Momentos económicos… e não só

Estudo para a Ordem dos Médicos (2)

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A segunda secção do estudo para a ordem dos médicos cobre o “Funcionamento das instituições”, e aqui surgem as primeiras necessidades de clarificação do que está a ser perguntado e de como se podem interpretar as respostas. Infere-se do texto que uma das perguntas terá sido algo como “qual a sua percepção sobre a evolução do número de primeiras consultas?”, e se as respostas dizem que 70% dos médicos acha que aumentou, a única informação recolhida é o sentido da mudança. Diferente será se a pergunta for “quanto variou em percentagem o número de primeiras consultas?” (que fez? na sua instituição?). Neste segundo caso tem-se informação sobre a percepção quantitativa dessa variação.

O texto do estudo diz “a análise referente ao sector público demonstra um aumento significativo de primeiras consultas segundo cerca de 70% dos médicos”, o que faz pressupor que terá sido feita uma pergunta como a primeira versão acima, dando eventualmente uma escala para a sua variação (nada é dito sobre isto no relatório). Mas nesse caso o título dos gráficos 1 e 2 é simplesmente errado e induz em erro quem ler: ao escrever-se “Aumento de primeiras consultas no SNS” e com um valor de 69.3% (no gráfico 1), apenas esta informação levaria a pensar que as primeiras consultas aumentaram 69,3% em 2 anos (de 2011 para 2013), o que simplesmente não faz sentido atendendo aos números de consultas efectivamente realizadas publicadas nas estatísticas oficiais. A interpretação correcta deverá ser (julgo eu) que 69% dos médicos percepciona que na sua instituição (pública) o número de primeira consultas terá aumentado significativamente (não se sabendo porém qual o significado exacto de “significativo”). Esta interpretação é reforçada pela forma de apresentação do gráfico. Mas a confusão instala-se quando no texto se diz “De acordo com as respostas dos médicos hospitalares, os dois indicadores registaram aumentos na ordem dos 62%”, em que os dois indicadores são “aumento de primeiras consultas no SNS” e “aumento do total de consultas no SNS”. O que se quer dizer é 62% indicaram aumento, e não que houve aumento de 62%.

Este problema de interpretação vai ser recorrente ao longo de todo o relatório. Por exemplo, no gráfico 3 “Aumento de primeiras consultas no sector privado”, deve-se ler que apenas 16% dos médicos inquiridos que trabalham no sector privado disseram que terá aumentado, o que é muito diferente de dizer que aumentou 16%. Por isso, a afirmação de “O traço comum é o aumento marginal das consultas realizadas em consultórios e clínicas por contraste ao aumento da actividade do sector hospitalar (na ordem dos 40%)” está igualmente errada. O que se pode dizer é que apenas um número pequeno de médicos terá indicado um aumento das consultas realizadas em consultórios e clínicas privadas, enquanto um número substancialmente maior terá indicado aumento das consultas no sector hospitalar privado. A diferença é importante. Não é a mesma coisa, 100% dos médicos indicarem um aumento de 1% ou 1% de médicos indicar um aumento de 100% (ilustração hipotética).

Da mesma forma, e a menos que as perguntas colocadas tivessem um elemento quantitativo envolvido, não é possível dizer que “na comparação direta entre público e privado, os dados indicam um aumento significativo da atividade do SNS face aos prestadores privados.” Por exemplo, os dados observados seriam compatíveis com o seguinte: se houver três serviços que têm 100 consultas em 2011, com igual número de médicos em cada serviço; e, se em dois deles as consultas baixarem para 99 e num único serviço subir para 110, as respostas qualitativas do inquérito diriam que 2/3 dos médicos indicam descida no número de consultas, enquanto na verdade o número total de consultas realizadas aumentou. O efeito pode naturalmente ser ao contrário, terem subido as consultas para 111 em dois serviços e baixado para 90 no terceiro; neste caso, 2/3 dos médicos indicariam subida de actividade, mas na verdade esta teria tido uma redução global.

As conclusões que se vão tirando ao longo do relatório sobre a reconfiguração do sector privado e da sua importância relativa face ao sector público são plausíveis, e correspondem a uma percepção geral sobre essa evolução. Contudo, não resultam necessariamente dos dados apresentados.

Autor: Pedro Pita Barros

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa

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