Momentos económicos… e não só

ainda sobre a “crise das urgências” do início do ano

1 Comentário

Mais do que está a recuperar os problemas que então surgiram, é necessário pensar que lições se retiram e que acções daí decorrem. O primeiro ponto é saber se as áreas onde surgiram mais problemas são também as áreas onde há menor capacidade de  resposta dos cuidados de saúde primários – por exemplo, maior número de pessoas sem acesso a médico de família. A partir dai pode-se classificar em cada hospital se o problema surgiu de redução de oferta, de aumento da procura ou de ambos, de forma inesperada.

O aspecto crucial para conseguir prevenir situações futuras está em perceber o equilíbrio entre oferta e procura e criar os mecanismos de resposta adequados. Simplesmente adicionar mais recursos não é necessariamente a melhor solução. Significa também que se os problemas surgiram de fontes diferentes, as respostas a serem dadas terão que ser diferentes.

Por exemplo, se houve tempos excessivos para atendimento em urgência hospitalar porque aumentou a procura, e depois internamente se registaram problema de “falta de macas”, então as respostas terão que ter um elemento de ligação à procura – como pode o hospital contribuir para uma maior capacidade de resolução de casos nos cuidados de saúde primários e, especialmente relevante, como transmitir essa informação à população – mas também uma gestão interna das actividades programadas do hospital para responder a maiores necessidades de internamento que possam vir da urgência. Em qualquer dos casos, significa definir protocolos de actuação claros quando há pressão inesperada, sendo que a actuação deverá ser não só interna ao hospital mas também externa, dirigida à construção de respostas para a população num momento de pico de procura. A definição dessas respostas poderá implicar reorganizações internas temporárias e poderá ser diferente de local para local.

O elemento fundamental é prever como se reage a um ambiente que tem variações, em vez de ter apenas reacção por pressão externa. Ou seja, ter planos de contingência em lugar de se reclamar por mais contratações depois de registado o pico de procura face à oferta. Medidas permanentes só fazem sentido quando os problemas são permanentes. Algumas das situações ocorridas poderão ter sido resultado de condições que exigem essas contratações, mas duvido que tal tenho sido generalizado, e que de qualquer modo flutuações de procura irão continuar a ocorrer, pelo que pensar em como responder de forma antecipada a essas situações deve ser feito. As “soluções” devem ser preparadas em momentos de “calma” para serem usadas de forma quase automática quando a pressão surgir.

Seria por isso bom sinal que se soubesse que planos de contingência foram estabelecidos por cada hospital, dos mais afectados pela “crise das urgências”, para saberem como vão reagir da próxima vez que houver um pico de procura (e esse pico mais cedo ou mais tarde vai existir).

Fica a curiosidade…

Autor: Pedro Pita Barros

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa

One thought on “ainda sobre a “crise das urgências” do início do ano

  1. Boa tarde,
    O próximo pico de procura será seguramente daqui a 2 meses, perspectivando-se um verão quente e crítico em regiões turísticas que passaram um santo natal…planos de contigência do inicio de junho a setembro poderão evitar agitação marítima e solavancos esperados pela proximidade do ato eleitoral, se ainda existir linha estratégica para tal.
    Comentava há algumas semanas o Dr Álvaro Beleza, que internos de deterrminadas especialidades ditas médicas, como pneumologia, cardiologia, nefrologia, etc, não estariam a realizar urgência geral no período de formação. A ser uma realidade disseminada, eis uma solução interna lógica e sem custos adicionais para reforço das equipas de urgência. Da mesma forma, em especialidades técnicas como a oftalmologia e ORL parece-me bastante aceitável que, nas contratações atuais de 40 horas com até 18 horas alocadas a serviço de urgência, os internos realizem 6 horas de urgência geral, haja vontade e flexibilidade para tal.
    Mas a grande aposta deveria ser nos CSP, com reforço antecipado de horários e RH (médicos de Saúde Pública a darem uma “mão” aos MGFs, por que não?) e apostar na centralização da triagem de Manchester nos CSP (contratar enfermeiros) afim de encaminhar para os hospitais apenas amarelos, laranjas e vermelhos (não me refiro a militantes partidários).
    Intra-hospitalarmente falando, enquanto não for possível suspender doentes ao tecto, só mesmo com mais camas.
    Cumprimentos.

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