Momentos económicos… e não só


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5 anos de “momentos económicos”

Há 5 anos atrás, neste mesmo dia, iniciei o blog. Na altura, tinha dúvidas sobre se duraria apenas alguns meses. E passaram muitos meses… e por pelo menos mais alguns irei continuar 🙂

Os países de origem dos visitantes do blog, de 1 de Janeiro de 2016 até hoje.

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Não se pode morar nos olhos de um gato

é o titulo do mais recente livro de Ana Margarida de Carvalho, que recebeu uma revisão entusiástica no Público (aqui), que se adiciona a muitos outros elogios (ver aqui, via facebook e aqui mais aqui, entre outros).

(nota: o texto que se segue tem spoilers sobre o livro)

Este é um livro que dá grande prazer ler. Da sua qualidade de escrita, as várias recensões, por pessoas da área das letras, são a melhor garantia dessa afirmação. O ritmo das palavras e o ritmo da narrativa são impressionantes em Ana Margarida. Que tem solta a sua imaginação na narrativa das vidas de um conjunto de náufragos, entre os quais se inclui uma santa de madeira (“uma santa de madeira, uma fidalga e a filha, um capataz, um escravo, um criado, um padre, um estudante e um menino preto, sobreviventes do navio negreiro, perdidos numa praia inóspita”, via Público) Vamos conhecendo os nomes dos personagens à medida que as suas histórias passadas são desvendados, passados inesperados e cheios de segredos. De todos eles saberemos o nome e os segredos de decisões passadas, com uma excepção, o capataz. Dele não saberemos nem o nome nem os segredos passados.

Chegando aos últimos parágrafos escritos por Ana Margarida, sente-se a pena de não saber  mais, de não ler mais os dilemas e as escolhas, de não conhecer três histórias que também poderiam pertencer a este livro. Uma do passado, outra do presente, outra do futuro. Desde logo, conhecer o capataz, que passado esconde o seu comportamento e os seus olhares, que história esconde a chave e a fechadura que tem tatuados. No presente (do livro), temos uma santa de madeira que discorre inicialmente sobre o mundo dos homens, e da qual fica o fascínio de saber o que pensará ela dos náufragos e das suas relações no processo de sobrevivência. E saber se será uma santa vingativa, ou simplesmente desajeitada. Por fim, o futuro do pai do “estudante”, que é deixado para trás, ficando a curiosidade de saber se conseguiria refazer uma vez mais a sua vida, ou seria já tarde demais. É bom quando um livro nos deixa a adivinhar as histórias que não conta, os fios invisíveis de uma teia mais ampla que se poderiam ligar, a somar aos laços inesperados que vão sendo revelados ao longo do texto.

Um desafio que me foi lançado é se este livro também poderia ter uma leitura “económica”. E curiosamente, ou talvez não, até pode. Um par de exemplos. A “inovação” na criação de um nova actividade económica, a “recuperação e venda de um activo” (escravos), na sua estrutura muito similar à compra de casas devolutas, sua renovação e de novo colocação no mercado, com o desenvolvimento da “tecnologia” específica que o permite fazer. O segundo exemplo é mais simples. Depois do naufrágio, o acesso a bens essenciais escassos (água potável e alimentos) estabelece as relações económicas de troca entre os vários “agentes económicos” presentes. Estabelecendo-se a “propriedade” sobre um dos “bens” de localização fixa (a água), há depois as “relações de troca” de quem procura alimentos. Ana Margarida coloca as relações entre os náufragos mais perto do contexto de um “mercado” onde há trocas entre o que cada um pode fazer do que no campo de uma solidariedade de sobrevivência entre as partes. É um mundo onde há recursos renováveis (os alimentos recolhidos no mar) e os não renováveis (os tecidos com os quais se fazem tochas). Há decisões em contexto de incerteza (virá um barco salvador? o que haverá para lá da curva das rochas e valerá a pena lá ir?). E o comportamento altera-se quando se passa de um espaço fechado mas que tem duração conhecida e recursos fixos, com propriedade clara – o navio antes do naufrágio -, para um espaço “fechado”, a praia que ora existe ora não existe consoante a maré, mas sem duração conhecida e com recursos variáveis (é necessário recolher a água potável e os alimentos em cada dia). Claro que também há no livro a atividade económica associada com o transporte de escravos, com a exploração agrícola no interior do Brasil de mil e novecentos, os “incentivos económicos” para o capitão do navio na sua liderança, a pobreza e suas consequências num Portugal de há dois séculos, etc.

Mas que este “desvio” não distraia do centro do livro, o peso do passado em cada uma das personagens, e como esse passado molda as relações que estabelecem na sua “sociedade de sobrevivência” depois do naufrágio, e como esse evento transforma, ou não, essas mesmas relações pré-naufrágio. É nesses passados e nessas relações que está o fascínio do livro.

Aviso de interesses: a amizade com a Ana Margarida pode ter influenciado a minha visão; para decidir se há ou não parcialidade, será necessário que leiam o livro.

 


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Carros elétricos & Tesla modelo 3

A generalização dos carros elétricos parece estar cada vez mais perto. A Tesla tem estado na linha da frente, sendo uma empresa que não vem da produção de carros com motor de combustão. Essa característica dá-lhe uma vantagem em termos de inovação – não tem que pensar que os seus novos modelos vão canibalizar as vendas dos carros com motores tradicionais. Até agora a Tesla tem-se mantido sobretudo num segmento de consumidores que estão dispostos a pagar um preço elevado.

O novo modelo 3 da Tesla pretende ser o passo decisivo para a massificação  na utilização dos carros elétricos, com um preço de cerca de 31 mil euros (antes de impostos, claro, se e quando vier a ser vendido em Portugal). Além dos aspectos de engenharia e software dos novos carros, há um elemento muito curioso – o carro ainda não está em produção, prevê-se que só para final de 2017 esteja disponível, e a esta distância a Tesla abriu a possibilidade de reserva para compra, pagando um valor de 1000 dólares. Segundo o presidente da empresa no Twitter, conseguiu em dois dias 232 mil reservas de vendas, o que significa 232 milhões de dólares de “empréstimo” a taxa de juro zero!

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Mas para o tempo que vai demorar até ao carro estar disponível, este valor não será certamente suficiente, e a empresa terá que obter outros financiamentos. Por outro lado, o anúncio e o sucesso em criar interesse suficiente para fazer reservas por 1000 dólares, ou 1000 euros no caso da zona euro (pelo menos para Portugal). Estas reservas podem ser canceladas a qualquer momento, sendo restituído o valor (ver aqui), factor que terá contribuído para o seu sucesso mas que significa que nem todas as reservas provavelmente significarão vendas.

Será por isso interessante perceber se os produtores tradicionais de automóveis com novos modelos elétricos que possam surgir no mercado antes do modelo 3 do Tesla terão capacidade de aproveitar a notoriedade e ganhar posição de mercado. Em qualquer caso, o mercado dos veículos elétricos poderá estar a entrar numa fase decisiva de crescimento.

(nota mental: o que também os vai tornar um apetecível alvo para tributação em Portugal)

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Para fechar 2015 e iniciar 2016

um conjunto de fotografias de alguma memórias do ano,

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Março de 2015

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Maio de 2015

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Ainda Maio de 2015

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Junho de 2015

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Agosto de 2015

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Setembro de 2015

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Dezembro de 2015IMG_2567.jpg

1 de Janeiro de 2016IMG_2591.jpg

 


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Novo Doutor em Administração da Saúde

Defendeu ontem a sua dissertação de doutoramento Adalberto Campos Fernandes, que tem sido uma das pessoas mais visíveis na discussão dos problemas e da organização do sector da saúde em Portugal. Acresce que tem sido referido como Ministro da Saúde de um futuro Governo liderado pelo PS.

A tese versou sobre um tema sempre quente em Portugal, a relação público – privado na saúde, aqui tratada na nuance combinação público – privado (e o novo Doutor explicou o porquê da diferença na defesa pública). O título do trabalho é “A combinação público – privado em saúde: impacto no desempenho no sistema e nos resultados em Saúde no contexto português”.

A dissertação, pelo que foi possível aperceber pela discussão pública, reflete a experiência profissional do autor, além de ter tido uma recolha de informação própria (questionários e entrevistas)

A pergunta crucial que é natural surgir é “deve o sector privado crescer mais?”, interessante em si mesma e também pelo que possa ter de implicações para políticas futuras no campo da saúde. A resposta não foi evasiva (como poderia ter sido), tendo o autor defendido que o sector privado deve ter as características, incluindo aqui a dimensão, que melhor sirva o serviço público. Devem-se procurar sinergias e cooperação e não competição entre sector público e sector privado.

Mas esta parte surgiu na fase de discussão, e há que olhar para as hipóteses colocadas e as respostas que foram dadas às perguntas inerentes às hipóteses. Identifiquei, da apresentação inicial, três questões base: o sector privado contribui para melhorar a eficiência do sistema de saúde? Como afecta o sector privado a equidade? Encontramos melhores resultados de saúde da maior participação privada?

O horizonte temporal da análise foram as três décadas entre 1983 e 2013, tendo sido recolhida informação estatística para vários indicadores, feitos mais de 400 questionários e realizadas mais de 100 entrevistas. As diferentes formas de informação deram uma resposta globalmente coerente entre elas às perguntas colocadas. E em todas as respostas a conclusão é globalmente positiva para o papel do sector privado: contribui para a eficiência, contribui para uma maior equidade (nomeadamente na cobertura geográfica). Daqui se percebe a pergunta anteriormente colocada sobre se o sector privado deve crescer ainda mais.

Estas impressões decorrentes da discussão pública do trabalho poderão certamente vir a ser aprofundadas com a leitura da dissertação quando estiver publicamente disponível. Até lá ficam as felicitações ao novo Doutor em Administração da Saúde e aos orientadores, Helena Monteiro e Ricardo Ramos Pinto, do ISCSP.

acf


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Memórias de Paris, Setembro de 2015

A regressar algures nos próximos dois meses, em visita rápida de trabalho. Que as memórias de Paris não sejam as que os terroristas procuram instalar na nossa mente, e sim as que escolhemos.

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puxar o brilho à prata da casa

5 anos de Pordata. Ideia de António Barreto. Liderança e concretização de Maria João Valente Rosa. Apoio da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Uma nova forma de acesso a estatísticas sobre Portugal. Uma nova forma de as entidades que produzem estatísticas se relacionarem com o mundo exterior.

Comemorações com Hans Rosling, que desenvolveu um método de apresentar estatísticas de forma viva e apelativa (gapminder). Entre as várias estatísticas internacionais que falou, referiu que Portugal hoje tem a melhor esperança de vida para os países que têm rendimento (PIB per capita) similar. E essa característica não estava presente em 1980, primeiro ano  do Serviço Nacional de Saúde (criado em 1979). Os dois gráficos seguintes do gapminder ilustram esta diferença de 33 anos (2013 é o ano mais recente). Temos aqui uma base para maior ambição, que deve passar pela melhoria da qualidade de vida em idades mais avançadas, além da longevidade.

De qualquer forma, foi simpático vir alguém de fora “puxar o brilho à prata da casa”.

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