproximação” a livro que o considera algo tendencioso? Em que sentido (i.e. para lado de que “tendência”)?

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  2. Todos os livros que não sejam livros de texto ou de revisão científica têm uma opinião e nesse sentido uma tendência. Este livro tem como objectivo fazer uma defesa do Serviço Nacional de Saúde, e será essa a tendência. Com a qual não discordo, aliás. Mas se o livro se pretende situar como uma “conversação”, então eu estava à espera de ver mais em termos de opiniões diferentes (para os mesmos objectivos, haverá em muitos casos diversos caminhos possíveis), e também gostava de ter visto mais “conversação” sobre as escolhas que é necessário fazer. Há um excesso, para meu gosto, de “prescrição” sobre o processo, sem que essa prescrição esteja devidamente justificada (e se calhar não precisava de estar, mas ter apenas opiniões soltas é pouco para início de conversa – apesar de o livro ser desigual entre as várias partes que o constituem, há umas mais bem conseguidas que outras). O melhor é mesmo ler😉

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  3. Boa tarde Prof. Pita Barros,

    O pensador sonha em utopia, onde dizem não haver custos nem restrições ou imperfeições e haverá sempre quem interprete a poesia e a cole à realidade. Pessoa não seria apenas poeta se assim não fosse.
    Tenho para mim que quem melhor está posicionado para pensar a saúde são os médicos de Saúde Pública. Um exemplo disto será o Dr. Adalberto Fernandes, cujo conhecimento é eclético e a sua experiência muito bem sustentada, desconhecendo se faz parte dos co-autores do livro. Por outro lado, concordo que só pensar não basta; gostaria, por exemplo, de ver o diretor da DGS no terreno a comandar ou enfrentar o combate ao Ébola, seja em Portugal ou no campo de ação africano, e não apenas na sala iluminada de um gabinete.
    Quanto ao processo, como clínico, acho tão ou mais importante que os resultados, se se tiver mais em “conta” a qualidade dos atos em saúde e não tanto a eficiência. A propósito, na econométrica contabilística do tribunal de contas, aumentar a eficiência através de consultas de 15 em 15 minutos só pode resultar de uma formulação matemática que respeite a regra dos três simples, sem levar em conta variáveis humanas difíceis de materializar como capacidade física, intelectual, qualidade, motivação (maior eficiência, sem custos adicionais), etc. Ou haverá outros indicadores publicamente escrutináveis para a questão? Talvez seja melhor ler o ensaio.
    Queira desculpar as banalidades, com os meus cumprimentos,
    João F. Rodrigues

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  4. Olá Pedro,
    Bem-vindo ao “SNS, para uma conversação construtiva” … e para que o seja, há que ter em conta os propósitos desta pequena contribuição: pôr à disposição das pessoas dispostas a ler (ou folhear) livros, um conjunto de noções simples e de pontos de vista informados, sobre a importância de proteger e modernizar o SNS. Assim, a pergunta particularmente interessante para mim, é a de saber se o livro acrescenta alguma coisa, nesta matéria, ao que já existe à disposição das pessoas? …. nós quisemos acreditar que sim, mas o veredicto é sempre do leitor … e para nós é importante sabe-lo.
    É claro que sendo nossa intenção proporcionar uma ideia de conjunto sobre o SNS em 80 e tal páginas, temas saborosos como os que refere (e muitos outros) ficam necessariamente por aprofundar. Mas não me parece que noção de “resultados” não seja evidente no livrinho – ela aparece fortemente representada em 6 das 24 figuras do mesmo (páginas 50, 51, 66,67,73,82)!
    Agradecido,
    Constantino

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    • Olá Constantino
      Bem-vindo a este espaço, onde pretendi apenas responder ao desafio da “Conversação construtiva”, e darei a minha visão como leitor sobre alguns aspectos mais particulares nos próximos dias.
      Naturalmente que o livro acrescenta alguma coisa, em termos de ideias para discussão; podia acrescentar mais, e nalguns casos é mais “estados de espírito” que realmente contribuições, afinal o risco de ter muita gente a contribuir; mas a minha opinião não é mais do que isso mesmo, a minha opinião.

      Sobre o papel dos “resultados”, a minha questão, desafio à reflexão até, é como incorporar essa noção, o que significa em cada caso e as implicações que tem; merecia mais espaço de discussão (e até especulação e conjecturas sobre caminhos possíveis, ou impossíveis, na sua utilização). Vamos conversando….
      abraço
      Pedro

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