Momentos económicos… e não só

Sobre a PT (a que presta serviços, não a gestora de participações) e a entrevista do seu presidente

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Hoje, o diário económico apresenta uma longa entrevista com Armando Almeida, o novo presidente da PT Portugal – a empresa que vende serviços e que é agora detida pela Oi. E só para manter a distinção – esta não é a empresa cujas as acções desvalorizaram na bolsa – essa é a PT SGPS, que é accionista da Oi, que é a “dona” da PT Portugal. Confuso? pois, mas esta separação entre a empresa cotada em bolsa e a PT que presta serviços é relevante, e é logo o tema da primeira resposta que Armando Almeida dá.

A entrevista tem mensagens para dentro da empresa e mensagens para fora da empresa.

As mensagens para dentro da empresa são claras: valorização das pessoas, não vai haver despedimentos dos trabalhadores da empresa, apenas dos que estão lá colocados como “outsourcing”. Há um esforço de motivar as pessoas da empresas dando reconhecimento público ao seu valor.

As mensagens para fora são sobretudo destinadas aos clientes, com a habitual retórica da sua importância. Ainda assim, parece fazer parte da estratégia futura a aposta no B2B. Sobre inovação, não é perceptível qual o caminho pretendido. Nada é dito sobre internacionalização da empresa e participação em operadoras estrangeiras. Ora estes dois aspectos não podem ser desligados. Para a PT ter actividades de inovação relevantes, com impacto, necessita de ter escala que apenas o mercado português não lhe dará. E ou vai procurar essa escala operando lá fora, ou terá que passar a vender, licenciar, o que for, a inovação que produzir. Do Brasil parece ser evidente que não haverá liderança para este processo centrado em Portugal. Aliás, sobre a própria definição da posição da empresa fica a dúvida – a afirmação é que “ninguém me disse que estamos à venda”, mas a verdade é que esta afirmação é menos forte do que uma hipotética afirmação “disseram-me que não estamos à venda”. Se vier a existir uma venda da PT Portugal, significa que Armando Almeida ou escondeu agora ou estava fora da decisão, o que em qualquer dos casos não é particularmente bom para o seu “peso” como decisor dentro do grupo Oi. Não há também qualquer referência ao futuro da fusão com a Oi que seja esclarecedor.

Um aspecto que quase me passava despercebido é a referência ao modelo de governação. E este será o primeiro grande teste à sua capacidade de gestão – o problema com a dívida da Rioforte  resultou de um modelo de governação que permitiu a um accionista de referência apropriar-se de valor da empresa à custa de todos os outros (e da própria estratégia da empresa), como é hoje visível. Assim, o desafio do modelo de governação, e relação com accionistas, é como vai construir essa “governação super-rigorosa e super-transparente” e se não vai acabar por colocar na empresa nos vários órgãos “os suspeitos do costume”. Este é um teste importante porque mostrará num prazo relativamente curto qual a verdadeira amplitude de gestão e decisão que terá, ou se será apenas um “prolongamento” das decisões de quem mandar na Oi.

Aproveito a entrevista para um rápido comentário ao muito que se tem dito sobre a PT e a golden share, bem como se o Governo português deveria intervir agora ou não. A minha visão, face à informação disponível, é que a golden share bem como o accionista de referência revelaram-se a prazo mais nocivos para o crescimento da PT do que positivos. As decisões e compromissos de bastidores, como a aposta no Brasil via Oi e investimentos da PT, acabaram por chocar com a realidade económica. As empresas de telecomunicações operam em mercados muito competitivos, com mudanças relativamente grandes em poucos anos sobre quem é líder e quem não é (basta olhar para a Nokia que de gigante vai provavelmente desaparecer como marca). Ter agora uma intervenção pública (nem se sabendo bem a que pretexto nem como) não iria ajudar a encontrar o caminho para a empresa. Por outro lado, a (alegada?) movimentação de antigos quadros da empresa para comprar (?) a PT Portugal (a empresa que presta serviços, não a financeira que é accionista da Oi) até pode ser uma boa ideia se não envolver dinheiro público. De outro modo, porque não deveria o Estado português apoiar cada aventura empresarial dos seus cidadãos? (mas essa já é uma outra discussão).

ps. Declaração de interesses: tenho familiar próximo que trabalha na PT.

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Autor: Pedro Pita Barros

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa

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