Momentos económicos… e não só

Programa eleitoral do PS (4)

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Continuando a análise do programa eleitoral do PS, um aspecto relevante é a intenção de “reformar a organização interna e modelo de gestão dos hospitais” e a avaliação das PPP, a que adicionaria a avaliação das unidades locais de saúde. A avaliação da qualidade de gestão em cada um dos modelos é relevante, em diferentes dimensões. Há uma tensão visível na gestão de unidades de saúde, em especial hospitais, entre administradores hospitalares “de carreira” e gestores vindos de outras áreas. Na verdade, a formação base é menos importante do que saber qual a qualidade da gestão realmente praticada, e se tem relação sistemática com formação base ou com características do modelo de governação da organização.

Existem formas de procurar fazer essa avaliação, e em formato quase piloto, conheço pelo menos duas tentativas de o fazer, mas que não chegaram a ser alargadas a todos os hospitais (sobretudo por falta de interesse dos mesmos e das entidades públicas). Uma primeira linha vem da investigação de Vitor Raposo. Uma segunda linha surge por Cláudia Iglésias, no seguimento de trabalhos internacionais no mesmo sentido (de Bloom, Propper, Siedler e van Reenen).

Além disso da informação sobre a qualidade da gestão num momento do tempo, interessa saber qual o modelo de gestão que permite ter uma dinâmica de adaptação e evolução mais adequada às necessidades (de cuidados de saúde da população). Retomando aqui a visão proposta pelo Relatório Gulbenkian, interessa também saber que modelo de gestão dos hospitais fomenta melhor a) procura de melhoria contínua da qualidade, onde se inclui evitar desperdícios (na feliz expressão “do right the first time”), e b) melhor ligação aos cuidados de saúde primários, por um lado, e cuidados continuados, por outro lado. Os critérios relevantes para avaliação das “experiências hospitalares existentes” não se podem cingir aos meros custos unitários de tratamento de doentes, e têm que ter em conta estes aspectos dinâmicos.

(E mesmo a utilização de custos unitários de tratamento não é o melhor critério, pois é necessário acomodar a potencial presença de economias de escala e de economias de diversificação de actividades para se poder fazer uma avaliação adequada – os instrumentos e conceitos técnicos existem, basta aplicá-los, o que exige cuidado metodológico).

A referência à qualidade nos cuidados prestados surge agora no programa eleitoral, em adição ao que estava na proposta de programa, o que é de saudar: “Apostar em modelos de governação da saúde baseados na melhoria contínua da qualidade e na valorização da experiência e participação do utente bem como na implementação de medidas de redução do desperdício, de valorização e disseminação das boas práticas e de garantia da segurança do doente.” Se noutros pontos tenho referido o Relatório Gulbenkian como dando pistas que poderiam ser consideradas, neste ponto concreto há uma convergência entre o programa eleitoral e o Relatório Gulbenkian na importância deste aspecto.

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Autor: Pedro Pita Barros

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa

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