Momentos económicos… e não só


2 comentários

Dilema: ter sanções ou não ter sanções?

A grande discussão económica das últimas semanas, brevemente interrompida pelos sucessos desportivos recentes, é se a União Europeia irá, ou não, aplicar sanções de natureza económica a Portugal, no cumprimento das regras a que Portugal voluntariamente se comprometeu quando integrou como fundador a zona euro.

É evidente que para Portugal, agora e neste momento, é melhor não sofrer sanções. E será sempre verdade “agora e neste momento”, qualquer que ele seja. O que está em causa não é se as sanções por si vão ajudar a economia portuguesa. Não vão. A questão é saber se Portugal (e já agora cada um dos restantes países do euro, pelo menos) tem capacidade de viver num mundo de decisões de política económica com regras fixadas previamente. O propósito dessas regras é evitar erros de política económica ou aproveitamento dos mecanismos europeus à custa dos restantes parceiros (e se todos fizerem isso, no final todos ficarão pior – é o velho problema da “conta do restaurante” ).

A criação de regras tem o potencial de gerar melhores decisões de política económica em geral, mas tem que lutar contra a tentação de subverter essas regras no futuro, argumentando que não se aplicam. Este debate sobre a relevância das regras é permanente. Há cinco anos, num outro texto, procurei explicitar o que nos diz a análise económica (ver aqui).

Mas qual é o problema de Portugal argumentar que não lhe devem ser aplicadas as sanções previstas pelos tratados que Portugal livremente assinou? Se o argumento se baseia em não estarem preenchidas as condições para essa aplicação, então a discussão é sobretudo uma discussão técnica, e deverá ser conduzida nesse plano. E Portugal tem neste caso toda a razão em discutir com os serviços da Comissão Europeia que preparam os documentos para a decisão política.

Mas se o argumento é que apesar de estarmos nas condições de aplicação de sanções, essa aplicação é prejudicial à economia portuguesa e como tal não deverá ser aplicada, então estaremos a ajudar a minar a credibilidade da estrutura montada para o enquadramento das decisões económicas, e também a minar a credibilidade nacional (quando Portugal se comprometer no futuro com decisões de longo prazo, os nossos parceiros “aprendem” desta situação que procuraremos renegociar mais tarde, o que afectará os termos com que quererão trabalhar com Portugal). O que se joga com as sanções a Portugal e Espanha no contexto europeu é a credibilidade de um sistema em que podem ser tomadas decisões de longo prazo e esperar que os países as cumpram versus um sistema de negociação permanente, com a incerteza a ele inerente. A discussão que tem sido feita em Portugal mostra a preocupação (grande) com o momento presente, ignorando os efeitos de longo prazo na credibilidade e reputação do país e dos mecanismos europeus (aspecto em que Portugal não está sozinho, claro).

 


7 comentários

Brexit e uma avalanche de opiniões

O resultado do referendo no Reino Unido trouxe a decisão de saída da União Europeia. Os próximos tempos vão ser avassaladores nos comentários e análises. Não é difícil antecipar que haverá quem anuncie o fim do “projecto europeu”, como quem defenda que sem os ingleses se poderá avançar para “mais projecto europeu”.

O processo de saída do Reino Unido levará até dois anos depois do pedido dessa saída, que terá de ser feito, e David Cameron no seu discurso de demissão referiu que será o próximo primeiro-ministro inglês a fazer esse pedido. O que só sucederá em Outubro, dado que Cameron anunciou que permanecerá até lá.

Os resultados do referendo vão ter consequências de curto prazo e de longo prazo importantes, para a Inglaterra/Reino Unido, para a União Europeia e para Portugal.

No caso inglês, o problema maior do resultado do referendo vai ser provavelmente político – A Irlanda do Norte e a Escócia votaram a favor de permanecer na União Europeia, as ideias sobre a independência na Escócia devem voltar, reforçadas pela vontade de pertencer à UE – o que a suceder cria dois problemas – como separar a Escócia do Reino Unido? Como fazer a adesão da Escócia à União Europeia?

E também têm o problema político de uma Inglaterra que tem uma divisão Londres / resto do país. Os mapas de votação são muito claros quanto a isso (ver abaixo, retirados do Guardian). Poderá ser este um resultado de um discurso continuado de muitos anos (desde sempre?) contra a União Europeia e contra as suas instituições?

Em termos económicos, a Inglaterra tem mostrado ter uma economia com capacidade de ajustamento, e encontrará o seu novo espaço, com novos acordos, revisão da legislação para expurgar o que quiser do normativo europeu, etc.

Para a Europa, o desafio principal será o de gerir as relações económicas e políticas durante o processo de saída. Não há nada que impeça a criação de tratados que mantenham continuidade nas relações económicas vigentes. Sendo a primeira separação de um país da União Europeia, haverá um caminho de aprendizagem, mas que não tem de ser traumático. E dentro da Europa há o exemplo da República Checa e da Eslováquia, que resultaram da cisão de um país. Mais fortes serão as pressões para referendos nalguns países da União Europeia, o que terá tensões que se poderão transmitir a nível europeu.

Para Portugal, a principal mudança nos próximos meses virá do turismo, e do que for a evolução do câmbio da libra inglesa face ao euro. A concretizar-se uma desvalorização da libra face ao euro, os turistas ingleses terão menos poder aquisitivo, podendo vir a gastar menos em turismo. Se a saída do Reino Unido significar, por outro lado, que o euro se desvaloriza face ao dólar, poderão surgir melhores oportunidades de exportação para mercados onde o dólar seja a moeda de referência. Nada fácil antecipar o que possa ser este impacto.

 

 

Screen Shot 2016-06-24 at 07.29.41Screen Shot 2016-06-24 at 07.29.26


Deixe um comentário

negociar à grega e o que implica para o futuro

A grande incerteza europeia do momento é o que vai ser o comportamento do novo governo grego. Como bem descreve Ricardo Reis, as opções disponíveis não são muitas nem especialmente atractivas. Sobretudo agora que os novos governantes gregos vão ter que lidar com outros governos e instituições europeias em vez de falar para dentro do seu país para ganhar votos. E a incerteza não se desfaz (a propósito da qual, um excelente texto de Paulo Sande como leitura sugerida).

O que podemos encontrar neste braço de ferro?

A favor do Governo grego:

– elevado nível de dívida pública – será necessária uma qualquer solução, embora dificilmente venha a ser uma solução “sem dor” para os gregos;

– vontade (?) de eliminar a corrupção e os diferentes cartéis e grupos de poder que estão instalados;

Contra o Governo grego:

– pensar que é possível voltar ao que era o emprego público e os apoios públicos às mais diversas actividades

– pensar que não existe uma “restrição orçamental” (para o Governo)

E não é claro que o “esticar a corda” não tenha mais riscos para a Grécia do que para os restantes países da União Europeia e da zona euro em particular.

Tomando a situação actual, sem crescimento na Grécia dificilmente conseguirão pagar a dívida; mas o crescimento grego não surgirá automaticamente apenas por despesa pública; a Grécia tem um problema de longo prazo, não um problema conjuntural  de baixa procura; neste contexto, nas negociações referentes à dívida grega, o problema não é só saber se esta dívida toda actual pode ou não ser paga, é saber também como é que se evita que volte a acontecer de novo (na Grécia, e em certa medida como evitar que o argumento se repita nos outros países com problemas de dívida pública). E a esse respeito, não há nenhuma ideia que tenha surgido, sobre como limitar a possibilidade de voltar a suceder o mesmo.

A médio e longo prazo, a própria exigência grega de só falar com as instituições europeias, desfazendo a troika, diminui ou aumenta as possibilidades de uma cedência hoje poder ser tomada como precursora de cedências futuras? Há, pois, mais aspectos em jogo do que apenas o Syriza cumprir os primeiros pontos do seu programa eleitoral (e a negociação parece ser o primeiro e mais importante, que justifica a aliança estabelecida – se e quando houver uma negociação concluída, esta coligação poderá ser mantida?).

Para uma primeira semana, não deixou de ser a “agitação” prometida, veremos que solução será encontrada.


2 comentários

Business days

1. United Health tenta compra da Espirito Santo Saúde fora de bolsa – mas porquê? porque não compra em bolsa, de uma forma clara e transparente? comprar em bolsa significa oferecer as mesmas condições a todos os que investiram na ES Saúde, significa também que não haverá “comissões” ou coisas similares, e basta a suspeita para tornar a transacção complicada.

2. Potenciais investidores passam o lamento de que o Governo nunca mais se decide a privatizar a TAP. ok, e também aqui o processo deverá ser transparente e decidir se a venda é ao melhor preço ou se entra em conta um projecto estratégico, e se sim quais os mecanismos de credibilidade do mesmo.

3. Zeinal Bava sai da Oi. O que sucede agora à fusão com a PT, e o que sucede à PT? Exemplo de como transacções “fora do mercado” (problema da relação Rioforte – PT) a prazo diminuem valor, e redistribuem fortemente a favor de uns.

4. Ébola na Europa é ameaça para o turismo português? O que se passa em Madrid e como será afectado o turismo espanhol vão dar o primeiro sinal.

5. Voltar ao 1. e esperar que a venda seja feita em bolsa, para confusão e preocupação chegam os outros pontos.


Deixe um comentário

Sessão “Novo Pacto para a Europa”

Decorreu na semana passada uma sessão dedicada a “Novo Pacto para a Europa”, na Fundação Calouste Gulbenkian (ver programa aqui), e dinamizado por Maria João Rodrigues nesta sessão. Corresponde a um esforço europeu, com site aqui.

Aqui fica um breve resumo dessa discussão, que se afigura como o início de um caminho importante para a União Europeia e onde fará todo o sentido que Portugal tenha uma participação activa, com contributos sérios e de afirmação. São as minhas notas da sessão, ligeiramente editadas (o que significa que vai em estilo resumo e sem preocupação de estilo).

Abertura por Maria João Rodrigues que introduziu o objectivo final deste processo de discussão: elaborar proposta de pacto para a União Europeia. Desafios identificados: desemprego, estado social, como competir; divergências internas; sistema político europeu distante dos cidadãos, problemas de liderança; Desafios culturais: identidade colectiva europeia? Falta de projecto comum; Desafios externos: alteração da ordem global, risco de declínio da europa.

Três questões chave para a discussão: Outros desafios? Opções, há mais? Dentro das opções, qual a melhor para Portugal?

As opções apresentadas, com os seguintes titulos: 1-Regresso ao essencial; 2-Consolidação do acervo do passado; 3-Progressão ambiciosa; 4-Salto em frente; 5-Mudar a lógica do mais/menos europa.

(Comentário: É deixada a pergunta de qual a opção preferida de cada um: depois de ler os documentos, a minha preferência vai 3+ (societal dimension e  external dimension da opção 5). Mas a opção como cidadão ou como técnico pode ter algumas diferenças. E sobretudo fica uma questão: Condições para cumprir as opções?)

Do painel convidado, o moderadora Seixas da Costa, introduziu alguns tópicos e a sua visão: Urgência financeira retirou capacidade de pensar nas questões europeias; Esquecem desequilíbrios interinstitucionais gerados pelo tratado de Lisboa; Diferenciada capacidade dos diferentes estados membros de gerirem a sua participação; Capacidade dos parlamentos europeus em controlar o processo europeu

O primeiro comentador convidado, Viriato Soromenho-Marques: Falta engenho e cultura política, conhecimento. 1ª cenário – não é possível pelos custos de transição; cenário existe porque não há suficiente centralidade; seria preciso mais coordenação para funcionar do que avançar. Falta a coordenação que o cenário pressupõe. 2º cenário – fazia sentido nos anos 50, hoje esta lógica é irrelevante; o vulcão da divida soberana pode acordar a qualquer momento; 3º cenário – junta o melhor de duas hipóteses contraditórias e consegue irritar toda a gente. Super-comissário das finanças dá demasiado poder à CE. Não resolve o problema do orçamento comum. Lista transnacional é um erro. Federalismo de nações e não apenas de cidadãos. A CE faz parte do problema e não faz parte da solução. 4º cenário – direcção certa, mas corre risco de tropeçar, apostar na sua melhoria. Tem potencial de gerar hostilidade. Deixar cair exército europeu e política de segurança comum. Referendo é erro, tratado constitucional a ratificar estadualmente é correcto. Ignora duas questões centrais: mudança de estatutos do BCE (duplo objectivo: estabilidade de preços e emprego), capacidade de emissão de dívida europeia. Limitar o poder dos “engenheiros” da UEM. 5º cenário – pós-moderno, quem é limpa a casa desarrumada; passa ao lado dos desequilíbrios dentro da UE. Balanço que faz: número de actores limitado; uma crise sem sujeito; assimetria entre poder e democracia; quem defende a europa neste momento com posição de poder; ausência de sujeitos transformadores; grande défice de competência democrática – as elites europeias não estão à altura dos desafios europeus; falharam os governos, os partidos, as universidades.  A resposta que está a ser dada é monstruosa. Há um discurso de insensibilidade nos dirigentes que mistura ignorância com arrogância ideológica, cada órgão puxa para o seu lado; trivialidade sistémica; só um milagre poderá salvar a europa de cair definitivamente numa nova balança do poder e seu derradeiro suicídio .

O segundo comentador foi Vitor Martins: “Impossível unir a europa no quadro da desconfiança dos cidadãos” – citação; desconfiança como problema central; opção preferida: 2-3-4 é onde se consegue focar; não consegue pensar à volta da 5, e a opção 1 não é opção; coração na opção 4, racionalidade atira para a opção 3. A apresentação “back to basics” não é correcta. O “passado” tinha uma visão política aprofundada e consistente. Tinha um método, o método comunitário. O fracasso do euro será o fracasso do mercado único. O centro de gravidade europeia está no euro. 2º cenário – é preferida por políticos europeus por significa gerir com o mínimo custo possível e máxima aparência política. Contribui a prazo para a desconfiança dos cidadãos. Euro foi salvo do colapso por medidas pontuais. Não se tem certeza sobre a sustentabilidade do euro. Retira aos líderes e políticos a necessidade de se assumirem com uma visão. É uma opção sem visão. 3º cenário – temos que olhar para as respostas do Euro; colocar o euro no mapa de uma zona económica e monetária consistente e credível; há a questão central do BCE;  relações entre parlamentos nacionais e instituições comunitárias; provavelmente exige revisão de tratados, mas como fazer isso num quadro de desconfiança dos cidadãos. 4º cenário – sentiu-se a ler o projecto de constituição de 2003; no quadro de desconfiança não há forma de andar em frente; 5º cenário – não consegue lidar com esta opção.

O terceiro comentador, João Ferreira do Amaral: Dois aspectos que não assinalados: disparidade de poderes entre estados membros. Acabou a igualdade entre estados. Houve desproporcionado aumento do poder alemão. É um problema para a Europa lidar. Estreitaram-se os leques de opções políticas. Ou é política ultra-conservadora ou não é política. Não há uma grande diferença entre as opções 3 e 4. Opção 5 não é incompatível com nenhuma das outras. Importante reforço das questões relativas aos direitos humanos. Discordância face à opção 1.  Não se trata de regresso ao passado. A UE nunca fez o que era básico, e fez várias coisas que não eram básicas (exemplo: PAC). Opção deve ser fazer o essencial, independente do passado. O que é fazer o essencial? Estados com interesses comuns, a actividade da EU deveria incidir sobre os interesses comuns. Esta expressão é ambígua: interesses comuns colectivos vs interesses em todos os estados e por isso são comuns. Focar-se nos interesses comuns colectivos: cooperação monetária mas não moeda única; defesa; ambiente; comércio livre; recursos naturais transfronteiriços. Adepto da Europa à la carte. Tudo o que não sejam estes interesses comuns colectivos devem ser facultativos. Disparidade de interesses com 28 países não é possível fazer de outra forma. A UE deve existir para proteger os estados da globalização, e que a melhor forma de o fazer é transferir poder para o centro da UE. É uma visão errada reduzir as autonomias nacionais. Globalização reforçou o papel das nacionalidades e a coesão nacional como resposta a essa globalização. Federalismo não é estado federal, mas era isso que se pensava. Ter moeda única obriga a ter estado único, de outro modo não funciona. É preciso ter os mecanismos próprios em termos monetários e em termos orçamentais, Preservar autonomia nacional versus união de estados federados. Autonomia como gestão de interdependências, com instrumentos próprios: moeda própria e orçamento.

Da audiência surgiram os seguintes comentários:

[1]: PAC foi básica e essencial, mas depois transformou-se num instrumento perverso. De resto não está de acordo com o J Ferreira de Amaral.

[2]: Nunca encontra discurso optimista sobre a Europa. Como e com quem implementamos as opções estratégicas? Hoje qual é a coligação política, geográfica, o método e a forma, de aplicar cada uma das estratégias.

[3] Novo pacto precisa de ser esclarecedor quanto à nova visão. O mundo mudou imenso desde a época dos fundadores. Qual a visão que mobiliza as novas gerações. Continuamos a tentar responder a uma crise, mas será possível ter o conhecimento dos interesses genuínos que não sejam apenas reactivos.

[4]  Não sabe o que é o federalismo republicano. Vive as angústias das empresas portuguesas. Posiciona-se entre o 2 e o 3. Hoje fala-se na reindustrialização na europa, essencial para a europa no mundo.

[5] Para questões complexas não há respostas simples. Será que a política tradicional tem os instrumentos para encontrar as respostas. Fazer política com outras regras. O maior problema identificado é o que é o projecto europeu. Não há um pensamento orgânico. Grande política só se pode fazer com grandes compromissos. É possível gerir esse compromisso entre as grandes famílias políticas europeias (PPE e Socialistas). O pacto deverá encerrar um desafio às famílias políticas europeias para dar confiança aos cidadãos. Está entre a 3 e a 4.

[6]  Distinguir entre o que desejamos e o que podemos esperar alcançar. Evitar exercícios agressivos de engenharia social. Pensar em soluções compatíveis com processos democráticos nacionais. Elimina a 4 e 5 como opções razoáveis, por muito que sejam desejáveis. Identifica-se com muito do que disse o J Ferreira do Amaral. Mas hoje não é possível retroceder. Não se sabe onde se pararia, e pode-se deitar o essencial fora. Opção 2 é o status quo. A actual construção teve resiliência suficiente. Está entre a 2 e 3, não é excessivamente critico para a actual situação (abanou-se mas resistiu-se). Introduzir mecanismos de coordenação macroeconómica. Necessário ter mecanismos de ajustamento simétrico.

[7] Não é favorável ao cenário 1, mas é necessário discutir por causa da Inglaterra. As próximas eleições podem trazer muitos eurocépticos para o parlamento europeu. 2º cenário – não é necessário ter preocupação com ele. Tende a fundir 3º e 4º cenários. Entre aquilo que se pode pensar e o que as populações querem pode ter uma diferença grande. A UE tem a ganhar com alargar algumas das suas políticas (exemplo, política europeia de imigração). Política europeia de combate à exclusão social. O grande problema é a zona euro. Tal como está não vai funcionar. Funciona hoje com regras ditadas pelos alemães, mas não tem mais nada. É preciso alguma integração fiscal. Problema da soberania fiscal dos estados membros. Cria distorções no mercado interno. Necessário ter harmonização fiscal. Não acredite que se mude facilmente. Tem que haver simetria no ajustamento.

Maria João Rodrigues explicitou um pouco o que tem sido a discussão noutros países: Cenário 5 – não é opção integral, mas pode valorizar outras opções; Cenário 1 – Reino Unido, mas não só. Maioria divida entre 2 como suficiente, ou não, para lidar com a crise. E nesse caso avançar para 3 ou 4. Países do Norte: maioria para 2 como suficiente; resto com 3 e 4.

Continuando com a audiência:

[8] Portugal tem mostrado capacidade de identificar o interesse comum. Podemos dar um contributo real.

[9] Pontos chave:

–       restaurar acesso mais normal ao crédito, tem que se ter supervisão bancária mais forte e solução que não penalize os contribuintes

–       se os estados membros querem uma perspectiva de crescimento sustentado, com policy mix para crescimento e protegidos de choques macroeconómicos, exige orçamento da zona euro; mas para caminhar nesse sentido tem que haver mais coordenação de políticas económicas, sociais e orçamentais

–       reduzir peso da dívida pública, é necessário instrumentos europeus, mas requer maior coordenação orçamental incluindo impostos, e imposto europeu.

–       Em termos políticos, é necessário funções de governo da zona euro, com capacidade de responder politicamente perante um parlamento europeu.

–       Sequência política é chave para poder resultar, passar da 2 para a 3 pensando na 4.

[10] Sobre países do Leste, estas opções têm impacto sobre a integração diferenciada. A europa a la carte está minimizado, a diferenciação é entre os que são da zona euro e os que se querem juntar. Não acredita numa revisão do tratado de Lisboa. Seria utilizado pelo Reino Unido para voltar atrás. Mas será preciso rever algumas coisas para orçamento e governo da zona euro.

[11] Vamos fazer as contas das opções. Para saber os custos de cada opção/cenário. É preciso conhecer os benefícios e custos porque isso pode alterar as visões. Humildade de reconhecer que a realidade é mais rica. Estamos sempre a trabalhar em contextos de incerteza. Cépticos na inteligência e optimista na vontade. Não podemos separar da questão quem vai fazer isto e da desconfiança quanto a quem vai fazer isto.  Federalismo republicano: o modelo americano é o exemplo. Os estados são responsáveis pelas suas finanças públicas. Mutualização das regras de independência e da guerra 1812-1815.

(e mais foi dito, mas tive que sair)

Li o resumo que estava disponível, e depois da apresentação e da discussão, a leitura do documento principal fica agendada. Quem quiser o documento, está aqui.


Deixe um comentário

Portugal e a Europa (7): a visão de Dani Rodrik

A conferência plenária final de Dani Rodrik  não desiludiu e levou-nos a uma viagem pela sua visão da crise europeia, e dos caminhos que se apresentam. A grande conclusão será que as políticas adoptadas para solucionar a crise – austeridade fiscal para a questão da dívida e reformas estruturais para o questão de relançar o crescimento económico, ou não estão a funcionar ou se estão a funcionar são demasiado lentas a produzir efeitos e implicam um enorme sacrifício das populações, que a prazo poderá resultar em problemas sociais e para liberdade da sociedade (como exemplo, o crescimento dos extremismos na Grécia). Daí que avance com medidas do lado de estímulo da procura, a nível europeu, conjuntamente com uma definição de limites de inflação para o Banco Central Europeu mais amplo, permitindo ajustamentos por variáveis nominais (introduzindo mais graus de liberdade na procura de soluções). Vai também ser necessário fazer escolhas, e deixar cair uma das três seguintes: união económica, soberania nacional, políticas democráticas. Fingir que não há escolha a fazer não leva a que o problema de incompatibilidade entre as três desapareça, segundo Rodrik.

Do bloco de notas: (apresentação original aqui)

Duas narrativa têm estado presentes:

–       a culpa é deles – mau comportamento dos países da periferia

–       a culpa é colectiva – falhas no projecto europeu, união económica incompleta, com problemas estruturais expostos quando os países foram atingidos por um choque financeiro externo

Há elementos de verdade em ambas as narrativas. Em larga medida, os elevados défices externos resultaram de um fraco desempenho em termos de produtividade; para cada endividamento imprudente houve um credor igualmente imprudente. De qualquer modo, as crises financeiras não são histórias de moralidade.

Numa verdadeira união económica, a solução dos problemas seria bastante diferente.

Porque é que a Florida não é uma unidade económica relevante e como tal ninguém se preocupa com o seu défice “externo” (e eventualmente interno aos Estados Unidos)? tem leis federais para o sistema bancário, tem um “lender of last resort”, os pagamentos de desemprego e de apoio social são federais, os interesses da Florida estão representados nos órgãos de decisão a nível federal (em Washington), os residentes podem-se mover facilmente para qualquer outro lado, a Florida não tem poderes de soberania.

A europa tem um problema de interdependência mal gerida. Os credores não devem aproximar a questão da dívida como um problema de moralidade.

É preciso ter cuidado com o optimismo das projecções oficiais. Mesmo com as hipóteses optimistas que usualmente são usadas, Portugal só irá recuperar ao fim de mais de 5 anos o nível de riqueza produzido em 2007.

Os fundamentos económicos subjacentes à crise não têm sido tratados. Existem dois problemas base: a elevada dívida (problema de stock) e a baixa competitividade (problema de fluxo).

A baixa competividade implica ou elevado desemprego ou défices externos elevados. Passamos do segundo para o primeiro.

A fragilidade financeira foi reparada? em larga medida, não. Continua a existir muita divida e a desalavancagem financeira das empresas ainda mal começou. A fragilidade financeira continua na periferia. Os mercados financeiros continuam segmentados.

Foi a competividade restaurada? as melhorias registadas são limitadas, e são largamente devidas a redução de emprego. A maior parte da descida nos custos unitários de trabalho resultaram de um colapso no emprego. E não está a acontecer no sector privado. A melhoria da produtividade não está a acontecer. Segundo o FMI apenas se ajustou ainda ¼ da perda de competitividade.

Podem as reformas estruturais levar a um novo surto de crescimento económico?

a lógica é reavivar as economias através de ajustamentos no lado da oferta. Em teoria poderia funcionar, com flexibilidade do mercado laboral, com desregulação de profissões, com privatizações

Mas é isso que vemos na prática? vê-se sobretudo redução no número de trabalhadores em sectores de baixa produtividade, mas não há uma expansão nos sectores com elevada produtividade para absorver esses trabalhadores

Com uma baixa procura agregada, este segundo mecanismo não tem grande força.

Fica-se preso num ciclo vicioso – austeridade fiscal resolve o desequilíbrio externo, mas agrava o desemprego, o que agrava as contas públicas

As reformas estruturais acabam por fazer pouco para compensar este movimento.

Além disso, o fraco crescimento de toda a zona euro também prejudica Portugal porque as nossas exportações são fortemente concentradas na zona euro.

Está a crise a acabar? não propriamente. As actuais políticas estão a produzir pouco efeito: austeridade fiscal para reduzir dívida, reformas estruturais para promover crescimento.

O que é necessário?

–       assumir que alguma dívida será perdoada,  parte dessa dívida já está perdida de qualquer modo, não se há vantagem em continuar a fingir que não está

–       politicas direccionadas para a despesa – maior despesa na Alemanha, reduzir os preços dos bens não transacionáveis, ter políticas sociais ajudaria

–       ter para o Banco Central Europeu um referencial de inflação mais elevado, para permitir ajustamentos da taxa de câmbio real através de variáveis nominais

Em termos políticos, ter uma narrativa diferente sobre a natureza da crise. Abordar o problema em termos de gestão de interdependências e não de moralidade.

É provável que se siga este caminho? há uma janela de oportunidade depois das eleições na Alemanha. Mas não se pode esquecer o papel da França, que não tem grande incentivo a formar uma coligação com o sul da europa.

No longo prazo, existe um trilema político: de três tem que se escolher apenas dois:

1)   união económica na zona euro

2)   politicas democráticas

3)   soberania nacional

As três opções ao mesmo tempo não são possíveis.

Uma união económica que funcione requere uma redução da heterogeneidade estrutural nos enquadramentos institucionais – restrições na soberania nacional e na diversidade.

No curto prazo, devem-se usar alguns remédios keynesianos.

A democracia exige que funcionamento da economia de mercado seja acompanhado pelo funcionamento das instituições políticas.


Deixe um comentário

que outra nacionalidade da União Europeia escolheria ter?

foi a pergunta que coloquei há uns dias, com base em 35 respostas, os resultados até este momento são uma clara preferência pelo norte da Europa, com o Reino Unido à cabeça, seguido da Escandinávia, portugueses à fuga do estigma de país do Sul?

Screen Shot 2013-09-23 at 13.45.38