Momentos económicos… e não só

surtos de gripe

4 comentários

Sempre que há entupimento das urgências por excesso de procura surgem as tentações de falar em descalabro do Serviço Nacional de Saúde. O primeiro passo, numa análise do que se passou, consiste em ir conhecer o que é efeito da “procura”, isto é, necessidades da população. Isto porque os problemas surgidos podem resultar de uma redução da disponibilidade de serviços para a mesma intensidade de procura, ou de uma maior procura para a mesma disponibilidade de serviços. O primeiro caso poderia ser imputável a cortes que tivessem sido feitos nos serviços. O segundo denota sobretudo uma falta de capacidade de reacção para picos de procura.

A melhor fonte de informação para a intensidade da procura, nomeadamente a associada com o surto de gripe, é o boletim do INSA (o mais recente à data de escrita), de onde se retira a seguinte figura, que mostra a coincidência do pico de 2014 nas urgências com o aumento do surto de gripe. Ou seja, das duas explicações acima, resulta que os problemas que ocorreram surgiram da falta de capacidade de algumas unidades hospitalares responderem ao pico. Como referi noutro texto, a minha interpretação das dificuldades encontradas aponta para falha na capacidade de gestão local, e não no efeito de cortes ou encerramento de serviços. Curioso é que não aprendemos com o passado, uns e outros. Quem está nos hospitais deveria lembrar-se do pico de 2012 (também visível na figura), e quem comenta e critica também se deveria lembrar, pois na altura, em 2012, acusava-se o aumento das taxas moderadoras de terem causado o pico de mortalidade da mesma forma que hoje se acusam os “cortes cegos”, que esteve em grande medida associado ao surto gripal.

Há um aspecto que pode estar a ser diferente de 2012 – o ambiente em que ocorre o surto – e que beneficiaria de informação sobre dois aspectos: a) condições de vida gerais da população, incluindo alimentação e habitação; b) papel do frio  (referido por várias pessoas como factor agravante). O primeiro aspecto é susceptível de intervenção, o segundo não é, embora os seus efeitos possam ser minorados.

Screen Shot 2015-02-10 at 11.02.57

Autor: Pedro Pita Barros

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa

4 thoughts on “surtos de gripe

  1. A triagem ao ler as noticias aconselha : 1 ano de eleiçoes 2 não é ano de eleições.
    Caso um deitar para o lixo ; caso 2 seguir e verificar os dados.

    Gostar

  2. recebido via facebook:
    “o caos das urgências só me faz lembrar as criancinhas a nascerem nas ambulâncias: aproveitamento político!”

    Gostar

  3. Dados e análise muitos interessantes.

    Se percebi, procurou analisar o problema distinguindo a procura e a oferta.

    As hipóteses são: 1. foi devido a oferta insuficiente, consequência de cortes e 2. foi devido a procura excessiva, consequência de falta de capacidade de resposta.

    O que não percebi é como concluiu que estamos na situação 2. Vejamos:

    Pelos dados apresentados relativos a períodos anteriores, a procura é previsível: por alto, em ~Janeiro aumenta de 1000+-500 (estimativa do valor médio e desvio padrão dos picos da linha de base). Assumo que a oferta neste período tem em conta estes valores.

    Pelo que percebi, associa a situação 2. porque a linha de base já previa uma elevada mortalidade, e os hospitais não foram capazes de combatê-la (i.e. ao contrário de 1-2010, em que a previsão era alta e os óbitos foram baixos).

    O que não é claro é porque é que os hospitais não foram capazes de responder. Pode ter sido uma má gestão ou falta de recursos.

    Uma comparação adicional que poderá ser relevante é comparar estes dados com a resposta dos hospitais (número de efetivos nas urgências permanentes+temporários?), para perceber se a resposta hospitalar é compatível com as previsões da linha de base ou não.

    Se for compatível, então dai podemos concluir que foi um surto anómalo da gripe: os hospitais estavam preparados para responder às previsões, mas as previsões falharam. Se A) não se verificar, então ai podemos concluir que os hospitais não estavam preparados para as expectativas, e ai sim podemos culpar cortes e/ou má gestão.

    Faz sentido?

    Gostar

  4. @Jorge Faz sentido. Na pergunta “má gestão” ou “falta de recursos”, temos que pensar que os recursos disponíveis (a capacidade instalada) não estão estabelecidos para responder sempre, sem alteração, ao máximo de procura que possa ocorrer. Estarão normalmente acima da procura média (como factor de seguro), mas não ao máximo pois isso implicaria ter nos restantes períodos recursos não utilizados. Daí que a resposta ao pico de procura tenha que ser uma resposta do lado da gestão, a ir buscar recursos pontuais (incluindo nesta lógica a própria abertura por mais tempo dos cuidados de saúde primários) e aceitar, no caso das urgências, que os tempos de espera para atendimento, nomeadamente não urgente, serão (um pouco) mais elevados nestas alturas. Como no resto do período não se reportaram pressões excessivas sobre as urgências (aqui talvez valha a pena colocar uma excepção no H Amadora Sintra que serve uma população muito maior do que a prevista quando se construiu o hospital), como o pico de frio e a evolução do surto gripal não eram surpresa, deixei a “má gestão” como explicação mais plausível, onde dentro de “má gestão” incluo a incapacidade de prever a necessidade de mobilizar recursos adicionais de forma temporária, de procurar formas de reduzir a pressão da procura sobre as urgências. Mas um dia, se houver informação quantitativa sobre este período, poderá pensar-se num teste formal.

    Gostar

Deixe um momento económico para discussão...

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s