Momentos económicos… e não só

PPPs e o estudo da Entidade Reguladora da Saúde (4)

3 comentários

O segundo tipo de análise realizada é denominado eficácia, e procura avaliar em que medida a unidade hospitalar consegue dar resposta “às solicitações da procura”. Enquanto a eficiência procurou ver se as “produções” eram obtidas com uma boa utilização dos recursos disponíveis, a eficácia procura ver em que medida que se resolvem os problemas de saúde da população (nesse sentido, aproxima-se da noção de “eficiência” a nível de equilíbrio de mercado, sendo a condição base que toda a procura deve ser satisfeita).
Uma hipótese fundamental usada é que toda procura da área de influência do hospital deverá ser satisfeita pelo hospital numa situação óptima. A análise desta capacidade de resolução depende, naturalmente, das opções que se deparem aos doentes – nas grandes zonas urbanas onde existem mais equipamentos hospitalares e onde a facilidade de deslocação a um hospital fora da área de influência é maior, será de esperar mais fluxos cruzados de doentes. Não é fácil saber que impacto tem essa facilidade no que deva ser a comparação de taxas de resolutividade entre hospitais. A ausência de discussão sobre qual o ponto de referência adequado sugere que este problema (potencial) não foi considerado na análise. A conclusão final de não haver diferenças entre os hospitais é plausível em si mesma, embora mais uma vez achasse útil ter informação complementar (e no caso, até bastaria ter informação sobre o desvio padrão das variáveis de interesse no grupo de comparação, para perceber se os valores observados nos hospitais PPP são substancialmente diferentes).
É de assinalar que existem diferenças importantes entre as várias PPP, mas em nalguns indicadores uma PPP é substancialmente melhor que o grupo de referência mas noutros indicadores é substancialmente pior.
Para dois dos indicadores, há a possibilidade de correlação negativa entre eles, que não parece ter sido acautelada – a percentagem de internamentos com demora superior a 30 dias e a percentagem de reinternamento em 30 dias. Se houve altas mais cedo do que o devido, poderão ocorrer menos internamentos com demora superior a 30 dias (que são porém um número pequeno de casos globalmente) o que levaria a uma maior probabilidade de internamento no espaço de 30 dias. Apesar de tudo, não creio que seja um efeito importante dada a pouca expressividade global dos casos de internamento com mais de 30 dias, mas é uma conjectura que poderia ser verificada com os dados.
Em termos dos testes estatísticos realizados, a média das PPP pode ser algo enganadora. Por exemplo, tomando a variável “percentagem de fraturas da anca com cirurgia efetuada nas primeiras 48 horas”, o teste entre valores médios dos dois grupos (PPP e não PPP) não rejeita que sejam iguais, mas como as PPP têm grande variabilidade de valores, seria interessante saber qual o resultado de testar se a média do grupo de comparação pode ser igual ao valor de cada hospital PPP em particular, ou ver se o valor de cada hospital PPP cai dentro do intervalo de confiança a 95% da média dos hospitais não PPP.
A utilização, para 2015, de uma visualização gráfica em que cada indicador de eficácia por hospital PPP é comparado por rácio com a média do grupo de referência (e invertendo quando necessário para que a leitura seja a de um valor mais elevado corresponder a uma situação melhor que a média do grupo de comparação), mostra que qualquer das  PPP tem indicadores melhores e indicadores piores que o grupo de referência.
Globalmente, esta situação não é inesperada. Ainda assim, o considerar que as populações servidas por todos os hospitais (PPP e do grupo de comparação) são homogéneas no sentido de terem características idênticas para efeitos de resultados destes indicadores é uma hipótese de trabalho que poderia e deveria ser tratada com mais cuidado. Em particular, seria interessante perceber se há relação sistemática entre essas características da população e os diferentes resultados (por exemplo, efeitos de população mais idosa), e haver uma comparação normalizada para esses efeitos, nem que fosse através de uma análise de regressão linear simples (e a qualidade técnica do trabalho desenvolvido pela ERS sugere que não haveria dificuldade em realizar essa análise).
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Autor: Pedro Pita Barros

Professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa

3 thoughts on “PPPs e o estudo da Entidade Reguladora da Saúde (4)

  1. sobre a cirurgia da anca mais à frente no relatório refere-se que grande número do Hospitais Públicos do Grupo de Comparação não apresentou os resultados da cirurgia das fracturas proximais do fémur. Penso que será a mesma cirurgia com outro nome. Se assim for será que os valores do HPublicos são apenas dos que apresentaram valores? Se for assim não haverá aqui uma grave distorção? Sendo expectvel que os que tivessem pior resultados sejam aqueles que os não apresentaram?

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  2. Esse é um bom ponto adicional, o de haver selecção em quem está incluído no grupo de comparação, se os respectivos resultados forem maus. Concordo que seria bom saber se existe algum efeito de selecção relevante.

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  3. Esse indicador , fractura da anca operada em 48 h, é alias o único indicador em que 3 dos HPPs ficam abaixo da médias dos comparadores.
    Por outro lado a ERS prescindiu de fazer uma Ponderação dos indicadores (1), optando por valorizar todos por igual.
    Ora enquanto factura do colo do fémur é o único em que os HPPPs ficam por baixo com valor estatístico , no Indicador de cirurgias realizadas dentro do tempo de espera recomendado, os HPPs ficam claramente acima.
    Não será este indicador, que abrange uma das componentes mais importantes da produção hospitalar, com relevância na saúde da população atendida, e que revela a capacidade de utilização dos blocos operatórios muito mais importante que as fraturas do colo de fémur operadas , em 48 h, que são um ínfima parte das cirurgias realizadas?

    (1)No relatório
    “Todavia, prescindindo-se de algum tipo de ponderação dos resultados obtidos a valorizar mais ou menos determinadas áreas em detrimento de outras, não se retira uma ilação global a respeito da vantagem ou desvantagem da gestão em regime de PPP.”

    Porque se prescinde desta ponderação?

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