Momentos económicos… e não só

A distância entre os títulos das noticias e o que lá está

3 comentários

a propósito da recente entrevista de Mário Centeno ao DN (aqui) e do titulo “quem-tem-2000-euros-de-rendimento-tem-uma-posicao-privilegiada”. A leitura da entrevista demonstra duas coisas:

a) que Mário Centeno deu uma resposta técnica e essencialmente correcta – ter 2000 euros de rendimento bruto por mês coloca essa pessoa pelo menos nos 20% com rendimento médio mensal mais elevado em Portugal (ver quadro abaixo, “roubado” do recente post do Pedro Romano sobre os efeitos redistributivos da proposta de orçamento).

b) que Mário Centeno ao usar o termo “posição privilegiada” estava certamente a pensar nessa resposta técnica e descuidou a conotação política que pode ter. Aliás, reconhece nessa mesma entrevista que este valor é baixo num contexto europeu. É útil por isso reproduzir a pergunta e a resposta:

Pergunta-“Mas como classificaria alguém que tem um rendimento bruto de 2000 euros por mês?”

Resposta- “Lá está, uma pessoa que tem um rendimento bruto de 2000 euros por mês está numa posição da distribuição de quem paga impostos em Portugal, altamente privilegiada. Se isto faz dessa pessoa uma pessoa rica ou não… no contexto europeu garanto-lhe que não faz. No contexto português, ela de facto está numa posição cimeira da distribuição de rendimentos. Justifica-se por isso que essa pessoa seja penalizada, do ponto de vista fiscal, pelo menos do ponto de vista relativo? Com muitos limites, porque senão deslaçamos também aquilo que é a coesão social.”

O que permite retirar que os salários são globalmente baixos em Portugal, o que se for procurado porquê revela que decorre da baixa produtividade por hora (e não do baixo número de horas trabalhadas) em Portugal.

E se toda a discussão do orçamento tem estado à volta de dois temas, redistribuição (onde se inclui o papel da carga fiscal) e “estímulos” expansionistas, é altura de pelo menos adicionar as preocupações com a produtividade, procurando saber para cada medida proposta qual o efeito sobre a produtividade e qual o canal desse efeito.

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Autor: Pedro Pita Barros

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa

3 thoughts on “A distância entre os títulos das noticias e o que lá está

  1. Excelente post!
    Só punha uma dúvida. Escreve:
    «O que permite retirar que os salários são globalmente baixos em Portugal, o que se for procurado porquê revela que decorre da baixa produtividade por hora (e não do baixo número de horas trabalhadas) em Portugal.»

    Há que nos questionar se os salários baixos não serão apenas consequência mas também causa da baixa produtividade por hora. Afinal, salários mais altos obrigam os empresários a adoptar tecnologias de produtividade mais elevada, a investirem em indústrias de mais valor acrescentado, etc. É certo que é ‘static inefficient’, mas poderá ser ‘dynamic efficient’.

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    • O baixo rendimento por hora coloca várias dúvidas e que sintetizo desta forma. Trabalhadores pouco estimulados. Trabalhadores mal preparados profissionalmente. Trabalhadores intelectualmente deficitários. Direcção técnica de baixa qualidade. Tecnologias ultrapassadas.
      E fico-me por aqui. Sem grandes teses.

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  2. Pode haver algum efeito dessa natureza mas sobretudo nos salários mais baixos, mas não creio que seja de magnitude suficiente para fazer saltar o salário dos 2000 euros do ponto da distribuição de rendimentos. Há também o argumento dos “efficiency wages” (de Akerlof e Yellen) embora mais uma vez duvide que fosse suficiente só por si para alterar toda a distribuição de salários em Portugal. Mas agora com o aumento do salário mínimo teremos a oportunidade de ver os efeitos que ocorrem nos próximos anos.

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