Momentos económicos… e não só

Estudo para a Ordem dos Médicos (4)

1 Comentário

Uma outra secção (a quarta) do relatório feito a pedido da Ordem dos Médicos diz respeito à formação médica. Sendo este um aspecto sobre o qual se conhece pouco e como referido no relatório normalmente “ignorado na discussão sobre a reforma do sector da saúde”, é bastante útil a sua inclusão.

Era importante, para perceber melhor as percentagens apresentadas, quais os números absolutos na amostra e no universo em estudo. Por outro lado, é necessário ter em conta que os aspectos mencionados são susceptíveis de terem enviesamentos específicos – é tentador dizer-se que se quer mais tempo dos tutores/orientadores, que se querem mais actividades formativas, etc.

Ainda assim, mesmo descontando essas possibilidades, há uma razoável concordância sobre problemas e estrangulamentos. Teria sido útil saber se as percepções dos médicos internos e dos médicos tutores, numa mesma instituição, são coincidentes ou não. E conhecer a variabilidade de situações de instituição para instituição. Num trabalho passado, detectou-se que esta variabilidade era enorme – nalguns locais havia presença efectiva do tutor, incluindo reuniões semanais de análise de investigação, enquanto noutros o médico interno servia como substituto do tutor, com um mero contacto telefónico a saber se estava tudo bem. Situações extremas, mas que espelhavam o que era há alguns anos uma enorme diversidade de situações na formação. Além dos valores médios que são dados pelo inquérito, importava saber se esta heterogeneidade se mantém, e se tem alguma tipologia (por exemplo, quando o tutor está só no sector público, ou está no sector público e no sector privado, há alguma diferença sistemática?).

A quinta secção é dedicada à percepção dos médicos sobre o comportamento dos doentes, o que significa que se pergunta ao médico qual a sua interpretação da percepção que tem do que fazem os doentes. Aqui serão mais fiáveis as respostas que digam respeito à intervenção do médico e às suas acções do que quando são interpretações sobre o porquê do comportamento dos doentes. Por outro lado, é mais plausível que estas percepções sobre o comportamento dos doentes não afectem de forma relevante a predisposição para responder ao questionário, e sejam relativamente independentes dessa decisão (claro que é uma hipótese que deverá ser testada, mas mesmo assim julgo ser menos problemático o problema de auto-selecção de resposta por estes motivos do que a insatisfação com a “interferência” no trabalho).

O ter aumentado a percentagem de pessoas que pede medicamentos mais baratos deverá ser um resultado fiável, plausível, sendo então que o período de crise terá afectado de forma importante este pedido. Também o fraccionamento dos pagamentos é plausível,  com um aumento de situações, em que tal é pedido.

Já quanto aos “motivos económicos”, sendo percepção dos médicos, torna-se complicado saber se é essa a real motivação dos doentes (por exemplo, será sempre mais fácil um doente dizer que abandonou a terapêutica por motivo económico do que dizer que não confiou no que o médico lhe prescreveu, ou deixou de tomar porque se sentiu melhor). Além de que noutras análises se tem encontrado que se interpreta em excesso o “motivo de restrição financeira de acesso” – isto é, quem olha de fora pensa ser mais frequente do que realmente é. Apesar de tudo, os resultados vão num sentido plausível – é natural que as restrições financeiras tenham aumentado, e é natural que haja menor incidência desse aspecto nos doentes que vão ao sector privado (até porque os doentes com maiores restrições financeiras irão proporcionalmente menos ao sector privado). Mas também é verdade que os médicos poderão esperar que essas restrições estejam menos presentes no sector privado, e que essa percepção genérica afecte as respostas que dão. Sem saber as perguntas exactas, e saber se houve alguma exploração para conhecer a base da resposta, não é possível ter confiança nos valores apresentados. E igualmente aqui é preciso ter o cuidado de fazer a interpretação correcta. Seguindo o que se presume ter sido o estilo das perguntas, deve-se ler que 53,3% dos médicos acha que houve “maior abandono de terapêutica por motivos económicos”, e não que 53,3% dos doentes abandonou a terapêutica por motivos económicos. Era importante ter completado esta informação com análise mais detalhada em termos quantitativos – por exemplo, perguntado ao médico se na última consulta detectou algum destes efeitos, que decisões tomou, etc.

Olhando por especialidade, a ordenação de abandono de terapêuticas tem alguma razoabilidade – a medicina física e de reabilitação e a psiquiatria são áreas onde a sensibilidade a factores externos para abandonar a terapêutica será maior. Já noutras especialidades merece maior análise perceber porque mais de 60% dos médicos indica um aumento do abandono da terapêutica, por exemplo em anestesiologia ou medicina interna (abandono de que terapêuticas?).

Sobre a possibilidade dos doentes estarem a faltar mais às consultas, embora seja natural pensar que sim, creio que vale a pena algum cuidado adicional, já que a percepção pode ser diferente da realidade, e a forma dos doentes reagirem em tempos de crise pode ter outras características. Ou seja, há hipóteses alternativas que têm de ser consideradas e que podem ou não ser relevantes. Por exemplo, se houver custos de transportes significativos, os doentes podem não marcar consultas em vez de faltar. Neste caso, se marcam é porque pretendem ir e vão. A existência de custos de transporte significativos poderá até estar associada com menor número de faltas às consultas. Não pretendo afirmar que seja este o caso, apenas ilustrar que há outras possibilidades. De modo similar, se houver um acesso mais fácil à marcação de consultas (via internet, funciona para alguns casos pelo menos), então também poderá haver maior número de faltas não por dificuldades de acesso mas sim por excesso de facilidades de acesso. Não houve essa preocupação de distinção de diferentes efeitos.

Como tudo se baseia em percepções dos médicos, por uma questão de coerência interna dessas respostas, é de esperar que os médicos que referem aumento do abandono da terapêutica também indiquem mais faltas às consultas. Ou seja, as duas respostas poderão estar a capturar a mesma percepção, apenas de forma diferente. Esse grau de concordância e sua discussão teria sido útil.

(nota: as considerações sobre as despesas directas das famílias e comparação em contexto internacional não são particularmente úteis para perceber os resultados do estudo.)

Autor: Pedro Pita Barros

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa

One thought on “Estudo para a Ordem dos Médicos (4)

  1. Bom dia Prof. Pita Barros,
    Apenas duas observações:
    1. Os tutores de formação dos internatos para o serem têm que estar a tempo completo – 35 ou 40 horas/semana na Carreira Pública Médica, independentemente da sua atividade adicional no sector privado.
    2. Em relação aos 60% de médicos de Anestesiologia e Medicina Interna que referem abandono de terapêutica tem a ver com o facto dos primeiros serem responsáveis pela avaliação pré-operatória, realizando o check-list da medicação activa naquele momento, que difere da prescrita, enquanto os internistas são responsáveis habitualmente pelo ajuste/regulação, por exemplo, das interações medicamentosas, ambas no contexto da polimedicação e da prescrição por diferentes especialistas por vezes conflituante para um dado doente, a par das opções de carácter economicista que os doentes tomam por sua iniciativa, i.e. resultante da escassez de recursos financeiros.

    Cumprimentos.

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