Momentos económicos… e não só


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Observatório mensal da dívida dos hospitais EPE, segundo a execução orçamental (nº 34 – Fevereiro de 2017)

Com a publicação da execução orçamental de fevereiro é possível olhar para o que trouxe o primeiro mês do ano em termos das dívidas dos hospitais EPE. Depois da queda das dívidas em dezembro de 2016, antecipava-se que o mês de janeiro pudesse trazer novo crescimento da dívida, o que se verificou. O ritmo de crescimento de dezembro de 2016 para janeiro de 2017 foi superior ao ritmo histórico dos momentos de subida, sugerindo que parte da descida em dezembro foi artificial. Numa conta simples (provavelmente demasiado simples), se o ritmo histórico de crescimento era cerca de 30 milhões de euros por mês (antes de dezembro de 2016), e se o crescimento em janeiro foi de 63 milhões de euros, então houve uma descida artificial de 33 milhões de euros em dezembro de 2016 (no total de 211 milhões de queda que houve nesse mês da dívida dos hospitais EPE).

É certo que o valor de janeiro de 2017 está abaixo do que é o valor tendencial previsto se tivesse sido mantida a dinâmica vinda desde o Verão de 2015 (ver a primeira figura). Mas se interpretarmos a descida em dezembro de 2016 como sendo uma regularização extraordinária, como outras que tiveram lugar regulamente, então janeiro de 2017 é apenas o retomar de uma dinâmica já conhecida (ver a segunda figura), depois de uma queda pontual. A segunda figura sugere que a melhor forma de interpretar os dois últimos meses é de ver como queda num momento, retomando-se depois uma tendência de subida, numa repetição de movimentos passados.

Os próximos meses mostrarão que partes da queda de dezembro de 2016 são devidas a regularização de dívidas, a contenção artificial no tempo e a alteração na dinâmica subjacente.

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O euro e o crescimento económico, por Pedro Braz Teixeira (7)

O capítulo 7 entra no tema da estagnação portuguesa, com uma secção dedicada ao “desastre dos fundos europeus”, onde depois de uma primeira fase de “extrema utilidade” se questiona os últimos investimentos (“sacar o máximo pode ser um erro calamitoso”). O principal problema esteve em porque havia fundos europeus disponíveis se terem realizado projetos em que as despesas de manutenção são mais elevadas que os benefícios que produzem.

Parte substancial da explicação de investimentos pouco produtivos terem tido lugar esteve na capacidade de sectores de serviços, como a construção e a energia, em “extorquir investimentos e subsídios públicos absurdos”, no entender de Pedro Braz Teixeira. Contudo, tal só foi possível com a ajuda do sector financeiro, mais confortável com a realização desses projectos “protegidos”. De uma forma geral, as empresas voltaram-se para os sectores mais protegidos, longe da pressão concorrencial associada com mercados de exportação, e a alteração da estrutura produtiva respondeu a esses sinais dados. Gerou-se então um novo padrão de produção nacional que é menos favorável na reacção a choques externos desfavoráveis.

O capítulo 9 entra no tema do “resgate a Portugal”, onde se coloca no início o dedo em dois problemas – o endividamento das famílias para a compra de habitação própria e o endividamento das empresas e dos bancos para satisfazer os projectos de parceria público-privado (que foram uma forma de esconder dívida pública). A estes dois problemas identificados por Pedro Braz Teixeira é de adicionar um terceiro, o investimento empresarial do Estado, com a criação de dívidas nas empresas públicas.

A este contexto adicionou-se uma política orçamental de gasto descontrolado, mas de alguma forma pedida pela própria Comissão Europeia para combate à recessão iniciada em 2008.

Daqui ao pedido de resgate internacional foi um caminho inevitável. A resposta a esse resgate que foi pedida por quem emprestou dinheiro implicou um compromisso de reforma da despesa pública, que não teve realmente lugar.

O livro termina com um capítulo dedicado a “soluções para o crescimento português”, em que aponta como elementos essenciais “tornar os nossos custos mais alinhados com a nossa produtividade”, aumentar a escala das empresas (reduzindo a protecção excessiva às PME), investir para recuperar o desgaste do equipamento e aumentar as exportações.

Na questão da produtividade, é ainda importante reconhecer que esta depende de investimento físico das empresas e investimento intangível dos trabalhadores.


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O euro e o crescimento económico, por Pedro Braz Teixeira (6)

Cap. 5: o pecado original da estagnação portuguesa

Este é um dos capítulos centrais no livro de Pedro Braz Teixeira, e coloca no “excesso de estímulos” antes da adesão ao euro o peso da explicação da atual estagnação económica – com a subida de preços e salários, houve uma viragem do investimento e do esforço produtivo para sectores como a construção e serviços (em geral, para o sector de bens e serviços não transacionáveis internacionalmente). E “como o sector não transacionável tem menor crescimento da produtividade, o crescimento da economia como um todo sofreu com esta alteração da estrutura produtiva, passando a crescer muito menos”. É a partir desta alteração estrutural que gera a raiz do atual período de (quase) estagnação do crescimento económico. Esta viragem não foi da exclusiva responsabilidade do sector público, pois também os agentes privados se voltaram para dentro e canalizaram os seus esforços, financeiros e de recursos humanos, para investimentos em sectores com baixa taxa de crescimento da produtividade (mas que por causa da proteção que beneficiaram tinham elevadas taxas de rentabilidade para os agentes privados) e em alguns para investimentos em “megalomanias privadas”


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O euro e o crescimento económico, por Pedro Braz Teixeira (5)

Cap. 4: A preparação da adesão de Portugal

O ponto de maior destaque no relato da preparação da adesão de Portugal ao euro é da “carpintaria financeira”, em particular o papel das parcerias público-privadas como forma de “endividamento público encapotado” (também facilitado pela sua opacidade política e técnica, acrescento). Nos outros dois aspectos focados, nível da taxa de câmbio e défice público (equilíbrio das contas públicas), a posição de Pedro Braz Teixeira é simples – a taxa de câmbio fixada entre o euro e o escudo era adequada face à informação disponível no momento da decisão, e nas contas públicas desaproveitou-se a descida da taxa de juro para dar “folga” às contas públicas em lugar de realizar despesa com a poupança de juros (e sobretudo despesa sem efeitos reprodutivos na economia).


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O euro e o crescimento económico, por Pedro Braz Teixeira (4)

Cap. 3: Deficiências e críticas silenciadas

A primeira “deficiência” é diferentes culturas Norte – Sul na Europa. A segunda “deficiência” é a ausência de um “verdadeiro orçamento federal” (no sentido do volume de financiamento do mesmo) e de uma união bancária. A terceira “deficiência” apontada é a ausência de mecanismos de correção automática de desequilíbrios das contas externas – e o exemplo é a desvalorização da moeda. Destes três aspectos, o primeiro depende dos povos, o segundo depende dos equilíbrios políticos e o terceiro parece ignorar que a desvalorização como investimento também pode ser mal utilizada, e que Portugal ter esse instrumento não impediu duas intervenções do FMI prévias à entrada na (então) CEE. Além de não conhecer um país que tenha tido uma estratégia de desenvolvimento e crescimento sustentado baseado unicamente na desvalorização da sua moeda.

Estas deficiências são classificadas por Pedro Braz Teixeira como deficiências colectivas, comuns a todos os países da União Europeia. Em termos de deficiências individuais, a flexibilidade do mercado de trabalho surge como o principal problema de Portugal, numa perspectiva de participação no euro e no espaço económico correspondente.

A segunda parte deste capítulo refere as diferentes visões sobre a entrada no euro, com o lamento de se terem ignorado vozes críticas, assinalando a diferença importante que existiu no processo seguido no Reino Unido (onde houve um exercício público de avaliação do interesse da entrada no euro) e noutros países da União Europeia.


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O euro e o crescimento económico, por Pedro Braz Teixeira (3)

Cap. 2: Área Monetária Óptima

Este é um capítulo mais dedicado aos princípios económicos de criação e sustentação de zonas económicas com uma moeda comum. A principal preocupação enunciada é o problema de “choques assimétricos”, isto é, eventos não antecipados que afectam mais umas regiões do que outras. E dá como exemplo de choque assimétrico associado com a entrada no euro a descida nas taxas de juro (e na inflação) que foi muito mais forte nuns países (Portugal incluído) do que noutros. Interessante seria saber até que ponto a própria discussão sobre as vantagens de uma moeda única num mercado europeu não criou expectativas de crescimento económico que justificaram a forte reação de recurso ao crédito, pelo sector público e pelos privados, como resposta à redução de taxas de juro. Mas Pedro Braz Teixeira identifica também respostas assimétricas a um choque simétrico – a abertura ao Leste Europeu é um choque simétrico, que teve como resposta na Alemanha um posicionamento de moderação salarial e em Portugal (bem como noutros países da União Europeia) teve-se falta de moderação salarial face a essa concorrência desses países do Leste da Europa. Este segundo exemplo também levanta a questão de o problema não ter estado apenas nas condições de partida para o euro, segundo a teoria das uniões europeias óptimas, e de se ter de colocar a hipóteses de os decisores públicos terem tido outra racionalidade que não apenas a económica (ou de haver elementos que não estão ainda a ser considerados).


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O euro e o crescimento económico, por Pedro Braz Teixeira (2)

Cap. 1: A criação do euro

A abrir a motivação para a criação do euro surge o argumento de “conter as pretensões alemãs”, sendo que não são ditas quais seriam essas pretensões (seria aliás curioso saber em que medida o que os outros países pensavam ser as pretensões alemãs eram de facto ajustadas à realidade).

Neste contexto, a moeda única surge como elemento de uma visão mais ampla sobre o mercado único, e uma visão para a gestão macroeconómica assente em regras estabelecidas à partida. Estabelecer regras tinha como papel garantir que sem integração política todos os países estariam sintonizados num conjunto de objectivos. Mas o custo da perda de flexibilidade foi largamente subestimado, incluindo aqui os países que promoveram essas regras. A semelhança com o marco alemão, como forma de ter a participação e apoio da Alemanha, foi um preço demasiado alto a pagar? Não é claro do pensamento de Pedro Braz Teixeira se essa aproximação das características do euro, em termos institucionais, ao marco alemão é a fonte de todos os problemas do euro. A pergunta do que seria o funcionamento da zona euro sem essas condições à partida é de difícil resposta, e aberta a muitas conjecturas. O risco mais evidente é se teria gerado mais cedo uma crise em que os estados criariam dívida para ser paga por todos. Mas poderia ter existido uma definição institucional que evitasse esse tipo de crise, que não passasse por regras que foram depois “flexibilizadas” pelos seus próprios proponentes?

Sendo este capítulo mais factual que especulativo, surgem da sua leitura várias possibilidades de discussão, que poderão ajudar a definir os possíveis caminhos para a União Europeia. E que serão explorados adiante no livro.